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A pós-verdade e o verdadeiro Messias

Vanildo Luis Zugno

 

Todos os anos, o Dicionário Oxford escolhe “a palavra do ano”. Em 2016, a premiada foi “pós-verdade” (post-truth, em inglês). Não é uma palavra nova. Ela foi utilizada pela primeira vez no ano de 1992. Ao comentar a Guerra do Golfo para o The Nation, o jornalista Stive Tsich dizia que “nós britânicos, como povo livre, decidimos livremente que queremos viver em uma espécie de mundo da pós-verdade”.

Como os mais velhos lembramos, o fator decisivo para que os Estados Unidos, secundado primeiramente pelo Reino Unido e, em menor escala mas não com menos importância, pela União Europeia, invadissem e destruíssem o Iraque, foi a suposta posse, por parte de Saddam Hussein, de armas nucleares e químicas.

Membros de corpos diplomáticos de diversos países, especialistas em informações militares, jornalistas e o próprio governo iraquiano sabiam que tais armas não existiam. Mas a guerra foi feita, Saddam Hussein foi deposto, caçado e morto, o Iraque destruído e até hoje a região continua sendo um foco de instabilidade mundial.

Não foi a primeira vez que uma mentira foi usada para justificar uma guerra. Quase todas o são... Mas foi a cobertura dos jornalistas da CNN incorporados (embedded) às tropas americanas que garantiu o suporte de verdade informativa àquilo que nada mais era que uma mentira seletiva.

De lá para cá e com o advento das redes sociais, o fenômeno se ampliou em proporções gigantescas. Vivemos um mundo em que a verdade não é mais importante. O mundo da política é onde esta característica aflora de modo mais gritante. A capacidade de produzir mentiras na medida do gosto do público-alvo tornou-se a principal ferramenta para vitórias eleitorais. Não importa se algo é verdadeiro. Importa que afirme o que eu gostaria que fosse a verdade.

A expressão mais popular do fenômeno são as fake news que, infelizmente, ultrapassam o âmbito da política e chegam à ciência, à religião e ao cotidiano. No mundo da pós-verdade há pessoas que afirmam que a terra é plana, que não existe o aquecimento global, que as ONGs incendiaram a Amazônia, que o Papa Francisco é o anti-cristo, que as universidades públicas cultivam maconha em grande quantidade e que as vacinas fazem parte do plano comunista para dominar o mundo. A lista é infinita e absurda. Mas está aí!

Como evitar tudo isso? Na própria internet encontramos dicas úteis para identificar as fake news. Vale a pena conferir. É uma questão de saúde mental e social.

De nossa parte, queremos apenas recomendar uma dica dada por Jesus. Ele recém havia começado sua missão. João Batista estava preso. E o falatório sobre os dois percorria a Judeia e a Galileia. João, ouvindo falar de Jesus, ficou preocupado. Era verdade ou mentira aquilo que falavam a respeito dele? Jesus havia sido seu discípulo. Era seu conhecido. Mas, em tempos de fake news, não se pode confiar em ninguém! E João mandou perguntar a Jesus: “És tu o Messias que há de vir ou devemos esperar outro?”

Jesus respondeu remetendo à sua prática: “os cegos recuperam a vista, os paralíticos andam, os leprosos são curados, os surdos ouvem, os mortos ressuscitam e os pobres são evangelizados.” O critério é claro: para ser verdadeiro, não basta ser dito. O que valia para Jesus, vale para o mundo da pós-verdade. É preciso voltar ao critério da prática, da ação, da transformação da dor e do sofrimento dos doentes e dos pobres em alegria pela chegada do Reino de Deus.

Na sua ação está a verdade do Messias nascido de Maria na manjedoura de Belém em meio aos pastores do campo. Ele não foi notícia porque sua verdade não interessava aos poderosos de seu tempo. Mas ele foi e continua sendo Vida e Esperança para os sofredores deste mundo.

Sobre o autor

Vanildo Luis Zugno

Frei capuchinho. Graduado em Filosofia (UCPEL – Pelotas) e Teologia (ESTEF – Porto Alegre), mestre em Teologia (Université Catholique de Lyon – França), é professor de Teologia na ESTEF e no UNILASALLE (Canoas) e doutor em Teologia na EST (São Leopoldo).

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