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Educar para colher flores

Gislaine Marins

A jardinagem ensina a paciência, mas às vezes não basta. É preciso ter confiança: esperar e confiar. Estava regando as minhas plantas, algumas das quais estão completando a maioridade na sala da minha casa e pensei: quem diria que o jardineiro queria colocá-las no lixo. São plantas que estão aqui porque nem o jardineiro acreditava que pudessem sobreviver. Recolhi sem alimentar grandes expectativas, mas dedicando atenção, garantindo iluminação. E esperando. Esperando muito. Confiando bastante.

Muitas vezes disse que o professor e o médico possuem uma coisa em comum: cuidam da vida da pessoa. Se o médico comete um erro, a vida do paciente pode ficar em perigo. Com o professor isso não se vê, mas também acontece: um estudante que desiste da escola ou que não consegue colher as boas lições que são disponibilizadas perde o futuro. Perde tempo: perde vida. É uma comparação que funciona, mas vendo as plantas que cultivo com amor e confiança, pensei que é melhor comparar o professor a um jardineiro, pois a educação não deve preocupar-se tanto com os perigos da vida quanto com a primavera, que não pode chegar sem flores desabrochando.

Uma das minhas plantas chegou a ficar com um galho apenas. Parecia que não conseguiria fazer brotar mais nenhuma folha. Hoje são dezoito anos e quatro galhos robustos. Não é muito, mas ela está viva, verde e forte. Outra perdeu todos os caules vigorosos e, para não me deixar com o vaso completamente vazio, ficou com um broto franzino, sem força para erguer a folha, caído pelas bordas. Aguardei. Depois de seis anos, ela hoje possui nove ramos, dois deles fortes e carregados de folhas. Se eu fosse jardineira, talvez tivesse jogado fora a planta quando quase tudo estava perdido. Mas eu sou professora e essa vocação ninguém nos tira, que cuidemos de uma planta, de um animal ou de uma pessoa. Eu acreditei que a planta podia voltar a crescer e coloquei todo o meu empenho para ver o resultado: seis anos!

Um dos maiores erros do nosso sistema educacional é organizar a vida da pessoa por anos e por exames. Não digo que não tenhamos um calendário e não façamos avaliações periódicas, mas o objetivo dessas atividades não deve ser a seleção e o descarte, deve ser a consideração sobre as soluções a adotar para que os alunos desabrochem quando atingirem a sua primavera. A repetição é uma das maiores aberrações que inventamos: é possível dizer para uma pessoa pegar o relógio, girar os ponteiros ao contrário, voltar atrás e começar novamente? É claro que isso não acontece na vida de ninguém: nem das plantas, nem dos animais e nem das pessoas. Deveríamos apenas dizer: estude mais isso, use bem o tempo e siga adiante naquilo que já começou a compreender.

Falamos tanto de ensino personalizado e depois perdemos a coerência na avaliação linear de massa. Falamos de inclusão fazendo seleção. Falamos de igualdade de oportunidades promovendo a competição individual. Não por acaso, quando os nossos jovens chegam à idade de procurar um emprego encontram dificuldades de relação interpessoal, inexperiência em trabalhos de grupo, pouca habilidade para lidar com o sentimento de confiança recíproca. Não somos treinados para desenvolver as habilidades humanas, recebemos instrução, mas não educação.

Educação vem do verbo latino “ducere”, que significa conduzir. Educar é conduzir no bom caminho, não excluir do caminho. O educador é um condutor, que acompanha ao longo do caminho, que estabelece o ritmo da caminhada de acordo com as condições da estrada. De certo modo, o professor é um especialista em abrir canteiros, em regar as plantas, em podar aquilo que não serve e em esperar. Esperar a chuva e o sol. Esperar o calor depois do inverno, esperar a primavera e o florescimento. É uma espera atenta, confiante e repleta de alegria quando vemos um brotinho germinar, um botão se abrir, uma fruta amadurecer. É um trabalho fantástico, apesar da desvalorização e da ignorância geral sobre a profissão.

Hoje acordei pensando na minha professora de português da quinta série: Maria Luísa. Ela dizia que eu deveria estudar direito e me chamava de defensora dos frascos e comprimidos, pois sempre tinha alguém a ser protegido do rigor de alguns professores. Ela estava certa, mas disse a coisa errada: realmente o meu caráter defensor sempre foi bastante evidente, especialmente em relação aos que tinham menos coragem ou menos voz na escola. Por isso a profissão de professora era perfeita para mim: porque educar é permitir que as pessoas descubram a sua voz e façam os seus talentos desabrocharem como uma primavera que perfuma o mundo. Isso significa educar para mim: cultivar para um dia ver as flores.

Sobre o autor

Gislaine Marins

Doutora em Letras, tradutora, professora e mãe. Autora de verbetes para o Pequeno Dicionário de Literatura do Rio Grande do Sul (Ed. Novo Século) e para o Dicionário de Figuras e Mitos Literários das Américas (Editora da Universidade/Tomo Editorial). É autora do blog Palavras Debulhadas, dedicado à divulgação da língua portuguesa.

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