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Óscar, Valeria e a repetição de uma tragédia

Maria Clara Bingemer

           

            Há quatro anos, em 2015, chocou o mundo a foto de um menino. Aylan Kurdi, pequeno turco de três anos de idade.  Vestido com bermuda e camisa vermelha, seu corpo jazia de bruços sobre a areia da praia de Bodrum, na Turquia.  Aylan era mais uma vítima da violência no Oriente Médio.  Originário de uma cidade sob o domínio do Estado Islâmico e constantemente bombardeada, fugiu juntamente com sua família - pai, mãe e irmão mais velho - na esperança de poder viajar ao Canadá, a partir da Europa. A esperança foi brutalmente assassinada com o naufrágio que matou Aylan, seu irmão Galip e a mãe de ambos.

            Quatro anos depois, damos um salto da Europa sobre o Oceano Atlântico e terminamos nas águas do Rio Grande ou Rio Bravo, na fronteira do México com os Estados Unidos.  Novamente está presente a água, desta vez do rio.  A tragédia agora tem rosto de menina: Angie Valeria, salvadorenha de menos de dois anos de idade, cujo corpo foi encontrado abraçado ao do pai, Óscar, de 25 anos.

Na esperança de escapar à pobreza, à falta de oportunidades e à ausência de futuro, Óscar partiu rumo aos Estados Unidos com a mulher e a filha.  Desanimado diante da longa espera que suportava em Matamoros, no norte do México, até conseguir ser atendido pela Agencia de Aduanas y Protección Fronteriza, resolveu enfrentar as águas do rio. A correnteza arrastou pai e filha, e seus corpos foram encontrados no dia seguinte. De bruços, sobre a areia da margem do rio.  Abraçados. A pequena Valeria, dentro da camiseta de Óscar, pai e filha pareciam ser um só corpo.

A tragédia sucede em pleno recrudescimento da política migratória mexicana após o acordo com o governo de Donald Trump e expõe diante do mundo a situação limite que vivem os povos centro-americanos, em um contexto onde a injustiça e a violência são barreiras dificilmente transponíveis para aqueles que lutam para viver dignamente.

Até chegar a Matamoros, Óscar pretendia migrar legalmente. Ao entrar no México, recebeu com sua família um visto humanitário que lhes permitia residir legalmente no país, enquanto tramitavam os pedidos de asilo aos Estados Unidos.  Estava disposto a requisitar os papéis necessários e cruzar a fronteira quando estivesse quites com a justiça migratória. No entanto, foram informados que deviam inscrever-se em uma longa lista de espera para requisitar o asilo.

Nos últimos anos, durante a administração Trump, os Estados Unidos agregaram um grande número de restrições à sua já rígida política migratória.  Vigora um sistema de cotas diárias no número de pedidos de asilo por parte de migrantes que chegam à fronteira.  Isso gerou listas intermináveis de espera, que podem durar muitas semanas nas cidades fronteiriças, algumas delas perigosas e violentas.

A família de Óscar Martinez desesperou de esperar e resolveu lançar-se ao rio. Este – grande e bravo – sepultou em suas águas mutantes e agitadas o sonho de uma vida melhor, de um trabalho digno, de poder ter uma casa para residir em família. Sepultou a graça de viver, de estar vivos, da qual até então desfrutavam ambos. E os corpos abraçados do pai e da filha denunciaram, em alto e bom som, o absurdo que é o fato de seres humanos arriscarem suas vidas por não conseguirem receber a proteção internacional a que têm direito.

As mortes de Óscar e Valeria simbolizam o fracasso do qual a humanidade cada dia mais prova o sabor amargo.  Fracasso em encontrar alguma solução, mesmo parcial, para a violência e o desespero que empurram quantidades imensas de pessoas a empreender viagens muito perigosas em busca de segurança e dignidade. Fracasso em formular políticas migratórias mais humanas e mais respeitosas dos direitos humanos fundamentais à vida e à segurança.

O governo executivo de El Salvador expressou sua solidariedade aos parentes dos mortos.  Segundo declaração do mesmo, “ nenhum salvadorenho deveria ver-se na necessidade de deixar seu país por falta de oportunidades”. As vidas interrompidas de Óscar e Valeria – assim como a de Aylan Kurdi – habitam para sempre nossas retinas com suas chocantes imagens.  Oxalá possam habitar igualmente, de forma inquietante e interpelativa, nossas consciências.

 

Sobre o autor

Maria Clara Bingemer

É professora do departamento de teologia da PUC-Rio e decana do Centro de Teologia e Ciências Humanas da mesma universidade. Ela é graduada em Jornalismo, mestre em Teologia e doutora em Teologia Sistemática.

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