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Vênus Manca, a vida é bela

Gislaine Marins

“Por trás desta maldade escondem-se frustração e insatisfação. Não é a vitória que me interessa, mas mostrar ao mundo que a vida é sempre bela, mesmo quando se volta contra você, e que de um drama se renasce e se cresce mais forte do que antes”.

Esta é a resposta de Chiara Bordi, a primeira candidata selecionada para um concurso de miss na Itália com uma perna mecânica. A que maldade ela se refere? À das pessoas que, em vez de aplaudirem a pluralidade da beleza, agridem a candidata e acusam a jovem de ter sido selecionada por comiseração.

Nem tudo é falso nessa agressão absurda. Talvez muitas pessoas tenham colocado realmente a comiseração acima da beleza. E isso é tão ultrajante quanto a explícita hostilidade da qual Chiara foi vítima.

A diversidade luta contra dois inimigos: o opositor declarado e o falso apoiador, que ressalta o que escapa ao padrão hegemônico de beleza, como se em vez de um apoio estivesse dando uma bengala. É uma compaixão que humilha, que não possui empatia, que não respeita sinceramente a diferença do outro.

Este ano o problema na Itália foi a perna mecânica, como em outras latitudes a questão pode ser a cor da pele. O Brasil conhece bem o problema. Mas será que conhece os detalhes mais profundos? A questão da perna mecânica poderia ser aplicada, por analogia, ao problema das cotas na universidade. Ou não? O problema da perna mecânica poderia ser associado à posição das mulheres no mercado de trabalho. Ou não? A questão da perna mecânica poderia ser substituída pelos problemas dos homossexuais em uma sociedade heterossexual intolerante. Ou não?

Se alguém acha que modelos com pernas mecânicas, negros nas universidades, mulheres no trabalho, homossexuais na sociedade podem ser excluídas dos concursos, barrados nos estudos, rebaixadas profissionalmente, agredidos por sua identidade, estamos diante de casos de racismo, discriminação, intolerância. Isso é claro.

Entretanto, a maioria dos casos de preconceito não se encaixa nesse perfil. A arrogância, o sentimento de superioridade que humilha o outro, é uma postura que oculta a sua real natureza, usando justificativas coerentes apenas na aparência. Há frustração e insatisfação não somente em quem agride publicamente, mas em quem de forma velada aceita e reserva sentimento de compreensão ao que é incompreensível e inaceitável. Há frustração e insatisfação no bom pai de família que se orgulha de não ter um filho gay ou uma filha lésbica. Há frustração e insatisfação no bom branco que acha normal uma única forma de avaliação para averiguar a capacidade intelectual das pessoas – o teste de mede os conteúdos didáticos trabalhados em um certo tipo de escola. Às vezes eu gostaria de ver alunos brancos brasileiros participando de testes para a seleção em instituições estrangeiras. Em pé de igualdade, como gostam de afirmar os críticos ao programa de cotas. Seria uma choradeira sem fim em nome das particularidades do nosso ensino, que privilegia a história do Brasil e não a história da Itália, por exemplo. Um teste com perguntas sobre a Itália faz com que os estudantes italianos sejam mais inteligentes?

Eu não gostaria de ver candidatos fazendo apologia do machismo, da força, da raça branca, da heterossexualidade. Mas pior do que isso é ver os seus eleitores explicando que isso que estamos constatando não é o que estamos constatando: é mimimi. Pior do que isso é ver seus eleitores chamarem de vitimista quem critica o discurso do ódio e da discriminação. Pior do que isso é ver a relativização da dor e a afirmação do privilégio como uma condição natural. Pior do que isso é ver negros, mulheres e homossexuais que vivem na síndrome de Estocolmo quando poderiam viver livres cultural e socialmente, de cabeça erguida. Pior do que isso é ver o medo estampado nos olhos dos submissos e a falta de coragem para enfrentar os temores da vida.

Boa sorte a Chiara Bordi, jovem linda, com talento e coragem. Em um dos melhores retratos da nossa sociedade hipócrita, as Memórias Póstumas de Brás Cubas, Machado de Assis assim descrevia Eugênia, definida como a Vênus Manca: “Palavra que o olhar de Eugênia não era coxo, mas direito, perfeitamente são; vinha de uns olhos pretos e tranquilos.” A dissimulação dos próprios preconceitos é a arma dos mestres da retórica. Boa sorte aos nossos estudantes negros, às nossas mulheres trabalhadoras, aos nossos homossexuais: lindos e com talento. Tenham coragem. Especialmente no momento em que definirem o futuro do nosso país.

 

Sobre o autor

Gislaine Marins

Doutora em Letras, tradutora, professora e mãe. Autora de verbetes para o Pequeno Dicionário de Literatura do Rio Grande do Sul (Ed. Novo Século) e para o Dicionário de Figuras e Mitos Literários das Américas (Editora da Universidade/Tomo Editorial). É autora do blog Palavras Debulhadas, dedicado à divulgação da língua portuguesa.

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