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A casa: espaço da vivência do Evangelho

Miguel Debiasi

As últimas palavras de Jesus ressuscitado aos seus discípulos foram: “Ide por todo o mundo, proclamai o Evangelho a toda criatura. Aquele que crer e for batizado será salvo; o que não crer será condenado” (Marcos 16,15). O ensinamento do Evangelho foi e continua sendo a tarefa da Igreja. Hoje a Igreja pergunta pelos melhores espaços para acolhida da mensagem do Evangelho. A casa é um deles.

Até o século IV do cristianismo o espaço da acolhida e do ensinamento do Evangelho era a casa. São muitos os escritos neotestamentários a respeito da Igreja primitiva que se reunia nas casas: “Quanto a Saulo, devastava a Igreja: entrando pelas casas, arrancava homens e mulheres e metia-os na prisão” (Atos dos Apóstolos 8,3); “dando-se conta da situação, dirigiu-se à casa de Maria, a mãe de João, o que tem o cognome de Marcos. Ali se encontravam muitos, reunidos em oração” (Atos dos Apóstolos 12,12). A matriz do anúncio e da vivência do Evangelho foi na domus Ecclesiae, chamada de Igreja doméstica. Porém, devido às circunstâncias históricas do século IV, como a liberdade de culto, e pelo crescente número de cristãos, a organização da Igreja domus Ecclesiae sofreu profunda transformação.

Então, a domus Ecclesiae ou a Igreja doméstica passou a ser modificada com a criação e instalação da diocese e posteriormente da paróquia. Contudo, em Paulo a palavra Igreja (ekklesía) vem do verbo grego kalein que significa chamar, convocar. Na origem, o termo ekklesia significava “curral” ou “abrigo de ovelhas” que são cuidadas pelos pastores. A palavra Igreja, originada de ekklesia, é composta de dois radicais gregos: ek, que significa para fora, e klesia, que significa chamados. Logo, a Igreja e os cristãos são chamados para fora do mundo, mas ao mesmo tempo enviados ao mundo a fim de levar a boa nova do Evangelho de Cristo aos que estão no mundo.

Porém, durante o percurso histórico a Igreja fez o caminho inverso, aquele que recebeu o batismo foi “chamado para dentro”, convidado a deixar o mundo para ser irmão ou membro de um espaço santo. Contudo, Jesus mostra um caminho inverso ao indicar a prospectiva da ação da Igreja: direcionar sua atuação para os que estão fora do aprisco, do templo: os perdidos, excluídos, sedentos da justiça de Deus (João 10,7-9; Marcos 13,1-2; Mateus 10,11-12).

A ekklesia ou Igreja significa lugar de reuniões dos cristãos, e no início estava associada à casa em que as pessoas cristãs se reuniam e nas quais celebravam sua fé e pertença mútua. No Novo Testamento, a rigor a palavra ekklesia é assembleia do povo. A “ekklesía” é uma reunião de pessoas que foram convocadas e chamadas por Cristo. A reunião nas casas prova que os cristãos foram convocados e que responderam a esta convocação feita por Cristo através de suas testemunhas. Desse modo, a Igreja da casa é um acontecimento que nunca perdeu a ligação com aquele que convoca. Ainda que o cristianismo ganhasse presença universalista, o teólogo Ney de Souza, padre na Arquidiocese de São Paulo, considera que ele é ao mesmo tempo doméstico.

Então, a Igreja é uma reunião de pessoas convocadas por Cristo e neste sentido gera uma continuidade e atualidade. A Igreja do Novo Testamento é formada por pessoas que se reúnem e a razão de sua reunião está em atender à convocação de Cristo. No decorrer da história a Igreja se institucionalizou, mas a instituição não é o centro, como testemunha o maior missionário do cristianismo, Paulo: “Saudai Prisca e Áquila, meus colaboradores em Cristo Jesus... Saudai também a Igreja que se reúne em sua casa” (Romanos 16,3-5).

O papa Francisco em sua exortação apostólica Amoris Letitia ou amor na família, diz que “experimentar o evangelho da família é alegria que enche o coração e a vida inteira” (n. 200). Embora a sociedade moderna faça o movimento pela autonomia das pessoas, as famílias cristãs, pela graça do sacramento matrimonial, se tornam sujeitas à vivência do Evangelho no espaço familiar, a exemplo da Igreja doméstica ou dos primeiros cristãos. Então, a casa é o primeiro e fundamental espaço para a experiência e o ensinamento cristão do Evangelho.

Sobre o autor

Miguel Debiasi

Frei capuchinho. Atualmente é pároco da Paróquia Cristo Rei, de Marau, RS, e Conselheiro do Governo Provincial, eleito no dia 04 de setembro de 2014. Mestre em Filosofia e Teologia.Autor do livro Teologia da Tolerância – um novo modus vivendi cristã, publicado em 2015, pela ESTEF, Escola de Espiritualidade e Teologia Franciscana. Também escreve artigos e crônicas.

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