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Ressuscitado

Gislaine Marins

Noam Chomsky não morreu, mas ressuscitou. O famoso linguista foi protagonista de uma revolução copernicana nos estudos gramaticais, ao propor um modelo descritivo e não prescritivo da língua. Qual é a diferença dessa abordagem para a vida das pessoas? É total: a gramática normativa indica ao falante como ele deve usar a língua; a gramática gerativa descreve como a língua é e quais são os instrumentos à disposição do falante para ele agir de maneira competente no seu idioma. Uma coisa não exclui a outra, visto que a língua é estratificada pela história e pelo uso. É a origem do verbo “ressuscitar” que mostra como a gramática tradicional ainda nos é útil para entender a confusão que ocorreu ontem ao anunciarem a morte de Chomsky que não ocorreu.

Ressuscitar quer dizer suscitar novamente, ou seja, citar reiterando, mencionando de forma intensa, excitando. E foi isso o que aconteceu mais ou menos nas redes sociais quando largaram a falsa notícia da sua morte: as pessoas deixaram-se levar pela comoção e começaram a citar intensamente o linguista, a sua obra, as suas entrevistas, a sua história, o seu posicionamento diante da realidade. A morte é o primeiro passo da ressurreição, quando exige que a memória retome o seu lugar como espaço privilegiado do humano, da nossa capacidade de reavivar o que é significativo.

Em seguida, veio a desmentida: então as pessoas foram levadas a pensar no papel da emotividade, da irracionalidade e da impulsividade na nossa comunicação. Esses fatores são essenciais na criação de notícias falsas, é urgente pensar nesses aspectos da nossa esfera psicológica, não somente para reconhecer o seu peso na língua – fato amplamente conhecido pelos linguistas – mas para elaborar uma gramática eficaz, em condições de ilustrar os mecanismos e os instrumentos de defesa à nossa disposição para evitar cair em mentiras plantadas ou ser propagador ingênuo de falsidades.

Ontem, ao ler os primeiros anúncios da morte – em um site de notícias em espanhol – fiquei intrigada com uma falha básica: o texto não fornecia detalhes sobre o acontecimento. Isso me levou a buscar outros meios de comunicação, que também foram atropelados pela emoção ou pela pressa de estarem entre os primeiros a darem notícia e a receberem o maior número de cliques. De fato, vários jornais conceituados na Itália e no Brasil começavam a reproduzir a mesma notícia, com a mesma falta de detalhes. Os jornalistas sabem que checar a informação é absolutamente necessário e, provavelmente, deixaram-se enganar pela idade de Chomsky, pelas suas condições de saúde, descuidando outros aspectos essenciais, como a qualidade do tratamento que está recebendo e inclusive a sua capacidade pessoal de recuperação.

O fato é que depois de várias desmentidas e notícias apagadas pelos jornais, Chomsky ressuscitou, isto é, voltou à memória de todos, de forma intensa, cheia de afeto e reconhecimento. No entanto, o modo lamentável como isso aconteceu revela que estamos em uma profunda crise, que não é necessariamente algo ruim. Crise significa momento de separação, de avaliação do bem e do mal, de decisão. Temos o diagnóstico, temos os instrumentos, temos o homem salvo. Agora sejamos mais prudentes, menos impulsivos e mais rigorosos na checagem das informações. Em uma palavra: sejamos mais competentes, como diria o mestre. E vida longa a Noam Chomsky!

Sobre o autor

Gislaine Marins

Doutora em Letras, tradutora, professora e mãe. Autora de verbetes para o Pequeno Dicionário de Literatura do Rio Grande do Sul (Ed. Novo Século) e para o Dicionário de Figuras e Mitos Literários das Américas (Editora da Universidade/Tomo Editorial). É autora do blog Palavras Debulhadas, dedicado à divulgação da língua portuguesa.

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