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Tempos de autonomia e de insegurança

Miguel Debiasi

Com o tempo tudo se transforma. O conhecimento amplia-se a cada nova geração. As práticas e os métodos científicos são aprimorados. Valores são reconfigurados em novos comportamentos humanos e sociais. Somente Deus, ser absoluto, permanece imutável, ainda que seu conceito e a prática religiosa se modifiquem no decorrer da história. No mais, tudo está na condição de mutável.

Ao considerar a realidade e a vida contemporânea em processo de constante transformação, o filósofo e sociólogo polonês Zygmunt Bauman (1925-2017) publicou a obra Modernidade líquida. O livro é objeto de estudo de intelectuais de vários países do mundo. O autor diz que a vida e o pensamento moderno são vulneráveis, fluidos, temporários, frágeis. Essa mudança ganhou ritmo intenso em meados do século XX. O motor da mudança são as tecnologias, onde o tempo se sobrepõe ao espaço, sendo possível movimentar-se sem sair do lugar e de maneira instantânea.

Para Zygmunt Bauman a época da modernidade contrapõe-se ao tempo do excesso da ordem, repressão, regulação, engajamento. A modernidade gerou um mal-estar à estabilidade de instituições, Estado, família, escolas e igrejas que aceitavam uma determinada autoridade. O mal-estar nasce da vontade subjetiva de estabelecer o princípio da liberdade individual sobre as demais relações humanas, sociais e institucionais.

Em sociedade moderna aconteceram enormes transformações e separações. Em nível de democracia aconteceu a separação do poder e da política. No caso, o Estado perdeu a força e em consequência deterioram-se os serviços públicos facilitando a economia neoliberal e a privatização. Sinal da separação foi o fracasso do modelo do Estado do Bem-Estar Social da Europa e do colapso da democracia e da política pública. A vitória de Donald Trump nos EUA é resultado deste colapso do sistema democrático.

A fluidez do mercado é a caracterização da modernidade como tempo líquido. Em nenhuma época a história viveu a satisfação imediata como na moderna. A vida atual não suporta o retardamento da satisfação. A satisfação está ligada à economia, ao consumo. Como diz Zygmunt Bauman, “vivemos a crédito”. Por conta deste estilo de vida tem-se uma geração endividada, incapaz de pensar um equilíbrio entre receita e despesa. Até o bom orçamento tem excesso de despesas, instabilidade econômica pessoal e pública. Por conseguinte, aumenta-se a desigualdade econômica e social. A insegurança é outra manifestação da fluidez do tempo moderno em que a população mundial foi submetida ao medo, terrorismo, violência cotidiana e no mundo virtual os hackers, haters, fake news das redes.

Tendo passado um século da Primeira Guerra Mundial a humanidade dividiu-se entre poucos abastados e a maioria empobrecida. A ideia motriz da sociedade moderna é padronizar e dirigir as pessoas para a conservação e manutenção da ordem, dirigidas pelo lucro. A sina do indivíduo é lutar pela sua liberdade com pouca chance de salvação dada à insegurança, decadência das relações humanas e sociais. No fundo, a modernidade promete liberdade, mas a sociedade o presenteia com insegurança social. Em suma, a autonomia do indivíduo perdeu-se na condição de insegurança humana, social e planetária.

Sobre o autor

Miguel Debiasi

Frei capuchinho. Atualmente é pároco da Paróquia Cristo Rei, de Marau, RS, e Conselheiro do Governo Provincial, eleito no dia 04 de setembro de 2014. Mestre em Filosofia e Teologia.Autor do livro Teologia da Tolerância – um novo modus vivendi cristã, publicado em 2015, pela ESTEF, Escola de Espiritualidade e Teologia Franciscana. Também escreve artigos e crônicas.

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