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Viver é organizar a carne, a matéria?

Miguel Debiasi

 

“Não espere por uma crise para descobrir o que é importante em sua vida”, frase de Platão (427-347 a.C.), filósofo grego. “Todo mundo é capaz de dominar a dor, exceto quem a sente”, pensamento de William Shakespeare (1564-1616), poeta, dramaturgo e ator inglês. O corpo é tudo para quase todos humanos, quase tudo para muitos, pouco para outros. O corpo dá vida ao ser humano, inclusive, a morte e a ressurreição.

No ensino fundamental desenvolvem-se estudos da anatomia humana que tem como objetivo obter conhecimento sobre o corpo humano. Estes estudos abrangem áreas como o esquelético, muscular, cardiovascular, respiratório, urinário, endócrino, reprodutor, nervoso, tegumentar e outros aspectos. Com estes estudos compreendem-se as estruturas do corpo, do seu funcionamento e consequentemente, formas de lidar com ele com todos os cuidados. O corpo é a mais preciosa herança recebida. Herança biológica. Uma herança cultural. Por ele recebesse a identidade pessoal.

O estudo do corpo é um componente curricular obrigatório no novo processo educacional. Pedagogos afirmam que só é possível formar sujeitos livres e de consciência crítica, mediante conhecimento dos limites e das capacidades do corpo. Profissionais da medicina e da nutrição ensinam sobre a importância de bons hábitos alimentares com o corpo para uma vida saudável e para prevenção de possíveis doenças.

No período da ditadura ou do regime militar brasileiro (1964-1985), os torturadores, na sua grande maioria, militares das forças armadas e do exército, trouxeram 60 agentes franceses para ensinar os métodos de torturas brutais testadas na guerra de descolonização da Argélia. A Comissão Nacional da Verdade (CNV) apurou os atos violentos aplicados aos presos políticos. No país foram instalados centros de tortura especializados, a exemplo do Chile que fez do Estádio Nacional um gigantesco centro de tortura coletiva.

As ditaduras silenciavam e oprimiam o povo, ferindo de dores os corpos dos seus principais líderes. Os algozes aplicavam sete métodos de tortura dos corpos. Um era dos choques elétricos violentos nas orelhas, no ânus, na vagina e nos pênis dos torturados. Esse método constava também em fazer o preso sentar num assento de madeira revestido de folha de zinco, conhecida como cadeira-do-dragão, e com um balde de metal na cabeça, conectado a eletrodos. Ao sentar-se nu na cadeira molhada recebia altas descargas elétricas por todo corpo.

Outra prática introduzia insetos pela garganta dos torturados, besouros vivos, baratas e ratos inseridos pelos ânus. Os torturados eram colocados em quartos completamente escuros, na presença de cobras e outros animais peçonhentos. Juntamente com a técnica do empalamento que consistia inserir uma estaca no ânus do prisioneiro, atravessando seu corpo até a morte, ou uso de cassete embebido em pimenta pelo reto dos torturados até que perdessem completamente a consciência.

Outra técnica consistia em estuprar os torturados e cuspir dentro de suas bocas, sob o xingamento para desestabilizá-los. Além do mais, os torturadores usavam da técnica de golpes de cassetete nas orelhas, na sola dos pés e mãos executados diversas vezes por dia, deixando os torturados completamente desnorteados, impedidos de permanecer em pé, de andar ou segurar objetos.

Os torturadores amarravam os testículos dos prisioneiros com barbantes, pedaços de madeira e tijolos. O sacro escrotal era golpeado com cassetes e porretes, sendo também esmagado com alicate. Agulhas finas eram introduzidas nas unhas ou arrancadas com alicate.

Outra tortura consistia suspender os prisioneiros com barras de metal enfiadas entre as pernas e os braços dobrados, deixando o torturado em uma posição muito dolorosa. Os torturados ficavam de cabeça para baixo e tinham as narinas preenchidas com querosene. Nessa posição os algozes tapavam o nariz dos prisioneiros para introduzir mangueira com água corrente em suas bocas.

Estas repugnantes e abomináveis técnicas de tortura foram relatadas por torturados e torturadores à Comissão Nacional da Verdade (CNV). O torturador só tem poder e prazer em abusar do corpo do prisioneiro. Todo poder mostra sua força desestabilizando o corpo da presa com dores insuportáveis. Em suma, a superioridade humana está em dominar o corpo do outro, silenciá-lo e desestabilizá-lo neuropsicológico por completo.

Deus criou o mundo organizado em firmamento e o corpo humano sua imagem e semelhança (Gênesis 1). O Criador revelou plenamente seu Ser com a Encarnação do seu Filho Jesus (Mateus 1,18-25). Pelo Filho fez-se carne e habitou cheio de graça e verdade (João 1,14). Por sua vez, o Filho revelou todo mistério divino redentor pela paixão da carne na cruz (Marcos 15, 3-41). Na cruz Cristo deu ordem eterna a obra do Deus Criador e garantiu a ressurreição da carne (João 20, 19-31).

O corpo é condição existencial na qual sua linguagem não pode ser silenciada e ignorada. Paulo Freire (1921-1997) observou no processo educacional que o corpo dos alunos é submetido ao silêncio, ao cumprimento de regras que desorganizava por completo a vida e a consciência das crianças e jovens. Em qualquer ambiente o corpo possui múltiplas dimensões e linguagens capazes de levar o ser humano refletir sobre os valores fundamentais de sua existência. Para os cristãos o corpo é uma criação magnífica de Deus (Gênesis 1,27). O próprio Deus precisou do corpo para salvar a humanidade. Tão essencial que os cristãos professam sua fé no corpo, na ressurreição da carne (1Coríntios 15,20-22).

Carne-corpo é condição vital para os seres humanos e para se realizarem como filhos de Deus e interagirem na sociedade. Em tempo que impera a grande desigualdade social será preciso reparar o corpo que passa fome, desnutrido, feridos pela opressão e exploração. Socorrer com misericórdia o corpo que dorme debaixo das pontes, em caixotes pelas calçadas e ao relento. Proteger o corpo de milhares de mulheres violentadas, de crianças abusadas. Do corpo que carrega há séculos os preconceitos e que sofre o terrível racismo, e de toda carne atingida pela insânia guerra.    

Viver decentemente exige organizar de forma digna a carne, a matéria humana, porque nela existe o valor imensurável, a vida temporal que morre e da transcendência, a ressurreição, a eterna.

Sobre o autor

Miguel Debiasi

Frade da Província dos Capuchinhos do Rio Grande do Sul. Mestre em Filosofia (Universidade do Vale dos Sinos – São Leopoldo/RS). Mestre em Teologia (Pontifícia Universidade Católica do RS - PUC/RS). Doutor em Teologia (Faculdades EST – São Leopoldo/RS).

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