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Tarifaço: uma ferramenta do imperialismo

Miguel Debiasi

Sob a égide de um protecionismo agressivo, o tarifaço imposto pelo governo de Donald Trump transcende a mera disputa comercial, revelando-se uma ferramenta de manutenção da hegemonia imperialista. Ao impor sobretaxas a parceiros do Sul Global, como o Brasil, essa política engendra um cenário de perversidade sistêmica, consolidando privilégios históricos em detrimento de nações em desenvolvimento. Essa investida contrasta com o histórico de superávit comercial acumulado por Washington na relação bilateral há décadas.

O tarifaço dos Estados Unidos sobre o Brasil tem como suposto objetivo punir práticas comerciais que Washington considera desleais e prejudiciais aos seus interesses internos. As tarifas incidem sobre itens manufaturados e do agro, como máquinas industriais, agrícolas, pneus, açúcar, etanol, tabaco, madeira, calçados, papel e parte de produtos de alumínio. Por outro lado, setores estratégicos ficaram resguardados da taxação, mantendo isentos produtos como café, petróleo bruto, carne bovina, celulose, suco de laranja, aeronaves e alguns minerais essenciais.

A implementação da sobretaxa de 25% pelo governo dos Estados Unidos é consequência das duras exigências de Washington sobre o Brasil. Estas incluem o sistema de pagamento Pix, o acesso norte-americano ao mercado de etanol, as diretrizes de preservação ambiental no agronegócio e o controle sobre a fiscalização de produtos fabricados sob suposto trabalho forçado.

Contudo, enquanto o Escritório do Representante Comercial dos EUA (USTR) sustenta que as sanções visam coibir práticas consideradas desleais, o governo brasileiro vê a manobra como um movimento puramente político. Para o Itamaraty, as alegações norte-americanas são infundadas e representam uma tentativa de manter a influência e o controle comercial sobre o Brasil.

Governo e entidades como a Confederação Nacional da Indústria (CNI) estimam um impacto de US$ 5,8 bilhões e avaliam que a medida tem potencial para afetar mais de quatro mil produtos, o equivalente a cerca de US$ 11 bilhões em vendas. Em reação, o governo brasileiro articula um conjunto de ações para mitigar os danos do setor produtivo e à indústria nacional. Isso inclui linhas de crédito para capital de giro, apoio ao escoamento de produtos para outros mercados e a flexibilização de tributos para insumos de exportação. Além disso, a gestão federal avalia formalmente acionar a Lei de Reciprocidade Econômica para responder de forma proporcional às restrições norte-americanas.

Desde o anúncio inicial do governo de Donald Trump, em julho de 2025, o Brasil conduziu dezenas de contatos diplomáticos e mais de 30 reuniões técnicas. Esse esforço evitou impactos maiores e garantiu a exclusão de 2.126 itens da lista de sobretaxas, como carne e café. No entanto, após articulações de representantes políticos brasileiros de oposição ao governo federal, como os filhos do Bolsonaro, uma nova alíquota de 25% foi proposta e, em seguida, confirmada pelo Escritório de Representação de Comércio dos EUA (USTR).

O tarifaço do governo Trump vai além de uma simples disputa econômica, configurando uma estratégia geopolítica e comercial agressiva. O episódio evidencia que, embora os EUA mantenham enorme poder econômico, enfrentam limites claros na tentativa de impor subordinação total. Diante disso, o Brasil consolida sua autonomia ao recusar o alinhamento cego e buscar a diversificação de seus parceiros internacionais.

A tarifa aplicada desdobra-se nas esferas comercial e política. O lado comercial reflete a tentativa do governo norte-americano de limitar a economia brasileira na cadeia de fornecimento global. Ao aplicar sobretaxas, Washington demonstra que não consegue dominar o Brasil pelo livre comércio clássico, recorrendo ao protecionismo unilateral. Ao contrário de décadas passadas, o Brasil tem o mercado chinês como seu principal destino de exportação. Isso tira dos EUA o monopólio de principal comprador, permitindo ao Brasil a maior resiliência necessária diante das medidas protecionistas.

No campo político, a medida do governo norte-americano elevou a tensão. Historicamente, Washington ditou regras sobre a América Latina, exercendo pressão sobre pleitos eleitorais. Os Estados Unidos impõem resistência à soberania e às escolhas políticas dos países latino-americanos. Diante do não alinhamento aos ditames de Washington, o governo norte-americano projeta influência na região por meio de mecanismos como os meios de comunicação corporativistas para colocar em suspeição qualquer eleição presidencial.

Diante desse cenário, a sociedade brasileira consolida a consciência de que o desenvolvimento nacional depende da preservação da soberania e da diversificação das relações no mercado internacional. O Brasil tem avançado significativamente em áreas como da ciência, tecnologia, meio ambiente, infraestrutura, energia e políticas públicas. Ademais, conta com um corpo diplomático altamente qualificado para negociar acordos estratégicos em todos os setores da economia e do comércio.

Em jogo não está apenas a expansão do sistema Pix que compete com gigantes de pagamentos norte americanos ou o avanço em energia e clima; o verdadeiro impasse reside na resistência do Brasil em subordinar seus interesses às pressões externas. Ficou claro tanto para o governo quanto para a sociedade que a soberania, os recursos e o desenvolvimento nacional não são negociáveis em troca de alinhamento ou submissão.

Em vez de ceder às pressões, o Brasil busca fortalecer programas internos de apoio à indústria e acionar o Mecanismo de Solução de Controvérsias da Organização Mundial do Comércio (OMC). A diplomacia brasileira tem demonstrado resiliência, ciente de que a diversificação de mercados abre novas portas e oportunidades valiosas para a exportação da produção nacional.

Mais do que um calendário eleitoral, o momento exige da sociedade uma escolha estadista: consolidar um projeto de nação livre e soberana, ou sucumbir a velhos reflexos de submissão e dependência. O verdadeiro desenvolvimento nacional jamais brotará da rendição de nossos ativos estratégicos aos interesses estrangeiros.

Enfim, o desejo por um país justo exige coragem política para negociar de igual para igual, exigindo respeito à nossa autodeterminação e garantindo que o futuro da economia seja ditado pelas necessidades do povo brasileiro, e não por imposições externas.

Sobre o autor

Miguel Debiasi

Frade da Província dos Capuchinhos do Rio Grande do Sul. Mestre em Filosofia (Universidade do Vale dos Sinos – São Leopoldo/RS). Mestre em Teologia (Pontifícia Universidade Católica do RS - PUC/RS). Doutor em Teologia (Faculdades EST – São Leopoldo/RS).

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