Supervalorizadas, mas que poucos acertam
Em nosso tempo faz-se previsões sobre tudo e todos. As previsões de preços e de ações do mercado financeiro têm pautado o planejamento da política econômica dos governos, empresas, do ser humano e família. A previsão que mais tem sido valorizada é a do mercado financeiro e esta tem falhado em seus cálculos.
O sociólogo polonês Zygmunt Bauman elaborou o paradigma da modernidade líquida, um conceito muito valorizado pelas ciências. Bauman descreve que as relações sociais, econômicas e de produção são frágeis, fugazes e maleáveis, como os líquidos. As instituições, as conexões sociais e as identidades tornam-se mais voláteis e maleáveis.
A fluidez e instabilidade invadiu as ciências onde suas categorias se tornam menos definidas. As relações humanas são caracterizadas pela brevidade e pela fragilidade. Os laços afetivos e sociais tornam-se voláteis e fluidos. A liberdade individual vem acompanhada de um crescente sentimento de incerteza e ansiedade. A modernidade líquida é uma espécie de fim em si mesma, servindo principalmente para reproduzir e manter a ordem por meio do consumismo.
O mercado financeiro é um ambiente instável e imprevisível, devido a muitos fatores e variantes que influenciam, como os sentimentos dos investidores, decisões políticas e situações econômicas. Por esses fatores e variantes, o mercado financeiro gera mudanças rápidas, causando oscilações nos preços das ações e dos produtos diariamente. O mercado financeiro que vive da especulação pode causar uma reversão de tendências em questão de horas.
Há uma rede de empresas sofisticadas atuando no mercado financeiro, negociando 24 horas por dia valores. Estas desenvolvem duas linhas de raciocínio ao criar uma estratégia de negociação de preços como das ações em bolsa de valores: da análise fundamental e da probabilística.
A análise fundamental é a mais tradicional e a mais longa em uso, considerada mais confiável por analistas de mercado e profissionais de mercado. Essa abordagem consiste em dados econômicos e financeiros derivados do ambiente econômico em que a empresa atua e os resultados operacionais decorrentes de suas operações.
A análise probabilística é uma maneira de olhar para o futuro com base em dados passados. Esta previsão probabilística já existe há algum tempo e recentemente ganhou popularidade no mundo dos negócios, porque ajuda as empresas a tomarem decisões mais rapidamente do que os métodos tradicionais de cálculos.
Todos os anos economistas e empresas especializadas em mercado financeiro fazem previsões sobre os indicadores econômicos e que determinam em muito a ação dos grupos financeiros, empresas e vida dos cidadãos. As previsões mais calculadas são a taxa de juros, o câmbio, o PIB, comportamento da Bolsa de Valores, inflação, preços dos imóveis e veículos.
O UOL, que é uma empresa brasileira que oferece conteúdo, tecnologia, serviços e meios de pagamentos digitais, no final de 2024 fez um levantamento a respeito das previsões do mercado financeiro. Segundo essa empresa, o mercado financeiro errou cerca de 95% de suas previsões nos últimos quatro anos.
O UOL analisou as previsões para os anos de 2021 a 2024, e constatou que estas não se realizaram, mesmo sendo feitas com base em pesquisas detalhadas como o Boletim Focus, do Banco Central, da LatAm Fund Manager Survey, do Bank of America.
Em 2024 as previsões com o Ibovespa, o cálculo era que o índice superaria os 140 mil pontos, mas ele caiu 10,36%, fechando a 120.283,40 pontos. A Selic, a expectativa era que a taxa de juros ficasse em 9%, mas ela subiu para 12,25% ao ano. O PIB, a previsão era de um crescimento de 1,59%, mas a alta acumulada em 2024 foi de 3,4%. O dólar, a estimativa era que o dólar terminasse o ano em R$ 5,00, mas subiu para R$ 6,18, uma alta de 27,3%. A Inflação/IPCA, a previsão era de uma inflação de 3,90%, mas o índice foi de 4,83%.
As previsões para 2025 é de um crescimento moderado. O Ibovespa deve se manter entre 110 mil e 140 mil pontos, enquanto a Selic deve alcançar 15%. O PIB deve crescer 2,02%, e a inflação, media pelo IPCA, ficará em 4,99%. O dólar deve ser cotado a R$ 6,00.
Conforme o levantamento do UOL, a taxa de acerto das previsões foi de 5%, o que significa que, em cada 20 previsões feitas, apenas uma se confirmou.
É preciso perguntar-se porque as previsões do mercado erram tanto? A resposta parece-nos se óbvia, é porque estas empresas especializadas e os economistas trabalham com os olhos do interesse do mercado financeiro. O papel dos analistas com suas previsões é criar opiniões e gerar um poder de influenciar as decisões de consumo, poupança, investimentos e taxas de juros.
Outro fator do desacerto é porque a grande maioria dos analistas são conduzidos pelos vieses ideológicos do mercado, criando círculos viciosos, previsões alarmistas, apresentado os governos como inibidores do investimento privado, gerando desincentivo para o investimento. Nos interesses ideológicos, quanto menos acerto das previsões, melhor para o mercado financeiro, porque este sabe onde investir para continuar no lucro independente dos cálculos.
No mundo de negócios com ganhos exorbitantes, as previsões do mercado financeiro servem para gerar equívocos e afugentar investimento e investidores, como forma de pressionar os governos e submetê-los às suas políticas econômicas. Ninguém cria um mundo incerto na economia de graça, nisso alguns ganham muito com as previsões incertas como os grupos de especulação do mercado financeiro, que vivem para o ganho sem o mínimo pudor ético.
As previsões em todos setores da sociedade são necessárias quando orientam os cidadãos e os ajudam a tomar decisões mais acertadas dentro de sua realidade e do contexto. Estas previsões estão em falta.
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