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Vale: Para um mundo com novos Valores!

Miguel Debiasi

 

A venda da Companhia Vale do Rio Doce completa em 6 de maio 22 anos. Na época o governo Fernando Henrique Cardoso, do PSDB, leiloava a principal estatal brasileira do ramo da mineração e de infraestrutura. A Companhia Vale foi vendida por uma bagatela de R$ 3,3bilhões, quando na época somente suas reservas minerais valiam mais de R$ 100 bilhões. A tragédia de Brumadinho, além do luto, ao menos poderia levar a um debate nacional sobre o projeto de um país.

A Companhia Vale do Rio Doce foi criada em 1942 com os recursos do Tesouro Nacional, e durante 55 anos foi considerada uma empresa mista cujo controle acionário pertencia ao governo. Nestes 55 anos sob o comando do governo a Companhia Vale não teve nenhum fato considerado uma tragédia social, ambiental. Com sua privatização e sob domínio político do PSDB, na militância política de José Serra, Ministro do Planejamento, na época, a Vale passou a ser comandada pelo banco Bradesco, detentor de 32% das ações.

Na ocasião o argumento usado pelo governo Fernando Henrique Cardoso para a privatização da Vale era o pagamento da dívida interna e externa. Em razão disto, junto à Vale foram privatizadas outras estatais. Naquela data os movimentos sociais, entidades religiosas e ONGs, e partidos de oposição, promoveram um forte manifesto público contra a privatização. Mas foram derrotados pelo governo e pela grande mídia como a Rede Globo defensora da privatização. Em 2007, os movimentos sociais organizaram um Plebiscito Popular chegando a três milhões e 700 mil votos pela anulação do leilão da Vale, mas também não obtiveram sucesso junto ao Congresso Nacional.

A Companhia Vale, privatizada, no curto período dos três últimos anos provocou duas grandes tragédias de dimensões ambientais, sociais, econômicas, humanas. Em 2015 o rompimento da barragem em Mariana deixou um saldo de 18 pessoas mortas e uma desaparecida; contaminação do solo do distrito de Bento Rodrigues e de diversos municípios às margens do Rio Doce, e também do Oceano Atlântico; aumento da turbidez das águas do Rio Doce; impacto no abastecimento de água em cidades de Minas Gerais e Espírito Santo; danos culturais a monumentos históricos do período colonial, danos à fauna e à flora; prejuízos na área pesqueira e do turismo, conforme laudo ambiental. Hoje, para o mundo, Mariana é símbolo do maior desastre ambiental na história do Brasil.

As consequências do rompimento da barragem em Brumadinho na tarde do dia 25 de janeiro deste ano, futuramente serão computadas diante do mar de lama que destruiu por completo a cidade. No momento lamenta-se o grande número de pessoas mortas, outras soterradas pela lama. As consequências ambientais, humanas, sociais e econômicas serão as mais destruidoras da história do Brasil, cometidas por uma empresa privada.

Ironicamente, depois do acontecido em Brumadinho o Ministro da Economia, Paulo Guedes, diante de um Brasil entristecido afirmou “as empresas estatais são como filhos que fugiram de casa e hoje estão drogados”. Ao ser informado do acontecido em Minas Gerais o Presidente da República Jair Bolsonaro ironiza “isto não é assunto de governo”. Engrossa o caldo da indiferença o pronunciamento do Ministro da Casa Civil Onyx Lorenzi: “não haverá intervenção do governo na Vale”. Pela enorme tragédia de Brumadinho chega a ser irônico o slogan da própria empresa - Vale: Para um mundo com novos valores!

Quando a Vale foi leiloada tinha a participação em 54 empresas e possuía uma das maiores malhas ferroviárias que deveria ser o meio de transporte mais estratégico e menos poluente do mundo. Bem como, a Vale possuía a maior área de minérios do mundo. A privatização só fez bem para os acionistas majoritários, pois em termos de desastres ambientais a Vale se superou de longe. Lamentam-se profundamente as vítimas humanas, animais, toda espécie de seres vivos e danos ambientais irrecuperáveis. Mas quem sabe, tudo isto desperte um debate nacional sobre o projeto de um país que serviria primeiro às pessoas, ao seu povo, ao invés dos grupos econômicos multinacionais. Que, aliás, sugam as reservas naturais da nação em prol do enriquecimento de um grupo econômico.

Sobre o autor

Miguel Debiasi

Frei capuchinho. Atualmente é pároco da Paróquia Cristo Rei, de Marau, RS, e Conselheiro do Governo Provincial, eleito no dia 04 de setembro de 2014. Mestre em Filosofia e Teologia.Autor do livro Teologia da Tolerância – um novo modus vivendi cristã, publicado em 2015, pela ESTEF, Escola de Espiritualidade e Teologia Franciscana. Também escreve artigos e crônicas.

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