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Personalidade samaritana franciscana ao papado

Miguel Debiasi

Hoje, dia 7 de maio, início do conclave, os olhos do mundo voltam-se para Roma, aguardando o resultado da reunião dos cardeais. Na Praça de São Pedro, instalou-se uma megaoperação dos meios de comunicação para divulgar, primeira mão, o nome do novo bispo de Roma, a pessoa de maior influência na humanidade. Será que o legado do Papa Francisco influenciará o sucessor da cátedra de Pedro e os rumos da Igreja?

Nestes últimos dias, muitos cientistas da religião, e até mesmo não entendidos da matéria escreveram sobre o pontificado do Papa Francisco, e dependendo dos passos do sucessor, outro tanto poderá vir. O pontificado de Francisco foi um diferenciado marco da história da Igreja, à altura das orientações do Concílio do Vaticano II, de renovar a Igreja e dela ter uma presença significativa na condução da humanidade.

 

Da janela central de apresentação da Basílica de São Pedro, em 13 de março de 2013, aos doze anos de pontificado concluídos em 21 de abril de 2025, Francisco impactou a civilização do século XXI. Impactou por ter sido o Papa primogênito do continente latino-americano; pela humildade e simplicidade; pela compreensão de Igreja e de sua missão; pela capacidade de apresentar projetos para o bem comum da humanidade e do planeta Terra; pela sua vida de fé integral e santa.

Já nas primeiras palavras dirigidas à humanidade, da janela da Basílica, como sucessor de São Pedro, deixou claro a Igreja que estava servindo: aquela de Jesus de Nazaré feito pobre para estar entre os pobres. Em sua primeira viagem à ilha de Lampedusa, em 8 de julho de 2013, deixou claro ser fiel às suas palavras. Na ilha, acolheu dezenas de imigrantes e teve compaixão dos milhares de afogados ao colocar no mar uma guirlanda de flores em sua memória.

Em julho de 2013, após participar da Jornada Mundial da Juventude no Rio de Janeiro, em voo de retorno para Roma, respondeu a uma pergunta da jornalista Ilze Scamparini, sobre os gays na Igreja: “Se uma pessoa é gay e procura Jesus, quem sou eu para julgá-la”? Muito além da resposta, acolheu as pessoas da comunidade LGBTQIA+. A estes, devolveu a dignidade, o respeito e o direito à liberdade e à participação no sagrado.

O rumo de seu pontificado se consolida com a Exortação Apostólica Evangelii Gaudium (Alegria do Evangelho), publicada em 24 de novembro de 2013. Com sabedoria de pastor, linguagem e conteúdo compreensível, apresentou sua visão da situação da Igreja e indicou qual deveria ser o futuro dela – “Uma Igreja em saída”. A Exortação resgata o Concílio do Vaticano II, que, em teses, havia aberto as janelas da Igreja, que até então não se renovou e nem estabelecia diálogo com o mundo moderno. Esse documento aponta como deve ser a interlocução com o mundo: profética, indicando as problemáticas globais e de compaixão com os últimos.

Em outubro de 2014 recebeu em Roma os representantes dos Movimentos Sociais do mundo, para tratar da justiça e da paz social. Na fé em Cristo, que se fez pobre para os pobres, diante dos olhos do mundo, defendeu a acolhida dos imigrantes, dos seres humanos marginalizados, e criticou as instituições que oprimem a humanidade.

Em maio de 2015, uma nova provocação a nível planetário, com a publicação da encíclica Laudato Si. Reflete as relações humanas com o ecossistema, gerando as crises ambientais, que também são crises humanas, produzindo as desigualdades sociais. Documento apreciado positivamente pela humanidade. Em 2016, veio a Exortação Apostólica Amoris Laetitia, da relação da Igreja com a “Igreja doméstica”: a família.

Em janeiro de 2018, em viagem ao Chile, seu pontificado dá um outro salto de qualidade: endureceu sua posição contra o abuso sexual. Este crime não devia ser colocado debaixo do tapete da Igreja. Reconheceu que havia necessidade de limpar a Igreja com punições severas aos abusadores e de fazer ações reparadoras das vítimas desse crime hediondo. Disposto, iniciou a rever e reformar o poder eclesiástico, em reparação dos pecados e dos crimes praticados por ministros da Igreja.

Em 2019 deu início o Sínodo dos Bispos para a Região Pan-Amazônica. A convocação veio ainda em 2017, o sínodo durou 21 dias, reunindo representantes e lideranças dos países com território amazônico. O Sínodo abordou as questões do trabalho da Igreja com os povos amazônicos e com meio ambiente. Afirmou que toda agressão ao meio ambiente é pecado humano praticado contra a Mãe Terra, a casa comum.

Em 2021, o Papa Francisco abre o Sínodo da Igreja Católica. Imprimiu um processo eclesial sinodal global, diga-se, do maior projeto da Igreja desde o Concílio Vaticano II. O sínodo foi concluído em outubro de 2024; durante os três anos fortaleceu a consciência que é preciso trabalhar e viver segundo uma Igreja sinodal. A sinodalidade deve ser o jeito da Igreja ser e de viver sua missão, ou seja, uma comunidade de fé que caminha junto: autoridade eclesiástica e povo de Deus.

A ideia de sinodalidade fortaleceu a necessidade da reforma da Cúria Romana, do clero e da vida consagrada, para escutarem e discernirem juntos homens e mulheres do povo de Deus. A hierarquia eclesiástica não se justifica como unipessoal, absolutista e monárquica. Esta estrutura e modelo vão na contramão do pedido de Jesus de Nazaré a Pedro, de organizar a Igreja contando com a participação de homens e mulheres, do povo de Deus.

Em 3 de outubro de 2020, Francisco provoca outro impacto mundial, com a encíclica Fratelli Tutti. A encíclica convoca a humanidade inteira a viver a fraternidade e a amizade social. Todos devem sair em direção à pessoa caída, e alertou que as indiferenças e as diferenças entre religiões se tornam instrumentos de divisões culturais, políticas e sociais.

Em novembro de 2020, reuniu para um congresso em Roma jovens do mundo para debaterem sobre “economia solidária”. Os desafiou a pensar uma economia que promove a vida sem a destruição do planeta. Criticou o que ela chamava a “economia da indiferença” a “idolatria do dinheiro”, que provocam uma dupla crise: a ambiental e a da desigualdade social.

Em outubro de 2024, publica sua última encíclica Dilexit Nos (Amou-nos), que aprofunda o amor divino e humano de Jesus Cristo. Vendo que autoridades tiranas das nações recorrem a guerra, o Papa reafirma que somente o amor a Deus e ao próximo pode confirmar a paz entre pessoas, povos e nações. O critério para dirigir a relação entre as nações é da paz e da justiça social.

Com o coração e a fé em Cristo, e com os pés na realidade da vida, seu pontificado resistiu a todo movimento conservador na Igreja. Foi acusado de comunista e de herege, mas sabiamente se conduziu pela sua fidelidade a Jesus Cristo e seu Evangelho. Foi muito além do território da sacristia da Igreja Católica, fortaleceu o ecumenismo, o diálogo inter-religioso, aproximou o que séculos estava distante nas religiões e na política.

A parábola do bom samaritano (Lucas 10,25-37) e a vida de São Francisco de Assis, ilustram bem a pessoa do Papa Francisco. O amor, compaixão, cuidado com todos, com os últimos, com os imigrantes, com os diferentes, com a Mãe Terra, com a Igreja e com obra de Deus, foram a vida e a obra do Papa Francisco. Ele passou a passos largos a frente de seus antecessores.

Hoje, na vontade e na coragem de seu sucessor Papa Leão XIV e de nós, seu legado poderá estar a ensinar por longas décadas.

Sobre o autor

Miguel Debiasi

Frade da Província dos Capuchinhos do Rio Grande do Sul. Mestre em Filosofia (Universidade do Vale dos Sinos – São Leopoldo/RS). Mestre em Teologia (Pontifícia Universidade Católica do RS - PUC/RS). Doutor em Teologia (Faculdades EST – São Leopoldo/RS).

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