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Os milhões de “subutilizados”

Miguel Debiasi

 

As “coisas” têm um curto período de utilização. O avanço tecnológico impõe uma dinâmica cruel as coisas, tudo é descartável, substituído e recriado. Na lógica do mercado, tudo tem seu tempo e seu fim. A serventia de hoje já não corresponde ao amanhã. Como as épocas históricas mudam, parece-nos que nada é para sempre, mesmo o valor do ser humano, a ponto de considerar uma população “subutilizada”. Hoje, milhões de pessoas não tem serventia, para economia e o mercado liberal.

O sentido das “coisas” é um tema comum da filosofia grega. Todo debate do sentido da existência humana, como o contemporâneo, é decorrente da filosofia grega. A reflexão sobre o fim da vida é processo iniciado pelos filósofos gregos. Para uma ideia de bem supremo exige um conhecimento dos estudos dos gregos. Todo debate sobre um sistema político é resultado do estudo dos gregos. Isto não é ridículo, mas uma condição para discutir as questões que se pretende saber enquanto visa um conhecimento. Na filosofia, tudo necessita de uma definição elementar, que se queira falar com certa propriedade. Nas ideias há um debate e uma configuração conceitual, do modo que produz bastante clareza, algo consistente, o verdadeiro, o imutável.

A questão do sentido da existência e o fim da vida, é um tema para todas as épocas e gerações. É um debate imprescindível aos seres humanos. Platão, discute com seus discípulos sobre o saber e o prazer ser os maiores fins da vida e da existência humana. Para ele, todo o resto, acaba em terceira, quarta posição. Sócrates, acusado de corrupção dos jovens e traições aos deuses gregos por sua sabedoria, foi condenado a morte e não fez o mínimo esforço em fugir dela. Na cadeira da morte ironizou seus inquisidores algozes, tomando cicuta morre calmamente ao invés de fugir e negar a verdade. Aristóteles concebeu o mundo como um todo ordenado, onde cada coisa é destinada desdobrar sua forma dinâmica e alcançar entelécheia, ou seja, a sua realização plena, sua potencialidade e finalidade natural.

Para os sábios gregos e ao culto, tudo na natureza tem sentido que potencializado tem um fim, da própria autorrealização. Em razão deste sentido surge o enunciado considerado evidente e verdadeiro: “não existe nada em vão na natureza”, ou se diz normalmente, “a natureza nada faz à toa”. Para ciência, isto vale para a maioria dos casos e das questões em debate. Ademais, aos sábios gregos a cada coisa precisa busca sua essência, e numa escala de ideia de bem e de fim no topo está Deus. Deus aparece como uma coroa gloriosa da totalidade da existente. Obviamente, ou naturalmente, o homem é chamado a imitar Deus através da inteligência, da ciência.

Se em Aristóteles Deus é entendido como Supremo Bem e o único no mundo, os filósofos ateus modernos vão contrapor-se a essa ideia e compreensão. Para o teólogo brasileiro Clodovis Boff, os filósofos modernos ao recusar-lhe este lugar a Deus, vão abrir as portas para o niilismo, ou a redução ao nada, ao aniquilamento, a não existência. Nietzsche disse “Deus está morto”. Muitos outros corroboram com Nietzsche, e tantos outros criticaram essa visão e apontaram para Deus mais encarnado nas realidades humanas e menos metafísico, sem derrubá-lo do topo de todas as coisas. Essa discussão merece ser continuada por que busca esclarecer do sentido da existência de Deus que obviamente exige refletir sobre a vida das pessoas.

Clodovis Boff escreve que hoje um dos maiores alarmes que faz ressoar sobre a existência humana, é “a crise de valores”. A crise de valores não apenas ética, mas a vida em seu sentido. Aos 30 milhões de brasileiros desempregados não basta responder com os olhos da economia. O Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), informa que o desemprego chega ao seu patamar mais elevado da história do Brasil 14,7% e a população “subutilizada” cresce a cada trimestre 3,9%. A essa realidade não se responde com o mercado neoliberal em crise, mas à luz do sentido da vida e da existência humana. O que podemos dizer a essa população “subutilizada”, como o mercado pejorativamente a denomina, a vida humana está longe de vista como o “valor” o “bem supremo”, e sim, objeto descartável. E, Paulo Guedes com deboche assim os considera os desempregos, objeto descartável, infelizmente, para tristeza de milhões de brasileiros.

Sobre o autor

Miguel Debiasi

Frade da Província dos Capuchinhos do Rio Grande do Sul. Mestre em Filosofia (Universidade do Vale dos Sinos – São Leopoldo/RS). Mestre em Teologia (Pontifícia Universidade Católica do RS - PUC/RS). Doutor em Teologia (Faculdades EST – São Leopoldo/RS).

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