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O oitavo rei de Roma

Gislaine Marins

 

Quem já foi Falcão nunca perde a majestade. Nem o sotaque: gaúcho, bem gaúcho. Mais do que tudo, Falcão não perde a credibilidade. E não perde a elegância.

Ontem, a Argentina e a Inglaterra desceram ao ringue e presentearam o respeitável público com rasteiras, socos, caneladas, desencadeando aquela sensação de saudade de quando a gente perdia para a Itália com a melhor seleção desde a geração de Pelé e que, justamente por ser grande, valorizava ainda mais a vitória dos adversários.

A Fifa não quer que nesta Copa se fale de colonialismo, não quer que se fale de torcidas racistas, mas não é calando que o jogo melhora. A partida é memorável quando as pessoas são memoráveis.

Pergunte a qualquer italiano com mais de quarenta anos quem foi Sócrates, o inesquecível doutor e líder da democracia conrintiana, perguntem quem foi Zico, quem foi Cereso, quem foi Falcão. Eles sabem tudo e dessa turma, Falcão continua a ser convidado especial, comentando não apenas as táticas de jogo, mas a agressividade que - felizmente - ainda espanta.

De repente, no segundo tempo, parece que jogaram futebol. Tanto é que a Inglaterra marcou um gol e a Argentina virou o jogo nos últimos segundos da partida. Parece que os jogadores argentinos que garantiram a vitória tinham aquelas feições que nos lembram das origens indígenas do nosso continente, apesar do nome italiano e do sobrenome espanhol. São as misturas que enriquecem a nossa terra. A torcida vibrou sem fazer coreografia de macaquinho. Aliás, penso comigo: quem faz macaquice, mais palhaço se parece. Vergonha alheia que chama. Parece também que o time argentino abriu uma faixa reivindicando as ilhas historicamente disputadas com o adversário. A Fifa não pode conter rancores antigos e interesses futuros nessa era de mudanças climáticas e geopolíticas.

No fim de tudo, parece que houve um pouco de tudo: a rivalidade, a violência, os preconceitos, o orgulho, o colonialismo, a paixão e até a bola no pé entraram em campo. A Fifa não pode controlar nada. Enquanto isso, na tela da TV, Falcão ponderava com o seu italiano impecável, a sua reputação esportiva e o seu sotaque gaúcho, de quem sabe de onde veio, o que representa e o que evoca no coração dos torcedores do Roma, para quem será eternamente rei.

E nós, migrantes nesse mundo injusto, também somos um pouco gratos a Falcão, que graças ao carisma e à simpatia conquistada, nos transforma por assimilação em pessoas que partilham um pouco da sua grandeza.

Sobre o autor

Gislaine Marins

Doutora em Letras, tradutora, professora e mãe. Autora de verbetes para o Pequeno Dicionário de Literatura do Rio Grande do Sul (Ed. Novo Século) e para o Dicionário de Figuras e Mitos Literários das Américas (Editora da Universidade/Tomo Editorial). É autora do blog Palavras Debulhadas, dedicado à divulgação da língua portuguesa.

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