Você está ouvindo
Tua Rádio
Ao Vivo
05:00:00
Tá na Hora
07:00:00
 
 

O sentido da nação e do nacionalismo

Miguel Debiasi

 

O movimento de globalização pode levar à unificação da humanidade num futuro logo adiante. As gerações passadas podiam pensar que a vida humana era uma simples repetição dos mesmos costumes ou tradições. Já às gerações do futuro, com a aceleração da história, não será permitida tal ilusão. O movimento de unificação da humanidade poderá prosseguir num sentido positivo para as futuras gerações e civilização. Em tese, se isto for correto, faz repensar sobre o sentido da nação e do nacionalismo.

Em presente cenário, a vida humana e a história estão num caminho crescente pela unificação da humanidade. As culturas, as técnicas, as ciências e as produções industriais constituem-se pelo intercâmbio das contribuições de milhares de seres humanos. A civilização contemporânea resulta de uma ação mútua de bilhões de pessoas e dar um passo adiante por novas descobertas resultará numa partilha de múltiplas ideias. Todo o progresso da ciência, da filosofia, da técnica e da produção é resultado da integração das experiências e das sabedorias humanas. Desta perspectiva, só haverá progresso e desenvolvimento da humanidade pelo intercâmbio de todas as ciências e de todo o conhecimento humano.

Nesta perspectiva, em mundo hodierno as decisões importantes para o amanhã só serão acertadas mediante a posição de muitas pessoas. O verdadeiro progresso da sociedade moderna é resultado de pessoas e sistemas, de interferências e de inúmeras intercomunicações. O intercâmbio de toda ordem fortalece a história da humanidade que é sua unificação. A velocidade do progresso tecnológico e científico mostra ser isto um imperativo. Contudo, a unificação da humanidade poderá ser sinônimo de um processo de massificação dos indivíduos. Isto é, a aceleração global poderá não levar boa parte da humanidade a sua personalização. Ou seja, nem libertar as pessoas e nem colocá-las em frente da história como sujeitos, como pensava o teólogo belga José Comblin.

A razão de ser da nação e do nacionalismo está atrelada justamente ao sentido da humanidade: libertar as pessoas e transformá-las em indivíduos e sujeitos críticos da história. A constituição de uma nação e de um espírito nacionalista transcende uma soberania nacional. Cabe à nação e ao nacionalismo despertar a consciência dos cidadãos e sua disposição de unidos colaborarem para uma humanidade unificada, capaz de constituir uma comunidade universal. Esta realização não é estranha à fé, o cristão acredita que o estado final da humanidade é sua unificação em Cristo ressuscitado.

Em presente contexto da humanidade do século XXI, a missão da nação é a formação de uma consciência nacional capaz de dialogar e formar uma comunidade universal. É inútil acentuar o caráter de nação e fomentar certo nacionalismo fundamentalista que rejeita o trabalho de organismos internacionais. Estes foram constituídos em prol de uma humanidade pacificada, unificada, como expressão de uma comunidade universal. A nação precisa ser pensada e conduzida como uma comunidade intermediária capaz de ocupar seu papel ativo em preparação dos cidadãos em prol de uma humanidade universal.

O nacionalismo autêntico decorre da essência da nação que é libertar os indivíduos para a evolução da humanidade como comunidade universal. Um verdadeiro nacionalismo surge de um projeto econômico, social, cultural e político com base nos princípios de edificar uma comunidade nacional autônoma a contribuir para a elevação de toda a humanidade mundial. Um nacionalismo cultural só poderá servir ao progresso humano proporcionando aos indivíduos desenvolvimento da razão crítica e autônoma, capaz de assumir a obra comum da humanidade.

O nacionalismo econômico visa que a pessoa exerça no trabalho a sua existência histórica de forma pessoal a colaborar com uma obra comum. O nacionalismo social leva as pessoas a superarem a estreita vinculação e aspirarem a uma atividade de inter-relações que se apoiem na socialização. O nacionalismo político, o alicerce dos demais, leva à emancipação da comunidade nacional em que rejeita toda a forma de dominação em prol do progresso de toda a humanidade, como indicava o teólogo Comblin. Em suma, nação e nacionalismo são elementos mediadores com seu papel de libertar os cidadãos, a saber de seu valor e de seu compromisso na colaboração com uma humanidade constituída para a comunhão entre seres humanos.

Sobre o autor

Miguel Debiasi

Frei capuchinho. Atualmente é pároco da Paróquia Cristo Rei, de Marau, RS, e Conselheiro do Governo Provincial, eleito no dia 04 de setembro de 2014. Mestre em Filosofia e Teologia.Autor do livro Teologia da Tolerância – um novo modus vivendi cristã, publicado em 2015, pela ESTEF, Escola de Espiritualidade e Teologia Franciscana. Também escreve artigos e crônicas.

Enviar Correção

Comentários

Newsletter Tua Rádio

Receba gratuitamente o melhor conteúdo da Tua Rádio no seu e-mail e mantenha-se sempre atualizado.

Leia Mais