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A religião a serviço de grupos políticos não é religião

Miguel Debiasi

Na boca de muitos políticos e de líderes religiosos há um discurso de fusão entre religião e política, beirando a promiscuidade. Esse discurso é extremamente nocivo para a vivência da fé em Cristo e para a ação da política. Livrar-se dessa prática confusa é um desafio da religião, especialmente das comunidades cristãs, e do Estado, papel dos políticos.

Nos últimos tempos no Brasil tem-se promiscuído a relação entre fé e política. Líderes religiosos usam da religião para ingressar na política pública. Políticos usam da religião e da comunidade cristã para se sustentarem na política partidária e pública. Usam os púlpitos das igrejas e as tribunas das Câmaras Legislativas municipais, estaduais e federal, ignorando por completo o que compete à esfera da religião e da política paritária e pública.

Basta conectar um canal de televisão religioso para observar o quanto há nos púlpitos evangélicos um discurso político. O púlpito tornou-se um verdadeiro palanque eleitoral, com uma pauta de assuntos desde morais, políticos, econômicos, assumidos pelos líderes religiosos. Ao acessar um canal de televisão do Congresso Nacional, houve-se em discursos de políticos a pauta da religião, dos valores que sua crença defende e prega.

No Congresso Nacional, alguns grupos de congressistas fazem alianças com o que há de pior na religião e no mundo político. Já faz algum tempo que se constitui no Congresso Nacional o grupo “BBB”, identificado como as bancadas do “Boi”, formada por ruralistas; bancada da “Bala”, configurada por militares; e bancada da “Bíblia” constituída por evangélicos e católicos de direta.

Estes grupos de congressistas têm pautado todo tipo de matérias de seus interesses políticos e religiosos, sempre contrárias ao bem coletivo, como a taxação dos ricos, bancos, bets, reforma agrária, direitos humanos. Ademais, em alto tom, defendem o armamento da população, a tortura das minorias e até extermínio de pessoas. O grupo da bancada “Bíblia” tem promovido a chamada “Marcha para Jesus”, usada como palanque para o discurso de políticos, governadores e do ex-presidente da República. A “Marcha para Jesus” é palanque de políticos que só sobrevivem na vida pública pelo uso da religião.

Na Câmara Municipal da cidade de São Bernardo do Campo, Estado de São Paulo, em primeiro de julho deste ano, foi instituído o “Dia da Capelania da Universal nas Forças Políticas”. A iniciativa foi apresentada pelos líderes religiosos e políticos da Igreja Universal do Reino de Deus (IURD), que atingiu a marca de 20 mil capelães militares, atuando dentro de batalhões e unidades das polícias militares e civis em todo o Brasil. O governador do Estado de São Paulo, Tarcísio de Freitas, do partido Republicanos, partido controlado pela Igreja Universal do Reino de Deus, esteve presente e concedeu pelo menos 20 medalhas, diplomas ou honrarias a pastores desta igreja e distribuiu livros do bispo Edir Macedo.

Os atos de confusa relação entre religião e política partidária são abundantes. Essa relação inadequada entre fé e política pode ser interpretada de muitas formas. A primeira, como uma ligação ideológica e superficial, onde a religião cristã é praticada sem a verdadeira compreensão do que seja a fé em Cristo e no Evangelho. Em segundo lugar, orações religiosas e discursos políticos se confundem, sem uma verdadeira contextualização, que não leva a mudança de comportamento da fé nem ao avanço da consciência religiosa e política. 

Igrejas cristãs, através de seus líderes, usam das eleições com um claro plano de governar o país, segundo suas crenças e ideias políticas. Essa prática tem gerado consequências negativas, para ambos os lados, para a religião e para a política. O Censo de 2022, realizado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), revela a perda da força do avanço evangélico no Brasil. Os fatores da perda evangélica são resultado do envolvimento de pastores com a política partidária e pública, gerando uma insatisfação de jovens de famílias evangélicas.

A transformação dos púlpitos evangélicos em tribunas políticas torna a fé cristã inoperante no mundo político e acaba servindo de instrumento para justificar opções religiosas e políticas contrárias ao Evangelho de Jesus Cristo. As pesquisas qualitativas indicam a existência de uma espécie de desgaste de um modelo de fé cristã entre os próprios evangélicos.

O cenário que se estabelece no Brasil leva a refletir a relação entre fé e política e seus campos de atuação. Jesus Cristo, ao constituir a Igreja, não a enviou ao mundo como um partido político, muitos dos quais no Congresso Nacional, atuam para seu próprio grupo (Lucas 12,1-2). Com raras exceções, um líder religioso que se tornou político assume no Congresso Nacional uma posição favorável aos projetos coletivos do bem-estar social dos cidadãos.

Em nome da fé e da religião, instrumentaliza-se as comunidades cristãs em benefício de projetos de grupos que tem um comportamento contrário ao que ensinou Jesus Cristo (Marcos 8,14-21). Jesus Cristo alertou os discípulos e seguidores para tomarem cuidado com a manipulação da religião praticada por grupos contrários a Ele. Estes grupos sempre atuaram contra as políticas públicas que visam a justiça social, a defesa dos direitos coletivos, a inclusão dos marginalizados e da transformação da sociedade (Mateus 16,6-12).

Neste cenário confuso, é preciso dizer que a religião, assim como a comunidade cristã, está acima de seu líder religioso e de seus interesses. Que a política, em sua função pública, está acima do político e de seus próprios interesses.

Obviamente, que os cristãos precisam participar ativamente da vida pública e da política, mas sempre à luz do Evangelho que defende as pessoas em sua dignidade, a liberdade de educação, a religiosa, a justiça, a inclusão social. Esta prática não submete a fé e a comunidade cristã à política e nem corrompe a função da política e o papel do Congresso Nacional, das assembleias estaduais e municipais.  A religião é mais que serviço político.

 

Sobre o autor

Miguel Debiasi

Frade da Província dos Capuchinhos do Rio Grande do Sul. Mestre em Filosofia (Universidade do Vale dos Sinos – São Leopoldo/RS). Mestre em Teologia (Pontifícia Universidade Católica do RS - PUC/RS). Doutor em Teologia (Faculdades EST – São Leopoldo/RS).

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