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Extraterritorialidade no Planeta

Miguel Debiasi

As duas primeiras décadas do século XXI foram impulsionadas pelo ritmo dos avanços das tecnologias. O acesso às novas tecnologias, como a da informática, trouxe enormes benefícios ao ser humano. Benefícios como o da conexão com o mundo, acesso às informações, ao conhecimento, etc. O acesso à tecnologia fortaleceu o mundo intangível, porém, nota-se o aumento da solidão, da depressão, do estresse, da dependência virtual, etc. Por conseguinte, estes sintomas assombram as pessoas em relação à vida e ao futuro.

Em sua exortação apostólica Evangelii Gaudium, a Alegria do Evangelho, o papa Francisco apresenta uma profunda reflexão sobre a vida contemporânea. O pontífice diz que a humanidade vive “uma viragem histórica”. Por um lado, verificam-se em vários campos progressos que são muito louváveis. Por outro lado, constatam-se consequências como medo, desespero, incertezas, situações de risco, de premonições em relação ao futuro. Com isso, para a maioria das pessoas a alegria de viver desvanece em muito e causa dores e sofrimentos.

A insegurança em relação à vida e ao futuro estão relacionados ao projeto de modernidade e ao mundo da subjetividade. O espírito moderno ao supervalorizar a liberdade dos indivíduos afetou a identidade das pessoas, sentimentos e projetos de vida. Tal modernidade produziu a cultura da individualidade, da satisfação do ego, do egoísmo e do desejo. Por conseguinte, a geração da subjetividade e da individualidade perdeu o sentido e a relação com o outro e com a comunidade.

Segundo Zygmunt Bauman, sociólogo e filósofo polonês (1925-2017), o mundo vive “a secessão dos bem-sucedidos”. Há dois mundos separados: o dos bem-sucedidos e o das massas, dos empobrecidos. Para o autor, os bem-sucedidos vivem um novo mundo do “distanciamento, indiferença, desengajamento, da extraterritorialidade mental e moral”. A estes, o que importa é ficarem sós, distante das pessoas de vida comum. Almejam viver sem a interferência da causa comum, da irrelevância das fronteiras, da comunidade, dos laços sociais. O único mundo habitado por eles é o da comunidade cercada e eletronicamente controlada. Privilegiados pelo dinheiro, pelo poder, pela distância e livres de qualquer intruso. A palavra eficaz é exclusividade.

Este estilo de vida para além da territorialidade da comunidade sustenta-se pelo acesso aos avanços da tecnologia. Como tal, o importante para o indivíduo é estar no mundo, mediante ter sua individualidade não problematizada por questões e práticas socialmente compartilhadas em comunidade.

Para o trabalho eclesial, esta realidade implica reconhecer a autonomia das pessoas que buscam estar livres da família, da religião, da comunidade. Neste sentido, a Igreja precisa refletir sobre como superar a falta de compromisso dos cristãos com a comunidade. Logo, a vida na extraterritorialidade para um homem secular é compreensível. Mas, para o cristão, enfraquece a fé em Cristo e consequentemente seu testemunho e a ação missionária da Igreja.

 

Sobre o autor

Miguel Debiasi

Frei capuchinho. Atualmente é pároco da Paróquia Cristo Rei, de Marau, RS, e Conselheiro do Governo Provincial, eleito no dia 04 de setembro de 2014. Mestre em Filosofia e Teologia.Autor do livro Teologia da Tolerância – um novo modus vivendi cristã, publicado em 2015, pela ESTEF, Escola de Espiritualidade e Teologia Franciscana. Também escreve artigos e crônicas.

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