Seu reino jamais será destruído" (Dn 7,14),
“Toda a Escritura é inspirada por Deus e útil para o ensino, para a repreensão, para a correção e para a instrução na justiça. Para que o homem de Deus seja perfeito e perfeitamente habilitado para toda boa obra” (Timóteo 3,16-17). A Escritura para São Paulo valida-se na medida em que promove a justiça, o amor e a dignidade humana na prática e na vida real.
A Igreja Católica dedica cada mês do ano a uma motivação especial em seu calendário litúrgico. Janeiro e fevereiro dão destaque à infância de Cristo. Março e abril são o tempo da conversão e da Páscoa. Maio é consagrado à Virgem Maria; e junho, dedicado ao Sagrado Coração de Jesus. Setembro é o mês da Bíblia; outubro foca no rosário e na evangelização; novembro é voltado às preces pelos fiéis falecidos; e dezembro celebra a encarnação do Deus Menino.
Todo mês de setembro a Igreja oferece subsídios de estudos de um livro bíblico, neste ano, o do profeta Daniel. Daniel, cujo nome significa “Deus é meu juiz”, era um jovem judeu de família nobre deportado para a corte do rei Nabucodonosor, da Babilônia, onde ganhou prestígio e ocupou altos cargos públicos, até o terceiro ano de Ciro, em 537 a.C.
Com a ascensão ao trono da Babilônia, o rei Dario, que desejava dar-lhe um posto superior no reino, Daniel tornou-se alvo de inveja de outros ministros e governadores das províncias, que armaram um plano para eliminá-lo (Daniel 6,8). Diante da perseguição, Daniel manteve-se em atitude de oração a Deus (Daniel 6,11). Por rezar a Deus de Israel, foi denunciado aos líderes, e o rei, cedendo à pressão política, acabou por enviá-lo à cova dos leões (Daniel 6,17-18).
O rei Dario passou a noite em claro e aflito, reconhecendo a inocência de Daniel. Ao amanhecer, ao ver o preso ileso, mandou lançar ali os seus acusadores com suas famílias e devolveu Daniel ao seu cargo (Daniel 6,25). Em outros episódios de perseguição, Daniel manifestou sua fidelidade a Deus e recusa aos ídolos. Destacam-se: a recusa em adorar a estátua de ouro (Daniel 3) e a desmistificação de falsos deuses (Daniel 14).
A história do profeta Daniel mostra a presença de Deus nas constantes batalhas da vida, amparando seus escolhidos e fortalecendo a confiança nos momentos difíceis. O Deus de Daniel não se dobra à idolatria do mundo; ele é soberano e justo com a humanidade. Afinal, como nos lembra a Escritura, mesmo nas trevas brilha a luz de Deus, pois “ele revela o profundo e o culto; conhece o que está em trevas, e com ele mora a luz” (Daniel 2,22).
A narrativa de Daniel permanece muito atual para discernirmos as armadilhas do nosso tempo. Como o profeta Daniel resistiu aos decretos iníquos da Babilônia, precisamos confrontar discursos enganosos que exploram a fé pública em proveito próprio. Hoje, lideranças políticas e religiosas manipulam a boa-fé popular com promessas de poder e prosperidade terrena, atitude severamente repreendida pelas Escrituras: “Ai dos pastores de Israel que se apascentam a si mesmos (...). Não fortalecestes as doentes, não curastes a enferma, não lhe destes ataduras à quebra (...), mas as dominastes com rigor e com dureza” (Ezequiel 34,2-4). Em vez de justiça social, tais posturas lançam multidões indefesas nas modernas covas de leões da exploração e da desesperança.
Diariamente ouvimos discursos políticos com uma falsa roupagem religiosa e pregações religiosas que funcionam como meras plataformas eleitorais. Desse modo, líderes oportunistas usurpam tanto a política quanto a religião em proveito próprio, enriquecendo à custa da alienação popular. Por outro lado, o medo e o ceticismo da população diante de ferramentas coletivas de luta social, como sindicatos, associações e grupos comunitários, refletem a astúcia de Babilônia moderna, que tenta continuamente impedir a organização das categorias sociais e sufocar os mecanismos de união do povo.
Na sociedade, há mecanismos de alienação social que vão da dependência digital ao consumismo desenfreado e ao individualismo, que afastam o ser humano de sua realidade, do seu potencial criativo e do contato real com os outros. O excessivo de telas e redes sociais tem criado “bolhas” que isolam pessoas e anestesiam o pensamento crítico. A vida online substitui o convívio presencial e transforma amigos e conhecidos em públicos ou números. O próprio fluxo constante de conteúdos rápidos reduz a capacidade de concentração profunda em problemas reais.
O sistema econômico convence as pessoas de que o valor de um indivíduo depende do que ele compra e acumula. A vida passa a imitar padrões irreais de influenciadores, gerando ilusões constantes. Consequentemente, as relações humanas e os sentimentos são tratados como produtos com prazo de validade.
No sistema de produção moderna e fragmentada, o trabalhador não se reconhece no produto final que ajuda a fabricar. A pressão por produtividade infinita faz o indivíduo acreditar que seu único valor está no rendimento profissional. Colegas de trabalho são vistos como rivais, destruindo a solidariedade de classes e o senso de comunidade.
Essa manipulação exige da sociedade um olhar mais crítico do sistema e, bem como, separar a verdadeira fé da exploração ideológica. A história de Daniel nos ensina que a verdadeira fé não se cala diante das injustiças (Daniel 3,12). Ela exige coragem para agir, defender a dignidade humana e a justiça social em todos os lugares, seja no trabalho, na política e na comunidade. É por meio da organização coletiva e das políticas públicas que se quebra a submissão, resiste-se aos abusos e reconstrói-se a esperança de uma sociedade mais justa e igualitária.
No texto de Daniel lê-se que os sistemas de opressão não são apenas estruturas políticas distantes, mas uma tecno-alienação e o consumo que reificam o sujeito. Os cristãos, à luz desse texto, podem atuar como uma comunidade contra-hegemônica que resgata a dignidade humana frente à mercantilização da vida. O texto aponta que “O Deus do céu suscitará um reino que jamais será destruído ... ele esmigalhará e consumirá todos esses reinos, mas ele mesmo subsistirá para sempre” (Daniel 2,44), que fundamenta a deslegitimação sociopolítica de qualquer absolutismo terreno.
O livro de Daniel visa fortalecer a fé, a resistência espiritual e a esperança dos cristãos. A resistência espiritual ensina o povo a não ceder às pressões e violências dos poderes dominantes do mundo atual. A esperança lembra que, acima dos sistemas opressores e governos humanos, Deus age de forma soberana na história.
Os encontros e orações propostos para o mês da Bíblia funcionam como matrizes geradoras de um ethos comunitário capaz de curar o tecido social dilacerado pela desigualdade social e econômica. A partir desse texto bíblico, a Igreja paroquial pode deixar de ser mera agência de culto e assumir o formato de comunidade de memória, profecia e resistência. Dessa forma, ela se compreende não como poder temporal, mas como sacramento do Reino eterno na história e na vida das pessoas.
Com esse profético, texto a Igreja que nos encorajar durante o mês da pátria a levar o ser humano a descobrir seu potencial como parte do projeto de Deus. Em suma, o profetismo de Daniel brilha como uma luz segura para superarmos tantas trevas do nosso cotidiano. Como nos lembra o apóstolo Paulo, toda Escritura é inspirada e útil para promover a justiça, o amor ao ser humano e a defesa da sua dignidade.

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