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Celebrar as três Páscoas

Miguel Debiasi

 

A escravidão é um fato que permeia a história da civilização. Do período pré-histórico a era contemporânea a escravidão é fato que fustiga a ética, a religião, valores morais e direitos humanos. Livrar-se desta barbárie e deste horrendo mal tornou-se uma luta constante das pessoas íntegras a natureza humana, a fé judaica cristã e a ideia de uma sociedade plural e cosmopolita.

Os brasileiros vão carregar pelo resto da história as dores morais e ética pelos 356 anos de escravidão. A história diz que nossa identidade é escravocrata. O professor Josemar Carvalho diz que “o capitalismo brasileiro se estruturou tendo como base exploração e opressão racial”. A escravidão no Brasil é uma questão político-econômica estrutural. A grande maioria dos desempregados são pessoas negras. O Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Diesse) mostra que as pessoas negras recebem 40% a menos das pessoas brancas. A desigualdade social e as diferenças econômicas são reflexos de um país escravocrata. A 133 anos foi sancionada a Lei Áurea (13/05/1888 – Lei Imperial nº 3353), assinada pela Princesa Isabel (Isabel Cristina Leopoldina Augusta Micaela Gabriela Rafaela Gonzaga de Bourbon-Duas Sicília e Bragança), apelidada de “a Redentora” que dava um fim formal à escravidão negra no Brasil.

Os cotidianos atos de racismos e as constantes denúncias de trabalho escravo no Brasil é reflexo de uma estrutura cultual, política e ideológica de uma sociedade que não pretende livrar-se da escravatura. No continente americano, o Brasil foi o último país a sancionar uma lei de combate à escravatura. Parece-nos que ainda a um longo caminho de resistência a ser feito para constituir-se numa sociedade de igualdade, liberdade e de direitos iguais inaliáveis. A resistência necessária e a luta contra todo preconceito racial e social é perspectiva que a Páscoa judaica cristã aponta. Os muros raciais e sociais são invisíveis aos olhos do senso comum, mas a fé no Deus judaico cristão contrapõe-se a toda forma escravidão.

A Páscoa de Cristo é um resultado de uma caminhada de libertação do povo de Deus, iniciada pelos hebreus, judeus e cristãos. A Páscoa ou Pessach, instituída entre os judeus, é celebrada como memorial da liberdade dos hebreus, povo que vivia na escravidão no Egito. Esta festa era celebrada na primeira lua cheia, que ocorria no mês hebraico (nissan) que corresponde mais ou menos os últimos dias de março e meados de abril do calendário civil. Os judeus seguem a tradição descrita no livro do Êxodo: “Este dia será para vós um memorial, e celebrareis como uma festa para o Senhor; nas vossas gerações e a festejareis; é um decreto perpétuo” (Êxodo 12,14). Para recordar a libertação da escravidão os judeus celebram o Pessach comemorado durante sete dias, por meio de assembleia santas (orações, celebrações), comidas próprias como pães ázimos ou sem fermentos e com cordeiro macho e observando outras prescrições santas (Êxodo 12).

A Páscoa é a festa mais importante para os cristãos, porque celebra-se a ressurreição de Jesus Cristo, a vitória da vida sobre a morte, o pecado. A celebração anual da Páscoa acontece no primeiro domingo após a primeira lua cheia que ocorre no início da primavera no Hemisfério Norte e do outono no hemisfério Sul, entre os dias 22 de março a 25 de abril. Pelos textos da Sagrada Escritura Jesus teria participado de várias celebrações pascais, como acontecera aos doze anos de idade que foi levado pela primeira vez pelos seus pais, José e Maria, para comemorar a Páscoa em Jerusalém (Lucas 2,41-50). A participação derradeira de Jesus em Jerusalém é a sua Última Ceia, junto ao grupo de discípulos e discípulas celebra a Páscoa definitiva pela entrega de sua vida de corpo e de sangue, simbolizados pelo pão e vinho da refeição (Mateus 26,26-29). O cume da Páscoa do Senhor é sua ressurreição, da vitória da vida sobre toda morte, ou de toda forma de escravidão humana (Marcos 16,1-8).

Então, a Páscoa já era comemorada antes do surgimento do cristianismo, o povo judeu celebrava a libertação da escravidão do Egito, período que durou aproximadamente 400 anos. Hoje, os cristãos precisam celebrá-la como memorial de salvação por Cristo ter derrotado a morte e todo pecado. A vitória de Cristo sobre a morte é sinal de libertação de todas as escravidões. Em Cristo ressuscitado não cabe a escravidão, o preconceito racial e de gênero, muito menos, consentimento para a desigualdade social e econômica que sacrifica tantos seres humanos em situação de pobreza e miséria absoluta. A fé em Cristo ressuscitado pede uma práxis cristã libertadora e transformadora de todas situações de mortes contemporâneas.

Sobre o autor

Miguel Debiasi

Frade da Província dos Capuchinhos do Rio Grande do Sul. Mestre em Filosofia (Universidade do Vale dos Sinos – São Leopoldo/RS). Mestre em Teologia (Pontifícia Universidade Católica do RS - PUC/RS). Doutor em Teologia (Faculdades EST – São Leopoldo/RS).

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