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Para reconhecer a culpa é preciso sabedoria

Miguel Debiasi

A culpa, no sentido religioso, pode gerar necessidade de arrependimento, confissão e pedido de perdão. A culpa, no sentido social, é quando alguém percebe que violou normas sociais, valores morais e padrões de comportamento sentindo-se com responsabilidade por isso. A culpa, no sentido político, pode ser entendida como responsabilidade individual e coletiva por ações que resultaram em consequências negativas para a sociedade e para o Estado.

No cenário de disputa por controle político e econômico mundial, tem-se ouvido narrativas de culpabilizar outros países pelos desafios e problemas internos. Países como a China, Coreia do Norte, Coreia do Sul, Mongólia, Taiwan, pode-se incluir Hong Kong, Macau e Vietnã têm sido o alvo de críticas do governo americano e das elites política e empresarial dos EUA.

Para compreendermos a tensão do governo e da elite americana com o polo asiático, resgatamos a análise da jornalista norte-americana Kim Iversen que ela faz sobre seu próprio país. A análise divulgada em vídeo e nas redes sociais repercutindo muito entre os profissionais dos veículos de mídia independentes e os jornalistas.

A jornalista inicia sua análise sobre o colapso dos EUA, contrapondo a narrativa difundida por setores da elite política e empresarial dos Estados Unidos, acusando que a China seria a grande responsável pela decadência econômica e industrial do país. Ela contrapõe, dizendo que o verdadeiro colapso norte-americano foi promovido internamente, por decisões tomadas ao longo de décadas por seus próprios dirigentes.

Os discursos da elite política e empresarial dos EUA, acusando a China de “trapacear”, “quebrar regras”, “roubar propriedade intelectual”, “manipular sua moeda” e “subvencionar sua indústria”, são uma cortina de fumaça e próprios de quem vive em sua bolha. Para entendermos por que os EUA perderam milhões de empregos bem remunerados e porque a infraestrutura está em ruínas, será preciso abandonar os slogans fáceis e fazer uma pergunta incômoda: será que a China trapaceou mesmo, ou será que foram as próprias elites americanas que traíram o país? A Jornalista Kim Iversen aponta os motivos do colapso:

Primeiro, a política do preço do lucro fácil. Por muitos anos, as empresas estrangeiras que desejavam acessar o mercado chinês precisavam se associar a companhias locais e compartilhar sua tecnologia. Esse processo ficou conhecido como “transferência de tecnologia”. As empresas ocidentais aceitaram voluntariamente as condições impostas pela China, em troca da possibilidade de lucrar com o maior mercado consumidor do planeta.

Segundo, o país abandonou seu povo. No discurso americano sobre “manipulação cambial”, há hipocrisia. A China tem agido justamente para sustentar sua moeda e manter a estabilidade. Ela não roubou nossa prosperidade. Foram as elites que a entregaram. Elas pressionaram a China para que entrasse na OMC (Organização Mundial do Comércio), terceirizaram fábricas, destruíram sindicatos e disseram aos trabalhadores que aprendessem a programar. As cidades industriais entraram em colapso, os setores têxtil e de autopeças desapareceram, mas a bolsa de valores bateu recordes – e isso era tudo o que importava para as elites do país.

Terceiro, o que a China fez com seu superávit? Não distribuiu recompensas em ações, nem alimentou bolhas financeiras. Ela construiu trens de alta velocidade, cidades inteligentes, redes energéticas modernas, desenvolveu carros elétricos e indústria. Enquanto os EUA construíram bolhas especulativas, sucatearam escolas públicas, cortaram investimentos em infraestrutura e deram isenções fiscais aos ultraricos, pedindo ao restante da população que apertasse o cinto.

Quarto, a tarifa não reconstrói um país. Hoje, cobrar tarifas para a China é inútil. É como colocar fita adesiva numa ponte que está desabando. Tarifas aumentam os preços, desorganizam as cadeias de suprimento e provocam retaliações. Elas não constroem novas fábricas, não criam mão de obra qualificada, não consertam um sistema falido.

Quinto, aposta errada. Ao invés de focar nos problemas internos, o que estamos fazendo nos EUA? Fabricamos guerras com o Irã, bombardeamos o lêmen, gastamos bilhões com guerras como de Israel e procuramos conflitos que não tem nada a ver com o povo americano, e tudo a ver com os interesses dos fabricantes de armas e seus lobistas.

Sexto, o expansionismo militar dos Estados Unidos. Quando não estamos tentando iniciar uma guerra, estamos fantasiando sobre expandir nosso império – tornar o Canadá um estado americano, comprar a Groenlândia, estacionar tropas em todos os continentes para proteger rotas de petróleo e minérios, enquanto nossos veteranos dormem em barracas e nossas cidades parecem zonas de guerra.

A jornalista Kim Iversen conclui sua análise: “O verdadeiro problema não é que a China trapaceia. O problema real é que fomos enganados por aqueles que venderam um sonho no qual nunca acreditaram. Eles destruíram a classe média, disseram que era normal ter três empregos e continuar na miséria, zombaram da ideia de reconstruir o país enquanto enchiam os bolsos com o dinheiro das empresas que enviaram nossos empregos para o exterior”.

Ela, aponta a solução para sair do colapso dos EUA: “Se queremos vencer de novo, não precisamos de mais sanções, precisamos de mais engenheiros. Não precisamos de mais porta-aviões, precisamos de mais fábricas. Não precisamos de mais guerra trilionária. Precisamos de um investimento trilionário na América – nos trabalhadores, nas cidades, nas famílias, nas classes sociais.

O futuro dos países dependerá muito do que aponta a jornalista, reconhecer as falhas internas e usar os recursos públicos para bem-estar do país, das nações e do mundo. Este caminho é o mais sábio e o mais fácil de ser percorrido, com maior sucesso.

 

Sobre o autor

Miguel Debiasi

Frade da Província dos Capuchinhos do Rio Grande do Sul. Mestre em Filosofia (Universidade do Vale dos Sinos – São Leopoldo/RS). Mestre em Teologia (Pontifícia Universidade Católica do RS - PUC/RS). Doutor em Teologia (Faculdades EST – São Leopoldo/RS).

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