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Chamados para a esperança viva

Miguel Debiasi

Em toda história do cristianismo a Igreja e a Teologia buscaram salientar a importância das três virtudes da vida cristã: fé, esperança e caridade. Virtudes entendidas como dom divino pelas quais o cristão pode viver a comunhão com Deus. Essas virtudes são apresentadas como a porta de entrada para o seguimento de Jesus Cristo e para a salvação humana. Neste Ano Santo a Igreja convida a viver a virtude da esperança viva, do Reino de Deus.

A história do cristianismo é acontecimento que pode ser lido à luz de muitas ciências, como da teologia, história, sociologia, antropologia, filosofia e ética. Os dois mil anos de cristianismo oferecem conteúdo para muitas leituras que nunca chegam a termo definitivo. Em cada tempo haverá a necessidade de uma atenciosa revisita ao cristianismo que como doutrina e religião alcança todos os continentes.

Pode-se ler a história do cristianismo com base nas virtudes da fé, da esperança e da caridade. O teólogo e sacerdote redentorista alemão, Bernhard Häring (1912-1998), em seu tratado de Teologia Moral recorre a essa chave para a leitura do cristianismo. O teólogo diz que desde os primórdios até a Idade Média a vida cristã girava em torno da virtude da caridade ou do amor.

Para outros teólogos, desde os primeiros tempos, no cristianismo predominava a esperança. É quase um consenso dos teólogos que o cristianismo é um movimento religioso que se desenvolveu pela virtude da caridade ou do amor, do maior mandamento ensinado por Cristo. Os primeiros cristãos foram tão radicais no seguimento a Cristo que pelo mandamento do amor colocavam em comum no final do dia seus bens e o fruto de seu trabalho (Atos dos Apóstolos 2,42-47).

No período da cristandade, do século V ao XV, a teologia dominante que era da instituição eclesiástica, pregava que o Reino de Deus já estava presente no mundo. Apenas cabia aos cristãos defenderem e protegerem o Reino de Deus. A virtude fundamental para proteger e defender o Reino de Deus era a caridade. É nesse período que surgem muitas obras de caridade e esta virtude floresceu em muitos santos, santas, cristãos, comunidades e institutos religiosos.

Por longos séculos o projeto de vida cristã conseguiu unir a Igreja e o mundo, a ponto de se confundirem e tornarem-se uma só realidade. Mas veio a época dos conflitos religiosos rompendo com a unidade religiosa e o resultado foi a separação entre os cristãos. Na divisão da orientação cristã, buscou-se valorizar a virtude da fé. Fortaleceu-se a convicção teológica que somente a fé salva os cristãos do mundo, as almas do pecado. E por ela distinguiu-se os cristãos dos pagãos. Essa pregação perdurou por mais de 400 anos.

O cristianismo dividido em sua doutrina e organização eclesial chegou a novos continentes trazendo consigo a ideia da cristandade, a missão de salvar almas. Obstinado por esta missão o cristianismo através da Igreja católica não se preocupou com as injustiças do mundo. Na América Latina os assuntos religiosos foram entregues aos reis, e as autoridades eclesiásticas passam dedicar tempo às almas.

Unida ao Estado, a preocupação da Igreja católica não foi o extermínio de povos originários como os índios e a escravidão dos negros africanos, mas da pureza da fé. A Igreja envolvida pela política colonial busca o discernimento de fé, visto do eminente perigo protestante e da infiltração das heresias. Postura esta que atingiu seu poder no auge dos séculos XVII e XVIII.

Ao adentrar no século XX, a Igreja católica e as Igrejas separadas permaneceram cegas, obcecadas pelas suas lutas a respeito à doutrina e da fé. Catolicismo e protestantismo foram incapazes de captarem que o mundo se emancipava, expondo a clara distinção entre o antigo e o moderno. O moderno surge como a novidade, a ciência, a tecnologia, a nova concepção da sociedade e do mundo. O moderno pensa no homem em si mesmo e conclui que o mundo não está nas mãos de Deus, mas dos homens.

Agora, em uma nova era cultural, as virtudes da fé, da esperança e da caridade, em muitas circunstâncias, servem a condição da liberdade humana. Servem a condição da emancipação do gênero humano da Igreja. Servem a condição do novo início da história, a realmente humana, a qual, a Igreja encontra dificuldade de propor o Evangelho e seus ensinamentos cristãos.

Frente a esse gigantesco movimento humano, a Igreja tinha algo a fazer: atualizar-se ou fortalecer sua velha convicção, como da salvação da alma. As resistências quanto atualização não foram poucas buscando permanecer na mesma posição. Mas, o Espírito de Deus falou mais forte que a voz da autoridade eclesiástica e da teologia.

Da crise veio a “nova primavera”, o Concílio Vaticano II (1962-1965), com ele abre-se uma nova época para a Igreja, Teologia e vida cristã. A “nova primavera” desabrocha lentamente com diálogo com o mundo, com cultura moderna e reconhece que a história já não é mais como foi um dia. O mundo não é estático, muda rapidamente. Ele não abandona seu dinamismo natural, por isso, tende a reproduzir as sociedades injustas e opressoras, dos fortes que oprimem os fracos.

A realidade injusta contemporânea desafia a Igreja e os cristãos. O grito que nasce da situação social perversa e injusta diz que é preciso pensar onde Deus intervém na história. Ele não intervém na evolução das coisas materiais, da tecnologia, nos meios de produção, mas no interior do ser humano, na sua formação, na sua consciência e na caminhada da Igreja. A Igreja reconhece que precisa manter-se viva na história e fazer da vivência das suas virtudes cristãs a libertação do ser humano.

O Papa Francisco com o Ano Santo, jubileu da esperança, convoca os cristãos para uma nova postura no mundo, acreditando que o Reino de Deus se torna real pela autêntica vida em Cristo. No autêntico seguimento a Cristo, o Reino de Deus se realiza, contrapondo os reinos humanos injustos. Lembra que o nosso Deus é “o Deus da esperança” (Romanos 15,13) e que em Cristo fomos chamados para “uma esperança que é vida” (1Pedro 1,3; Efésios 4,4).

Há um vínculo entre o mundo e o cristianismo e a Igreja, pelo qual, exige uma opção dos cristãos a ser assumida, fazer com que o Reino de Deus, o evento decisivo da humanidade aconteça no dia a dia. A esperança cristã comporta uma ação que rompe todo fechamento radical em relação ao Reino de Deus. A esperança viva é a colaboração e corresponsabilidade com o Reino de Deus.

Certo que só há esperança viva porque existe o Reino de Deus (Marcos 4,26-33; Mateus 13,31-33), viver segundo esta é o grande desafio da vida cristã, a qual exige ação e opção decisiva, como Jesus viveu, os primeiros cristãos e muitos de nosso tempo.

Sobre o autor

Miguel Debiasi

Frade da Província dos Capuchinhos do Rio Grande do Sul. Mestre em Filosofia (Universidade do Vale dos Sinos – São Leopoldo/RS). Mestre em Teologia (Pontifícia Universidade Católica do RS - PUC/RS). Doutor em Teologia (Faculdades EST – São Leopoldo/RS).

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