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A palavra que todos pronunciam: FÉ

Miguel Debiasi

Segundo o Oxford Dictionary, existem no mundo 273 mil palavras-chaves e 171.500 delas estão em uso corrente. Uma palavra muito comum a todos os povos é fé. Nos perguntamos o que significa a palavra fé? Como viver a fé? A resposta pode ser múltipla e os caminhos da fé nada fácil.

A palavra é um termo. Um vocábulo. Uma expressão. Uma manifestação verbal ou escrita formada por um grupo de fonemas com uma significação. Cada palavra tem um sentido e quando articuladas em conjunto formam frases que expressam uma ideia. Para maior compreensão recorremos a expressões como estas: palavra do rei – expressa que uma promessa será cumprida ou que a afirmação é incontestável; medir ou pesar as palavras – expressa falar com prudência ou tomar cuidado no que diz; meias palavras – expressa palavras duvidosas ou pouco expressivas; santas palavras – expressa palavras que se estava esperando; molhar a palavra – expressa tomar alguma bebida alcoólica.

A palavra é o instrumento de comunicação do ser humano. Segundo estudos da linguística existem mais de sete mil idiomas no mundo e uma das palavras mais comuns é fé. A palavra fé é empregada em muitos contextos, do religioso ao sociopolítico, cultural, antropológico. Ouvimos expressões como: “boto fé”, “coloque fé”, “plantei a fé”, “a fé é como amor”, “andei pelo radar da fé”, “dei o primeiro passo com fé”, “consegui vencer com fé”. “A fé é crer naquilo que a razão não pode entender”, pensa o filósofo iluminista francês Voltaire (1694-1778).

O conceito da palavra fé é muito amplo. Em geral, fé é acreditar em si mesmo e em alguma coisa mesmo quando ela pareça impossível de se realizar ou tornar-se realidade. Como cristãos recorremos à Sagrada Escritura para conceituar a palavra fé. As páginas da Sagrada Escritura apresentam Abraão como pai da fé, porque segue o chamado do Senhor, até então, um Deus desconhecido (Gênesis 12). Paulo, apóstolo, dirigindo-se aos primeiros cristãos de Roma, ressalta Abraão como o primeiro a crer na promessa do Senhor, portanto, a testemunha fiel da fé (Romanos 4,11). São Tiago em sua epístola destaca que Abraão além de ser fiel em sua fé, desenvolveu relacionamento profundo com o Senhor, a ponto de Deus chamá-lo de amigo (Tiago 2,23).

Mas o que significa a palavra fé? O teólogo biblista José Comblin, estudioso da Sagrada Escritura, portanto, da Tradição Bíblica, escreve que a resposta do homem à palavra de Deus é a fé. A palavra de Deus contribui para esclarecer o sentido da fé, a fé esclarece o sentido da Palavra de Deus. Para possuir a fé é preciso reconhecer a Palavra do Senhor, como a Sagrada Escritura que vem de Deus e se dirige a cada um de nós e para aceitá-la. A palavra da Sagrada Escritura não são palavras que falam de inteligência. Mas são palavras que transmitem a fé do povo de Israel e que permitem serem reconhecidas em sentido de fé. A fé do povo de Israel construiu a chamada Tradição Bíblica, ou da fé em Deus passada de geração em geração (Deuteronômio 2,5-10).

Seria a fé uma resposta à Palavra de Deus? Toda pessoa que professa a fé reconhece a Tradição Bíblica, portanto, que responde a Palavra de Deus? Nesse sentido, qualquer pessoa que reconhece a Deus que se revela ao longos séculos, pela fé assume as responsabilidades e as obrigações com as quais a Palavra de Deus investiu o povo de Israel: “obedeci à voz do Senhor meu Deus e agi conforme tudo o que me ordenaste” (Deuteronômio 26,14). Na perspectiva bíblica, a confissão de fé está para a realização a Palavra do Deus: “abençoa o teu povo de Israel, e a terra que nos deste, como juraste a nossos pais ...” (Deuteronômio 16,15).

A fé do povo de Israel que nasce da resposta a Palavra de Deus, construindo a Tradição Bíblica, passada de geração em geração, foi proclamada ao longo dos séculos pelos profetas: “E Esdras bendisse o Senhor Deus grande; e todo povo respondeu: Amém, Amém, levantando as mãos; e inclinaram-se e prostrados por terra, adoram a Deus” (Neemias 8,6). A palavra “Amém” vem do verbo “crer” em hebreu e que exprime a atitude de fé do homem com relação ao Senhor. Esta atitude de fé, para os profetas da Tradição Bíblica, é uma adesão do homem que se confia na Palavra do Senhor. O contrário da fé, seria menosprezar a Deus, ser rebelde, não se submeter, não reconhecer sua Palavra de Deus, escreve José Comblin.

Na perspectiva da fé bíblica ou da fé do povo de Israel e dos cristãos, a fé nasce da autoridade da Palavra de Deus. Jesus em sua missão expressa essa autoridade da Palavra de Deus, ensinando no Templo, quando se aproxima os sumos sacerdotes e anciãos do povo para perguntar com que autoridade Ele fazia milagres e anuncia o Reino de Deus (Mateus 21,23-27). Para ter fé é preciso ter confiança na autoridade da Palavra de Deus, como fez Abraão, por sua vez, o modelo de fé (Hebreus 11,8-10).

Num mundo multicultural as experiências de fé também são múltiplas. Mas todo cristão pelo sacramento do Batismo insere-se na Tradição Bíblica, portanto, da fé enquanto a Palavra de Deus. Inserido nessa tradição que iniciou com o povo de Israel, renovada pela encarnação do Filho de Deus e testemunhada pelos apóstolos e a Igreja Antiga, indica que a fé cristã será autêntica ao responder à Palavra de Deus. A fé é pessoal, resposta livre à Palavra de Deus. É um mistério íntimo em que só intervêm Deus e o crente, ambos se correspondem - chamado e resposta.

Em meio a tantos contextos sociais adversos, religiosos confusos e camuflados, responder fielmente à Palavra de Deus, é algo muito exigente. Talvez, poucos tenham coragem de viver a fé segundo os profetas, Cristo, os Apóstolos e dos cristãos da Igreja Primitiva, que responderam a Palavra de Deus com o martírio. O sangue de Jesus derramado da cruz e de muitos profetas e cristãos, continua regando a sementeira da fé, os caminhos da fé.

Quando se pronuncia a palavra fé, evoca-se uma resposta afirmativa à Palavra de Deus, a Deus que se fez carne, vida libertadora e redentora. Eis o sentido e o caminho da fé.  

 

Sobre o autor

Miguel Debiasi

Frade da Província dos Capuchinhos do Rio Grande do Sul. Mestre em Filosofia (Universidade do Vale dos Sinos – São Leopoldo/RS). Mestre em Teologia (Pontifícia Universidade Católica do RS - PUC/RS). Doutor em Teologia (Faculdades EST – São Leopoldo/RS).

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