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Hello goodbye

Gislaine Marins

Cantarolar “Hello goodbye”, dos Beatles, é fácil e magnético. A canção cola nos ouvidos como se fosse ímã, o refrão se desmancha na língua como algodão-doce, gruda no céu-da-boca e a gente quer mais. Conta-se que a composição surgiu porque alguém perguntou a McCartney como era o seu processo criativo e ele resolveu mostrar na prática, pedindo para a pessoa dizer algumas palavras antônimas, com as quais foi compondo, a partir de uma base que improvisou no teclado.

Tudo é bastante casual e até frívolo na canção. Para dar apenas alguns exemplos, os versos iniciais dizem: “Você diz sim, eu digo não, você diz pare e eu digo vamos”. Uma palavra puxa o seu contrário, de forma lúdica. Lembro que meu filho, quando era criança, adorava brincar com as palavras. Comigo brincava de traduzir, passando de uma língua para a outra. Com os amigos, gostava de brincar de dizer o contrário, mais ou menos como fez o Paul nesta canção. Mas um dia, brincando com um amigo, o desafio era dizer o contrário de “forte” e ele respondeu sem pestanejar: “etrof!”. Há muitas maneiras da brincar com a língua e isso é uma salvação em um tempo em que desaprendemos esses saberes em prol da discussão e da contraposição, frequentemente vazia ou esvaziada por argumentos insustentáveis.

O que eu quero dizer é que a canção dos Beatles é fantástica porque exalta uma dimensão da vida que não podemos perder: o gosto pela brincadeira e o sentido de festa, sinal tangível da vida e da sua efemeridade. Naqueles momentos que a gente sabe que vão acabar logo, porque a felicidade dura pouco, também descobrimos concretamente o fôlego nos nossos pulmões e o desejo de agarrar-se à realidade que nos escapa. É quando sentimos que estamos vivos, porque tudo pode mudar de repente, enquanto o lento rumo para o nosso destino é feito de rotina e de tudo aquilo que fazemos do mesmo jeito, eternamente, como uma morte antecipada. Nisso consumimos a vida em vez de gozar a vida.

Não é só isso que gostaria de partilhar neste texto de contrários. Superficialidade às vezes é bom, mas não basta. É preciso ser sério nos momentos em que a vida exige decisão. Nessas circunstâncias, ficar no paradigma dos Beatles é totalmente inadequado e nos faz parecer tolos que só sabem usar dois argumentos, como crianças teimosas. Na vida real a teimosia é sinal de ignorância e incapacidade de analisar as situações com a devida profundidade. É sinal de orgulho, como os que não são capazes de admitir as próprias limitações. É indicador de surdez e pouca disponibilidade para a escuta atenta. Pode ser uma postura pedante, daqueles que ficam na forma e relativizam tudo, apenas para mostrar a sua capacidade de dizer o torto e o direito com a mesma intensidade.

A nossa cultura reserva um espaço enorme à língua e às suas funções. Temos entre nós campeões de demagogia formados nas melhores escolas que enfatizam a retórica e não entram no mérito das questões. Cansei de ver jornalistas desancando políticos por um erro de concordância, como se isso pudesse ocultar a mentira das promessas vãs de uma massa de políticos profissionais. Hoje demos um salto qualitativo (para baixo) em matéria de falcatrua: os políticos contam mentiras sistemáticas, como se acreditassem nelas e vivessem em um mundo paralelo, sem qualquer conexão com a dor e o sofrimento de quem passa fome e vive no desespero. Não usam a língua com o gosto lúdico dos Beatles, nem com o sabor lírico e totalmente plástico de um parnasiano e suas formas poéticas perfeitamente vazias. Não se trata de jogo ou de exercício literário com fim em si mesmos e no prazer que eles podem causar. Os mentirosos usam todos os recursos à disposição para proveito próprio, para usurpar o poder, para alimentar o seu desejo de onipotência. Não conhecem escrúpulos que detenham os seus objetivos: a língua é apenas um instrumento, o interlocutor é somente uma alavanca.

Em italiano, “oi” e “tchau” são palavras com um uso muito vasto. Quando alguém não está acreditando naquilo que o outro conta, pergunta: “oi?”. Quando não suporta mais as bobagens, diz: “tchau” ou ainda “tchauzão”. Não acredito que esses usos estejam relacionados à conhecida canção dos Beatles, mas cada vez que me ponho a cantar penso com os meus botões que muitas vezes “eu não sei por que você diz tchau, eu digo oi”. E na minha cabeça se abre uma brincadeira enorme e uma interrogação maior ainda.

Sobre o autor

Gislaine Marins

Doutora em Letras, tradutora, professora e mãe. Autora de verbetes para o Pequeno Dicionário de Literatura do Rio Grande do Sul (Ed. Novo Século) e para o Dicionário de Figuras e Mitos Literários das Américas (Editora da Universidade/Tomo Editorial). É autora do blog Palavras Debulhadas, dedicado à divulgação da língua portuguesa.

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