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“Imbecis, idiotas e inúteis”

Miguel Debiasi

 

Jesus ensina seus discípulos no alto da montanha: “todo aquele que fica com raiva do seu irmão, se torna réu perante o tribunal. Quem diz ao seu irmão: imbecil, se torna réu perante o Sinédrio; quem chama o irmão de idiota, merece fogo do inferno” (Mateus 5,22).

Compreender o ensinamento de Jesus dado aos discípulos ajuda a entender a situação da humilhação e do desprezo aos professores, alunos, profissionais da educação, pesquisadores, cientistas e a comunidade escolar e acadêmica do Brasil que foram tachados de “imbecis e idiotas úteis”. É importante observar que o evangelista Mateus emprega o vocabulário grego moros que significa “doido”, “louco”, “insensato”, “idiota”. O evangelista Lucas (12,20) e São Paulo apóstolo (1Coríntios 15,36), usam o vocabulário grego afron que significa “estúpido”, “ignorante”.

No texto de Mateus, Jesus está ensinando aos discípulos a buscarem inspiração para a justiça e a misericórdia que vem de Deus a fim de que todas as pessoas construam relações fraternas e superem a observância das leis que cria escravidões. Então, o que ensina Jesus em Mateus é a nova justiça, superior à antiga, prática que pela pura observância da lei significa dominação do ser humano. É nesse sentido que em Mateus (5,21-48) encontra-se o ensinamento de Jesus que supera este sistema de dominação, escravidão, quando diz: “Ouviste o que foi dito... Eu, porém vos digo...”. No caso concreto daquele que chamar o seu irmão de “imbecil”, “idiota”, “inútil”, alguns exegetas dizem que há uma conotação do ambiente judaico referindo-se ao comportamento de impiedade em relação à religião (Deuteronômio 32,6). Isto é, a ofensa ao inocente. É isto que Jesus alerta aos seus discípulos e seguidores para não incorrerem na ofensa a um justo, inocente.

Quanto ao caso do Presidente da República Jair Bolsonaro ter chamado de “imbecis, idiotas úteis” manifesta a intenção de não ensinamento à população. Mas, é puramente ofensivo, desprezível, odioso, repugnante e de provocação para acirramento das relações entre governo e sociedade civil. O cargo de presidente da república proíbe a linguagem deste nível, ao ponto que isto pode gerar um processo de cassação do mandato por quebra de decoro parlamentar. Chamar de “imbecis e idiotas úteis” ofendeu não somente aos professores, alunos, pesquisadores, cientistas, profissionais da área da educação, pesquisa, inovação, mas a nação inteira. Neste caso, sua fala urge no horizonte de julgamento público.

Aliás, esse tratamento do presidente da república com as categorias acima citadas não é um fato isolado, nenhuma exceção, mas uma regra de seu comportamento e de seu governo. Nele e nos seus ministros é visível o desprezo pela educação, pelos alunos, professores, cientistas, pesquisadores e profissionais. A raiz do desprezo está intrínseca ao nível cultural do presidente, incapaz de compreender que todos os avanços da humanidade vieram de qualificação, educação e ensino de qualidade. Prova disto é sua escolha dos ministros da educação, a iniciar pelo abominável Ricardo Vélez Rodriguez de pensamento abissal. Ademais, pela nomeação de Abraham Weintraub, substituto de Vélez Rodriguez, que prega a morte dos comunistas, socialistas e sem escrúpulo reduz 50% dos recursos para educação.

Em contrapartida à desastrosa política de desprezo pela educação, o governo de Jair Bolsonaro jamais esquecerá da contundente resposta da sociedade brasileira que levou dois milhões de estudantes, professores, profissionais, cientistas e pesquisadores às ruas em sinal de repúdio. O dia 15 de maio estará na memória dos que protestavam como feito histórico por um Brasil melhor que passa pela educação e ensino de qualidade. Como se não bastasse os protestos públicos do povo brasileiro, ficará na memória do presidente que intelectuais de renomadas universidades do mundo, como Harvard, Princeton, Sorbonne, entre outras, publicaram manifesto acadêmico de repúdio ao governo brasileiro “como inimigo da educação”. Pior, o “imbecil, idiota e útil”, tem lado e posição social bem definida nesta triste página do Brasil.

 

Sobre o autor

Miguel Debiasi

Frei capuchinho. Atualmente é pároco da Paróquia Cristo Rei, de Marau, RS, e Conselheiro do Governo Provincial, eleito no dia 04 de setembro de 2014. Mestre em Filosofia e Teologia.Autor do livro Teologia da Tolerância – um novo modus vivendi cristã, publicado em 2015, pela ESTEF, Escola de Espiritualidade e Teologia Franciscana. Também escreve artigos e crônicas.

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