1º ano de pontificado, apoio e preocupação
Em 08 de maio de 2025, o Papa Leão XIV foi eleito como sucessor de Francisco. A escolha ocorreu em apenas dois dias de conclave, sendo consolidada na quarta votação. Se, para boa parte dos fiéis a resposta sobre o rumo da Igreja foi imediata, para outra parte a preocupação. O pontificado de Leão XIV mal começou, e o mundo aguarda os seus próximos passos.
Na história da Igreja, a escolha do nome papal nunca é aleatória; ela constitui o primeiro ato programático do pontificado. Mais do que uma simples nomenclatura, o nome é um nome de missão, carregado de profundo simbolismo, que aponta para as intenções, o estilo e o foco pastoral do novo sucessor de Pedro.
Ao escolher um nome, o Papa se alinha a um antecessor que admira ou a um santo de devoção, traçando o perfil da evangelização que deseja conduzir naquele momento histórico, seja de continuidade ou de renovação. O nome funciona como um “influencer” espiritual e doutrinal, um sinal claro ao mundo sobre o legado que pretende deixar.
O nome “Leão”, adotado por um papa, simboliza força, autoridade papal, coragem, vigilância e firmeza na fé. Historicamente, “Leão” é um dos nomes mais antigos, tendo sido usado por 14 papas.
O Papa Leão I (440-461), referência a São Leão Magno, foi aquele que consolidou a autoridade do Papa, protegeu Roma e defendeu a doutrina e a fé cristã contra heresias, sugerindo um papa diplomata e defensor dos fracos. Ele foi o primeiro papa a receber o título de “Magno” e é um dos dois únicos na história a ser proclamado Doutor da Igreja.
O Papa Leão XIII (1878-1903) destacou-se pela modernização da Igreja, destacando-se pela encíclica da Rerum Novarum (1891), que iniciou a Doutrina Social da Igreja, defendendo direitos operários e justiça social contra o capitalismo desenfreado. Ele valorizou a filosofia de São Tomás de Aquino, fortaleceu a diplomacia vaticana e foi um forte defensor do Rosário.
Ao ser eleito, o Cardeal Robert Francis Prevost adotou o nome de Leão XIV. Como missionário agostiniano com trajetória consolidada na América Latina, especificamente no Peru, estabeleceu um elo direto com Leão XIII, o criador da Doutrina Social da Igreja e defensor do compromisso com os trabalhadores e os pobres. Isso sinaliza que seu pontificado será marcado pelo compromisso com os marginalizados; indica, ainda um projeto de Igreja voltada à justiça social, ao diálogo com o mundo contemporâneo e à ação concreta em defesa da dignidade humana.
O fato de ter nascido em Chicago, torna a eleição de Leão XIV uma virada simbólica e geopolítica: trata-se do primeiro pontífice nascido nos Estados Unidos, mas com raízes eclesiais profundas na América Latina. Ele surge, assim, como herdeiro tanto da tradição intelectual europeia quanto da teologia libertadora do Sul global.
Ao apresentar-se como Leão XIV, pronunciou-se na perspectiva de defesa da paz, da solidariedade, da inclusão e da centralidade dos pobres no coração da Igreja. Assumindo a cátedra de Pedro, deixou a impressão da continuidade da abordagem de Francisco, especialmente na defesa dos migrantes, na crítica à “economia que mata” e no incentivo a uma “Igreja em saída”, comprometida com os dramas mundiais.
Passado um ano de seu pontificado, o Papa Leão XIV começa a enfrentar as primeiras críticas e preocupações no seio da Igreja. Uma vertente das críticas aponta um estilo considerado ‘morno’ ou tépido, contrastando com a abordagem mais carismática, porém divisiva, que marcou o início de seu pontificado. Paralelamente, observa-se uma resistência à sua volta à tradição litúrgica; ao contrário da simplificação adotada por Francisco, Leão XIV optou por paramentos completos e tradicionais em suas aparições, incluindo a cruz de ouro, o que é visto por críticos como um retrocesso à linha de Bento XVI.
Também surge o questionamento sobre a falta de uma postura mais contundente contra conflitos geopolíticos, embora o pontífice tenha, recentemente, intensificado o tom contra líderes com “mãos sujas de sangue”, direcionando críticas às tensões no Oriente Médio e às políticas migratórias dos EUA.
Teólogos progressistas esperam que Leão XIV foque na libertação, e não apenas na reconciliação, gerando dúvidas sobre seu perfil moderado terá a mesma coragem reformista de Francisco. Embora agostiniano com formação tomista, o que sugere um equilíbrio entre preservação institucional e atualização, seu posicionamento sobre temas morais sensíveis ainda causa incertezas entre os observadores.
Em outubro de 2025, Leão XIV alterou as regras financeiras do Vaticano, revogando uma reforma de 2022 de seu antecessor. Ao descentralizar a gestão, ele permitiu que a Administração do Patrimônio da Sé Apostólica (APSA) utilize intermediários financeiros internacionais. Além disso, o pontífice tem se mostrado crítico ao uso excessivo da inteligência artificial, classificando-a como um “desafio antropológico”.
Ainda em outubro de 2025, o Papa Leão XIV publicou sua primeira exortação apostólica, Dilexi Te (Eu Te amei). O documento reafirma o amor pelos pobres como núcleo da missão eclesial, denunciando as estruturas econômicas desiguais e defendendo a opção preferencial pelos mais vulneráveis, em continuidade com o magistério social da Igreja e de Francisco.
As viagens internacionais do Papa Leão XIV em 2025 e 2026 consolidam uma agenda focada no diálogo inter-religioso, na paz no Oriente Médio e no apoio a regiões de rápido crescimento da Igreja. Destaques incluem a visita histórica à Turquia/Líbano (final de 2025), e o roteiro africano (Argélia, Camarões, Angola, Guiné Equatorial em 2026), focando em áreas de conflitos, imigração e periferias geográficas. Esses compromissos reafirmam a continuidade do legado do Papa Francisco, priorizando a diplomacia direta e a presença junto às comunidades marginalizadas.
Em suma, o primeiro ano de Leão XIV consolidou um amplo apoio episcopal, focando na busca pela unidade, na pacificação de polêmicas e na centralidade da doutrina. Mais do que críticas a uma má gestão, o cenário revela uma expectativa equilibrada sobre como o pontífice conciliará o legado pastoral de Francisco com um estilo próprio, mais moderado e estrutural. Como todo início de pontificado, o tempo dirá o rumo definitivo do Papa Leão.
Comentários