No ataque, uma bandeira que avança
Ao chamar o Papa Leão XIV de “fraco” e “terrível” em política externa, Trump não realiza um ato explosivo isolado, mas uma ação calculada com apoio de setores específicos. Essa postura se alimenta de um discurso bélico oriundo de pretensas batalhas espirituais, endossado por um grupo de religiosos conservadores dos EUA que confronta diretamente a postura da Igreja pós-Concílio Vaticano II.
Os ataques verbais de Donald Trump ao Papa Leão XIV consolidam uma escala de tensão que já dura uma década, iniciada no pontificado de Francisco. O que se torna evidente é que a postura de Trump reflete uma estratégia de deslegitimar o Vaticano em resposta à firme oposição do Papa à guerra no Irã. Apoiado por grupos religiosos conservadores dos EUA, Trump tenta impor uma pauta política de extrema-direita à Doutrina Social da Igreja, transformando o diálogo religioso em um confronto geopolítico direto.
O movimento MAGA - Make America Great Again, ou “Torne a América grande novamente”, é a base de apoio de Donald Trump. Adotando pautas morais como a agenda antiaborto, este setor conservador rejeita a eclesiologia conciliar, considerando-a um desvio doutrinário, uma ameaça “woke” ou à tradição e à fé católica.
O termo “woke” é instrumentalizado por este setor conservador como um rótulo pejorativo para criticar pautas progressistas, frequentemente equiparando-as a uma imposição autoritária de identitarismo, políticas de diversidade e linguagem neutra. Sob essa ótica, a agenda woke é percebida como a base da “cultura do cancelamento”, vista como uma tentativa de demonizar oponentes políticos e de estabelecer uma suposta superioridade moral que silencia vozes dissonantes.
Surgido com a candidatura de Donald Trump em 2016, o MAGA foca no nacionalismo e na antiglobalização, buscando alterar o rumo político e cultural do país, mobilizando principalmente a classe trabalhadora branca que se sente prejudicada pela globalização e pelas mudanças sociais. Identificados pelo icônico boné vermelho, os apoiadores demonstram lealdade extrema a Trump. Este movimento transformou o Partido Republicano, consolidando uma agenda baseada no conservadorismo cultural e no antagonismo a opositores políticos e a programas de inclusão.
O lema “Torne a América Grande Novamente”, sintetiza a crença de que os EUA perderam seu status e precisam retornar a um suposto período de domínio, adotando uma postura isolacionista que prioriza os interesses nacionais em detrimento de alianças globais. O movimento defende o controle rígido das fronteiras, simbolizado pela construção do muro com o México e com a deportação em massa, e adota o protecionismo econômico, com tarifas de importação e reindustrialização. Essa agenda é sustentada pela imagem de Trump como um outsider antissistema, que combate a corrupção e as elites tradicionais.
Nesse contexto de priorização nacionalista, Trump utiliza o cristianismo conservador não como crença pessoal, mas como linguagem de poder e ferramenta reacionária. A agressividade com que ataca autoridades religiosas, como o Papa Leão XIV, reflete a rejeição de pautas progressistas, e da ação religiosa do Vaticano na busca por solidariedade internacional, que confronta seu programa de deportação em massa, exclusão social e culto à força militar. Esse confronto religioso serve para legitimar sua imagem de líder forte que não se curva a hierarquias tradicionais, nem mesmo às do Vaticano, posicionando-se como verdadeiro defensor dos valores cristãos.
Esses ataques remontam a uma década, quando, o Papa Francisco criticou o capitalismo predatório em sua primeira exortação apostólica, a Evangelii Gaudium. Na ocasião, a reação da direita conservadora norte-americana foi imediata, com o influente comentarista Rush Limbaugh rotulando o texto como “marxismo puro” vindo do pontífice. Ao colocar a pobreza, a desigualdade, a imigração, a degradação do meio ambiente e a crítica à lógica de mercado no centro da doutrina cristã, Francisco gerou oposição não apenas de setores do clero, mas de leigos conservadores alinhados ao movimento MAGA, que, em 2019, iniciaram ataques mais sistemáticos.
Em reação a essa crescente oposição, o Papa Francisco afirmou, em 2013, que parte do catolicismo norte-americano estava “reacionário e capturado pela ideologia”. A contrarreação foi agressiva por parte do núcleo do MAGA, formado por uma coalizão de católicos nacionalistas, figuras midiáticas e militantes de extrema direita. Esse grupo busca blindar a identidade cristã conservadora da agenda social do Vaticano, posicionando o nacionalismo trumpista como a verdadeira defesa da fé, em contrapartida ao que chamam de globalismo do Papa.
Essa ofensiva ideológica, contudo, encontra resistência na voz profética de lideranças cristãs, que insistem na mensagem de justiça social e inclusão humana. Um exemplo contundente ocorreu em 21 de janeiro de 2025, durante o culto de posse na Catedral Nacional de Washington. Com Donald Trump na primeira fileira, a bispa Mariann Edgar Budde, da Igreja Episcopal, proferiu um sermão corajoso, pedindo misericórdia para imigrantes e para a população LGBTQIA+, além de clamar pelo abandono do discurso bélico. Em reação, Trump a rotulou de “radical de esquerda” e exigiu um pedido de desculpas, que, fiel à postura profética, não se concretizou.
Essa postura profética ecoa em outras instâncias, provocando reações ferozes da ultradireita católica norte-americana. A influente ativista do MAGA, Laura Loomer, chegou a rotular o Papa Leão XIV, como “anti-Trump, anti-MAGA, favorável à imigração e marxista”, demonstrando a colisão entre doutrina social e o nacionalismo cristão. Reforçando essa ofensiva ideológica, Steven Bannon, estrategista de Trump, classificou a postura da hierarquia católica moderada como “indesejada” evidenciando a tentativa de instrumentalizar a fé para fins políticos.
O Papa Leão XIV, agindo com a sabedoria de quem promove a paz e a solidariedade global, reconhece que a perseguição ideológica movida pela extrema-direita é a confirmação de sua missão. O confronto é inevitável, como havia alertado Jesus a seus discípulos (João 15,18-20). Sem temer, o Papa Leão manifesta-se corajoso, enquanto o projeto nacionalista trumpista busca instrumetalizar a fé para fins políticos e militares, e a postura profética do Vaticano se firma mundialmente na defesa da paz, da justiça social e da inclusão humana global.
Leão sabe que o Evangelho, quando vivido em plenitude, sempre confrontará autoridades e políticas nacionalistas sem princípios éticos e globais. Sua postura firme em defesa dos valores do Evangelho ameaça qualquer projeto baseado na guerra e na divisão étnica e religiosa.
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