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“Chorem com os que choram” (Romanos 12,15)

Miguel Debiasi

 

Em outros tempos no ensino médio havia disciplinas como história, sociologia, filosofia, estatística, ciência da religião. Um dos assuntos era o da “dívida externa do Brasil”, algo absurdo, impagável. Os mestres ensinavam que o Brasil era um país de terceiro mundo, pois nunca pagaria a dívida externa com o FMI (Fundo Monetário Internacional). Mas, para a surpresa dos brasileiros, um presidente considerado semianalfabeto conseguiu tal proeza, em quatro anos pagou a dívida externa. Pior, colocou o país da vigésima quinta colocação para o patamar de quinto mais desenvolvido do mundo. Hoje, lamentavelmente, o Brasil deixou de fazer parte da lista dos vinte e cinco países confiáveis para investimento econômico. Há razões para essa perda.

A pessoa vendo como as coisas realmente são não se deixa trespassar por narrativa conservadora veiculada diariamente pela mídia. Ao contrário, sua consciência é capaz de alcançar as profundezas e autenticidade dos fatos. Assim, pode ter a coragem de compartilhar seu sofrimento e com sua lúcida sabedoria encorajar as pessoas que sofrem a enfrentarem as situações dolorosas. Ademais, essa pessoa é capaz de compreender a angústia alheia e lutar para aliviar o sofrimento dos companheiros: “chorem com os que choram” (Romanos 12,15), diz o papa Francisco.

Infelizmente, hoje no Brasil aumentou em muito aqueles que choram de fome por falta de alimento sobre a mesa; aqueles que têm sede por falta de justiça imparcial; aqueles que choram por falta de trabalho porque são desempregados; aqueles que choram por falta de melhores condições de vida porque o golpe de 2016 privilegiou elites, a casta, a nata do Brasil, e surrupiou os direitos dos humildes. Como se não bastasse a falta de interesse do governo com a situação de sofrimento de 50 milhões de brasileiros em situação de penúria, há aqueles que usam microfone, televisão e redes sociais com interesses mesquinhos, manipulando a realidade, os fatos e a consciência alheia. Estes colaboram com as elites e desprezam aqueles, e reproduzem o mundo dos poderosos sem pudor e com consciência indolor.

Por outro lado, sabe-se que o melhor futuro do Brasil não inicia armando a população. O melhor da nação não se constrói com política do ódio, fascismo, racismo, xenofobia, homofobia, da flexibilização da proibição dos agrotóxicos, privatização de estatais lucrativas, venda dos poços de pré-sal, entrega da Amazônia, passaportes diplomáticos a familiares e amigos, condenação de pessoas inocentes à prisão, promessa de cargos públicos aos partidários, retirada dos direitos. Na verdade o melhor para o Brasil inicia quando se tem a coragem de praticar a justiça iniciando pelos mais pobres, vulneráveis, como indica o profeta: “aprendei a fazer o bem, buscai o que é correto, defendei o direito ao oprimido, fazei justiça para o órfão, defendei a causa da viúva” (Isaías 1,17).

Porém, será preciso tomar a consciência que havendo passado mais três anos do golpe parlamentar o Brasil afundou numa profunda crise econômica, política e institucional. Tanto é verdade que o mercado prevê para 2019 a redução das taxas de crescimento da economia por volta de 1,30%. Acompanham esta perspectiva os pregões da Bolsa de Valores que caem diariamente. Também as ações da Petrobras despencaram com as incertezas da economia do país. O desemprego que há três anos era 3% no Brasil, o menor comparado com a média mundial, hoje chegou a 13%. O preço do litro de gasolina passou de R$ 3,00 para R$ 5,00. O salário mínimo deixou de ter ganho real e terá no governo Bolsonaro apenas a correção da inflação. Os benefícios dos aposentados diminuem dia após dia. Os recursos para saúde, educação, segurança, infraestrutura, que foram congelados por 20 anos, agora sofreram um drástico corte de 50% para transferir os recursos para os armamentos.

Uma maneira de colaborar para reverter o caos que se instalou no país é buscar as informações corretas, ouvir meios de comunicação que tenham compromisso com a verdade dos fatos. Outra maneira é convocar as pessoas que bateram panelas em favor do golpe para que voltem às ruas sem vergonha vestindo a camisa nacional para exigir do seu escolhido ao menos o retorno do que lhe foi retirado. Destarte, já que estes cidadãos na sua maioria se consideram cristãos, mostrem a sabedoria da fé e lutem para viver o evangelho que orienta: “tudo, portanto, quanto desejais que os outros vos façam, fazei-o, vós também, a eles” (Mateus 7,12).

Sobre o autor

Miguel Debiasi

Frei capuchinho. Atualmente é pároco da Paróquia Cristo Rei, de Marau, RS, e Conselheiro do Governo Provincial, eleito no dia 04 de setembro de 2014. Mestre em Filosofia e Teologia.Autor do livro Teologia da Tolerância – um novo modus vivendi cristã, publicado em 2015, pela ESTEF, Escola de Espiritualidade e Teologia Franciscana. Também escreve artigos e crônicas.

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