Município de Caxias do Sul propõe acordo de R$ 395 milhões para encerrar disputa histórica com Magnabosco
Após décadas de processo, prefeitura oferece parcelamento em 11 anos com deságio de honorários
Em coletiva de imprensa realizada no final da manhã desta sexta-feira (11), na Prefeitura de Caxias do Sul, o procurador-geral do município, Adriano Tacca, apresentou os detalhes do novo acordo proposto para encerrar o histórico Caso Magnabosco. A proposta, construída ao longo de mais de três anos de negociações, representa uma tentativa de solucionar definitivamente um litígio que já se arrasta há mais de meio século e que pode impactar profundamente as finanças municipais.
O caso Magnabosco, segundo Tacca, possui raízes profundas: a indenização remonta a 1969, enquanto o impacto jurídico e administrativo permanece desde a década de 1950, o que equivale a um terço da existência dos 135 anos do município .
Valores envolvidos: da ameaça de R$ 1 bilhão à proposta de R$ 395 milhões
O município enfrenta hoje um precatório escrito e exigível de aproximadamente R$ 600 milhões, suspenso por liminar do Supremo Tribunal Federal (STF). A proposta de acordo é significativamente inferior ao total atual, correspondendo a cerca de dois terços do valor exigido. O acordo contempla:
- R$ 395.814.188,52 para quitar a principal indenização;
- Parcelamento em 11 anos (132 parcelas), com mensalidades de R$ 2.998.592,33;
- Honorários advocatícios acordados em cerca de R$ 449.788,84, com desconto de quase 50% sobre os R$ 108 milhões estimados como devidos.
- Parcelamento destes honorários também em 11 anos.
Na comparação, sem acordo, o município poderia enfrentar custo superior a R$ 1 bilhão, entre precatório e créditos controversos pleiteados pelos herdeiros, estimados em cerca de outros R$ 600 milhões.
Dobradinha jurídica: acordo extingue litígio
Tacca garantiu que, com a homologação do acordo, cessarão todos os pedidos da família ou advogados envolvidos no processo Magnabosco. A proposta inclui quitação de todos os herdeiros e advogados, encerrando definitivamente a pendência.
Comparativo com regime de precatórios
Sem o acordo, o município enfrentaria dificuldades para pagar os R$ 600 milhões ainda inscritos, pois não dispõe de fluxo anual suficiente. A alternativa seria ingressar com pedido especial de pagamento ao Tribunal de Justiça, lotando-se ao regime de até 15% à vista e o saldo pago em até cinco anos, ou seja, R$ 90 milhões à vista e parcelamento, o que seria mais oneroso que a proposta de acordo.
Próximos passos: tramitação e homologação
O projeto de lei para autorizar a adesão ao acordo deverá ser enviado à Câmara de Vereadores na próxima semana. Se aprovado, o município solicitará audiência ao STF, após a qual será aberto prazo para vista ao Ministério Público e à Procuradoria-Geral da República, culminando na homologação e assinatura. A previsão é de que o pagamento inicial ocorra somente a partir de 2026.
Impacto financeiro e político
- Orçamento municipal: A proposta, ainda que volumosa, é considerada mais viável que o risco de um precatório integral, e pode liberar espaço no orçamento para políticas públicas e investimentos.
- Deságio significativo: O município obteve vantagem econômica tanto na indenização principal quanto nos honorários, gerando um “deságio” de cerca de R$ 200 milhões em relação aos valores controversos.
- Trâmite político: O rumo agora dependerá da análise técnica da Câmara de Vereadores, que terá acesso a 1.000 páginas de documentos, incluindo minutas, planilhas e estudos.
Entenda o caso Magnabosco
O Caso Magnabosco é uma das disputas judiciais mais emblemáticas da história de Caxias do Sul. Iniciado na década de 1960, o litígio teve origem na doação de um terreno de 57 mil metros quadrados pela família Magnabosco à Universidade de Caxias do Sul (UCS), que acabou não utilizando a área para a finalidade prevista.
Com o tempo, o espaço foi ocupado por moradores e deu origem ao bairro Primeiro de Maio, com apoio de infraestrutura do poder público. Desde então, a família busca indenização na Justiça, e a Prefeitura foi responsabilizada por supostamente colaborar com a ocupação.
O processo, que já dura mais de meio século, acumula valores que ultrapassam R$ 1 bilhão em discussão. Em meio a esse cenário, o Supremo Tribunal Federal (STF) suspendeu a exigência de pagamento do precatório, e o Município, junto aos credores — um fundo de investimentos que adquiriu os direitos da dívida —, formalizou uma proposta de acordo que ainda depende de aval da Câmara de Vereadores e posterior homologação pelo STF.
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