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Entre o simples e o complicado

Vanildo Luis Zugno

 

“Para quê fazer as coisas simples, se elas podem ser complicadas?” É a pergunta que nós, que nascemos antes da era digital, nos colocamos diante de sistemas operacionais, programas, aplicativos, telefones, comandos eletrônicos e digitais que, ao invés de facilitar, complicam a vida de muitos usuários. Se tomarmos os programas para edição de texto, por exemplo, de cada cinquenta funcionalidades, um digitador normal talvez utilize duas ou três. E olha lá!... O mesmo nos smartphones. São raras as pessoas que utilizam sequer 10% de todas as possibilidades que eles oferecem. Por que, então, não oferecer telefones, programas, máquinas... com os recursos básicos e que todas as pessoas possam utilizar?

Pode haver várias razões para isto. Mas uma é indiscutível: porque a maioria de nós trabalha com a afirmação inconsciente de que o mais complicado é melhor. E não só no campo da tecnologia. Também na vida prática. Se uma pessoa vai ao médico e este, após uma consulta, não pedir nenhum exame e não oferecer uma longa lista de medicamentos a consumir, é provável que este médico seja considerado como não confiável. Mas se o médico pedir quatrocentos exames e disser que a pessoa tem dez doenças com nomes impronunciáveis e mandar tomar vinte remédios, caros e com bulas assustadoras, a pessoa muito provavelmente vai dizer: “esse médico é dos bons”!

No mundo das religiões, a necessidade que temos de complicar as coisas, é ainda maior. Quanto mais exigente ou bizarra nas suas demandas e ofertas for uma religião, mais provável é que atraia adeptos com rapidez e os mantenha convictamente ligados a essa experiência. Ainda mais se o chefe religioso usar nomes, roupas estranhas e tiver comportamentos bizarros.

O gosto pela complicação, de fato, parece fazer parte da própria condição humana. Mas não nos preocupemos: desde os tempos de Jesus era assim. Um rabino foi a Jesus e fez a pergunta religiosa clássica: “O que devo fazer para conquistar a vida eterna?” Jesus respondeu com aquilo que era o óbvio para todo judeu piedoso: “Observa os mandamentos”. E, para simplificar mais ainda as coisas, Jesus lhe diz: “E não precisa observar os dez. Basta observar os dois primeiros – amar a Deus e amar ao próximo – e tudo o mais se resolve!” Mas o doutor em leis, que era daqueles que acham que o complicado é melhor que o simples, logo atirou a pergunta: “Mas, quem é meu próximo?” De fato, os rabinos judeus tinham todo um sistema complicado para definir quem era “próximo” e devia ser amado e quem era “estrangeiro” e devia ser odiado. Jesus sabia disso e, para manter a sua afirmação na simplicidade da experiência da fé que pode ser alcançada por qualquer um, conta uma historinha simples: um homem foi assaltado e atirado meio-morto à beira do caminho. Vários passaram por ele sem fazer nada. Um samaritano passou, viu o homem caído e o ajudou. O samaritano é próximo daquele que estava caído à beira do caminho. Logo, o samaritano fez aquilo que é necessário para ter a vida plena e perfeita. Simples assim!

Se o caminho da salvação é esse, por que nossas religiões, inclusive o cristianismo, se apresentam de forma tão complicada? Tantas leis, tantas obrigações, tantos ritos, roupas, gestos, construções, negócios, funcionários, relicários, imposições, discussões sobre quem é Deus e qual é a melhor religião ou a Igreja que mais salva?

Suspeito que seja pela mesma razão que nos leva a desconfiar de máquinas, programas, softwares e telefones simples e fácil de usar: a satisfação com o complicado é um modo de disfarçar a nossa não disposição de fazer aquilo que é simples. Em outras palavras, complicamos para nos descomprometer. É preciso voltar ao simples, ao “arroz com feijão”, ao básico, àquilo que realmente nos torna humanos e nos conduz no caminho de Deus: amar ao próximo e amar o irmão. Tudo o mais pode até ser bom. Mas não é necessário. E pode atrapalhar o caminho da salvação.

Sobre o autor

Vanildo Luis Zugno

Frei capuchinho. Graduado em Filosofia (UCPEL – Pelotas) e Teologia (ESTEF – Porto Alegre), mestre em Teologia (Université Catholique de Lyon – França), é professor de Teologia na ESTEF e no UNILASALLE (Canoas) e doutor em Teologia na EST (São Leopoldo).

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