Profética ou conservadora, qual a sua vocação?
Em cada conversa de roda de amigos, de grupo eclesial, movimento religioso, vem a pergunta: o que você diz sobre tal padre? Tal frei? Tal grupo de católicos? O cenário religioso personalizado em figuras midiáticas tem provocado confusão sobre a natureza da Igreja e de sua missão no mundo.
O texto de análise de conjuntura apresentado em fevereiro pela Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) esclarece elementos sobre o cenário religioso. Neste cenário há confusão por muitos fatores gerados em meios de comunicação e redes virtuais, levando a disputa de mercado religioso. Em tal ambiente religioso personificado e midiático gera-se distorções da natureza da Igreja e do papel da religião católica e cristã.
A história da humanidade está marcada pela participação das religiões. Todo povo crente ou pagão recorre à religião. Cada qual dá funções à religião. E não há religião sem função social e cultural. Todo adepto da religião desfruta do seu benefício espiritual, temporal e material. Quando a religião não o atende, procura em outra o desfrutar do benefício espiritual, temporal e material.
Historicamente a religião católica buscou responder a duas funções na sociedade humana. Estas duas funções podem estar presentes em outras religiões. As funções procedem de sua própria natureza religiosa. Na religião católica como no cristianismo se manifesta duas distintas funções: uma a profética e outra da ordem social. No percurso da história cristã da Igreja Católica evidencia que essas funções tiveram alternâncias e períodos distintos.
A função religiosa profética é fator de emancipação da ordem estabelecida. Na função profética há protesto, contestação e rompimento de barreiras dos costumes, das leis, do comportamento comum da sociedade. Nesta função, a religião é a força de mudança, da transformação das pessoas, da sociedade e do mundo, busca-se encarnar na prática o Evangelho.
Já função da ordem social conduz-se à religião no princípio sacerdotal que é força de integração na ordem, tanto cósmica como social. Nesta face, a religião legitima a ordem, dando-lhe fundamentos sagrados e sacraliza os comportamentos de submissão e integração na ordem global e de modo geral todas as formas de ordem. Neste ambiente, a mensagem do Evangelho é substituída pela palavra e opinião do agente religioso e ou da autoridade religiosa.
A grande virtude do cristianismo e da Igreja primitiva foi sua função profética que enfrentou as perseguições. Na força profética da contestação e da resistência ao Império Romano totalmente pagão, muitos cristãos foram levados ao martírio e à santidade. Ao resistirem ao Império Romano, o cristianismo como movimento cristão mostrou sua face profética, não aceitou a ordem estabelecida, que era extremamente injusta. A resistência na profecia levou a conversão do Imperador Constantino, a ponto de o cristianismo tornar-se a religião oficial do Império Romano.
Na sequência do período profético, veio o tempo da cristandade que começou com Constantino (313 d. C.) e que prevaleceu até a Revolução Francesa (1789). De forma progressiva na época da cristandade foi desaparecendo a atitude cristã de contestação e de resistência à ordem dominadora, onde a religião da profecia cedeu lugar a religião do ordenamento social. Nesse período predominou a religião da integração na ordem, embora houvesse protestos, resistências e profetas, mas sempre minoritários. Nesta transição de atitude o cristianismo e a Igreja Católica buscaram a reconciliação com a sociedade e seu ordenamento estabelecido.
Relendo a história observa-se que estas duas funções não foram pura e unicamente produtos de livres decisões da Igreja e sim, em grande parte, o resultado de contextos e situações históricas incontroláveis. Primeiramente, a mudança da perseguição para o status de religião oficial foi consequência da mutação política no Império Romano, que sentiu a fraqueza do politeísmo tradicional e a necessidade de uma religião universal para manter a unidade de uma sociedade imperial.
Novos períodos foram se sucedendo e nos dois últimos séculos o cristianismo e a Igreja estão cada vez mais numa situação nova: não estão nem na perseguição, nem na condição oficial de religião oficial da sociedade. Nesse contexto, as pessoas adeptas a atitude profética ou a de ordenamento social, ambas estão em situação de desafios. Aparentemente é o período da insignificância da religião cristã e da Igreja. Os teólogos dizem que entramos na fase em que a sociedade moderna tem a religião como inútil e não perde tempo para combatê-la porque a acha inofensiva e sim submissa ao seu ordenamento.
A história da civilização como a ocidental já demonstra que quando a religião perde a profecia, a sociedade fortalece a situação de dominação, de ordenamento e de submissão social. A Igreja como instituição e comunidade fundada por Cristo só pode ser conduzida pela missão do Evangelho. Na fidelidade à missão de Cristo e de seu Evangelho a Igreja situa-se na história por si mesma. Sua presença na sociedade é em razão do projeto do Evangelho de Jesus Cristo, este rompeu com todas as estruturas e ordenamentos injustos.
Seguidamente ouvem-se agentes religiosos que buscam justificar com suas próprias ideias que a presença da Igreja está para o ordenamento social, da integração dos cristãos a ordem estabelecida, que é sempre injusta. Ao colocar em segundo o Evangelho a Igreja pode sair do mundo porque perdeu sua função, a profética, aquela atitude cristã que rejeita o perigo de ser absolvida pela ordem. Nesta situação de ordenamento social, a Igreja pode descobrir tarde que o Evangelho precisamente não foi assumido.
Atualmente nos deparamos com um cenário religioso de fases contraditórias, personalizados por figuras religiosas que buscam impor suas opções e suas ideias para um apoio de massa de católicos. Em contrapartida, integrando-os ao sistema e a ordem dominante que propriamente ao Evangelho. Inclina-se a fazer uma integração com uma parcela da sociedade humana que são incapazes de ficarem horrorizados com as injustiças sociais e as desigualdades econômicas.
O Papa Francisco nos provoca a viver numa Igreja em saída, aquela que deseja viver sua vocação e sua missão do Evangelho, que é profética e libertadora. Num ambiente de disputa de mercado religioso pode-se escolher a Igreja do sistema dominante, indiferente a todas as questões que incidem sobre a vida humana.
Já na opção pelo Evangelho, vive-se a Igreja de Jesus Cristo, aquela que está eternamente comprometida com a libertação humana e com a superação das injustiças, porque a fé leva uma ação profética. Hoje e sempre a humanidade precisa da Igreja de Cristo, que assume sua vocação, que não tem receio e medo de ser profética.
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