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Peregrinos de Esperança

Miguel Debiasi

 

A Igreja vive em 2025 o Jubileu da Esperança ou Ano Santo, com o lema: “Peregrinos de Esperança”. Peregrinos e esperança são dois termos que perpassam a história da salvação e indicam como a Igreja deve ser e viver a fé em Cristo. Para o Papa Francisco o Jubileu dos 60 anos do Concílio Vaticano II e dos dois mil e vinte e cinco anos do nascimento de Jesus Cristo precisa ser celebrado em atitude de peregrinação e de Esperança.

O Jubileu de 2025 nos faz olhar para a correta relação com Deus, entre as pessoas e com a criação. No Antigo Testamento o Jubileu era celebrado a cada 50 anos e que implica ações concretas como: da remissão de dívidas, a restituição de bens, terrenos arrendados, o descanso da terra, da qual Deus era o único proprietário, regressava ao antigo proprietário, os escravos readquiriam a liberdade (Êxodo 23,10-11; levítico 25,1-18; Deuteronômio 15,1-6; Ezequiel 46,17).

O texto do Evangelho faz uma menção ao Jubileu, do qual Jesus tem profunda consciência desse tempo de júbilo. No dia de sábado, Jesus vai à sinagoga e proclama um trecho do livro do profeta Isaías: “O Espírito do Senhor está sobre mim, porque ele me consagrou com a unção, para anunciar a Boa Notícia aos pobres; enviou-me para proclamar a libertação aos presos e aos cegos a recuperação da vista; para libertar os oprimidos e para proclamar um ano da graça do Senhor” (Lucas 4,18-20).

Para celebrar o Jubileu de 2025 o Papa Francisco propôs um tempo de preparação, durante 2023 e 2024. O ano de 2023, foi apresentado pelo Papa como o tempo da redescoberta do ensinamento do Vaticano II, a partir da leitura dos quatro documentos: Gaudium et Spes, sobre a Alegria e Esperança; Dei Verbum, sobre a Revelação Divina; Sacrosanctum Concilium sobre a Liturgia; e a Lumen Gentium sobre a Igreja como luz dos povos. Estes documentos são núcleo central do Vaticano II, precisam de uma contínua releitura e reinterpretação.

Para o ano 2024, o Papa Francisco apresentou a oração como programa da Igreja e da vida cristã. A oração é entrar em sintonia com a presença do Senhor, para escutá-lo, adorá-lo, para agradecer aos dons recebidos, para louvar a obra na criação e para nos sentirmos destinatários responsáveis de seu Reino. O fruto da oração constitui a humanidade num só coração e numa só alma, que se traduz na solidariedade e partilha do pão quotidiano (Atos 4,32). Para cristãos e para outras religiões a oração é a via mestra para a vida, para a santidade e para iluminar a ação da fé no mundo.

No domingo dia 29 de dezembro, o Papa Francisco em Roma abre oficialmente o Jubileu de 2025, como um período de Peregrinação aos lugares símbolos da fé e da vida cristã como as basílicas, os túmulos dos apóstolos, catacumbas, santuários e igrejas. No dia 06 de janeiro de 2026 encerra o Jubileu. No período jubilar o Papa espera receber em Roma cerca de 32 milhões de pessoas e aos menos 100 mil fiéis que peregrinam a pé. O ano do jubileu é descrito pelo Papa como um “dom da graça”, a ser vivido através de peregrinações, indulgências e testemunhos de fé.

Todos os Jubileus têm toda uma teologia e uma simbologia muito significativa para os cristãos e para a humanidade. Para vermos a riqueza teológica do Jubileu 2025, iniciamos abordando o termo Peregrinação – que configura um percurso físico e espiritual. Inspirada em figuras bíblicas como Abraão e Jesus, a peregrinação representa a disposição dos fiéis em deixar seus espaços de conforto em busca de um encontro mais profundo com Deus, superando desafios e renovando a fé.

A Porta Santa – outro símbolo muito significativo. Ao passar pela Porta Santa é um ato simbólico que representa a entrada em uma nova vida em comunhão com Cristo. Esta experiência diferencial, marca a passagem para uma existência humana mais configurada com a fé e com a comunidade seguidores de Jesus. Na cidade de Roma haverá Porta Santa, a única para celebrar o Jubileu ou Ano Santo de 2025.

A Reconciliação – o Ano Santo ou Jubileu é também um momento de reconciliação com Deus, com os irmãos e com a obra criada. A participação no sacramento da confissão permite aos fiéis experimentarem a misericórdia divina. O perdão é central para a experiência jubilar, oferecendo a graça da restauração espiritual.

A Oração – durante o Jubileu, a oração se intensifica, simbolizando o desejo de unir mais intensamente a Deus, a comunidade de fé e a caminhada da salvação. Os fiéis são incentivados a buscar descanso e renovação espiritual em momentos de oração, especialmente nos lugares sagrados que visitam em sua peregrinação.

A Liturgia – a celebração da liturgia e, em especial, da Eucaristia, é um pilar central do Jubileu, unindo os cristãos em adoração e fortalecendo o sentimento de pertença ao Corpo de Cristo. Pela liturgia constitui-se um tempo de reunião e celebração da fé que busca a salvação e a libertação humana.

A Profissão de fé – o Jubileu também oferece uma oportunidade para que os fiéis reafirmem publicamente sua fé em Cristo e nos ensinamentos da Igreja. Essa profissão de fé é um convite à conversão e ao compromisso renovado com a vida cristã, com projeto de Deus.

A Indulgência – a Indulgência Plenária é um aspecto tradicional do Jubileu, que simboliza a misericórdia divina, permitindo que os fiéis avancem em seu caminho de santidade. Ela é um convite para uma renovação profunda, sendo concedida aos que participam dos ritos jubilares e se reconciliam com Deus, com os irmãos e com obra criada por meio da confissão.

É preciso uma atenção contemplativa ao logotipo do Jubileu, repleto de teologia e de sinais muito significativos para a missão da fé. O logotipo do Jubileu ilustra quatro figuras estilizadas, representando a humanidade dos quatro cantos da Terra, que se abraçam em gesto de solidariedade e fraternidade. A figura à frente segura a cruz, simbolizando não apenas a fé, mas também a esperança que nos une, que é sempre necessária e fundamental na vida, especialmente nos momentos de maior desafio e dificuldade.

As ondas que circundam a figura principal simbolizam a jornada da vida, que nem sempre segue em águas calmas. A cruz, que termina em uma âncora, transmite a ideia de segurança e firmeza em meio às tempestades, referindo-se à “âncora da esperança”, uma referência marítima a uma âncora de reserva usada em situações de emergência. A cruz curvada para a humanidade representa a presença protetora de Deus, guiando e sustentando aqueles que peregrinam em busca de paz e esperança na vida. 

Enfim, vivamos de coração, de espírito, de mente e de mãos caridosas o Jubileu ou Ano Santo de 2025, como Peregrino de Esperança.

Sobre o autor

Miguel Debiasi

Frade da Província dos Capuchinhos do Rio Grande do Sul. Mestre em Filosofia (Universidade do Vale dos Sinos – São Leopoldo/RS). Mestre em Teologia (Pontifícia Universidade Católica do RS - PUC/RS). Doutor em Teologia (Faculdades EST – São Leopoldo/RS).

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