Morre o comunicador Moacir Tosin
A Fundação Cultural da Serra com pesar informa que faleceu Moacir Tosin, 63 anos, que por muitos anos atuou como comunicador da Rádio Garibaldi. Ele lutava há anos contra um câncer.
Seu corpo está sendo velado na Sala A do Memorial Caravaggio, onde nesta terça-feira, 8/2 será celebrada cerimônia de despedida com posterior sepultamento no Cemitério Público Municipal de Garibaldi. Ele deixa a esposa Cleide Teresinha Cagliari Tosin e os filhos Roberta, Márcio, Maurício e Manoela.
"Dia triste para Garibaldi. Adeus Moacir Tosin! Homem de caráter, bondade, respeito, responsabilidade, honestidade e pureza. Deixa um legado na história radiofônica e história da Rádio Difusora Garibaldi", destaca a ex-colega Anete Possamai Tosin.
A Rádio Garibaldi manifesta solidariedade à família de Moacir Tosin.
Confira a entrevista com Moacir Tosin, realizada em 12/05/12, em Garibaldi, pela jornalista Daniela Fanti, por ocasião de seu trabalho de conclusão do curso de Jornalismo da Unisinos.
Quando o senhor entrou na rádio?
Foi em 1974. Eu tinha um programa das 11h às 11h50min, que era Escalada do Sucesso. Então a gente colocava oito músicas que, pelo que a gente ouvia nas outras emissoras, pelas cartas e telefonemas, eram as preferidas. As dificuldades para conseguir disco na época eram grandes. Então o sucesso chegava aqui na nossa rádio quando já estava quase no fim. Eu me lembro em 1974 estava estourando a música Guita do Raul Seixas. Essa música estava explodindo já no fim de 73, só que nós conseguimos a música em outubro ou novembro de 74.
As gravadoras não mandavam nada?
As gravadoras costumavam mandar para as emissoras grandes, e não nós que éramos pequenos e de interior. Nós tínhamos que comprar, mas não tinha nenhuma discoteca em Garibaldi. Tinha que ir pra Bento ou Caxias. Então quando o Dalmáz ia pra Bento vender comercial, a gente dava uma relação de músicas e discos pra ele comprar. E ele procurava comprar compacto, que era mais barato do que long play. Na verdade, quem faz o sucesso não é o povo, é a rádio. As ligações telefônicas também eram um caos. Se tu recebias uma ligação de Bento, tinha que rezar pra que não estivesse chovendo, porque era um chiado, tinha que gritar. O número de telefone da rádio era 42. Nunca esqueço. Se eu quisesse fazer uma ligação, tirava o telefone do gancho, era pesado, e pedia para a telefonista uma ligação pra Bento Gonçalves, por exemplo. Aí desligava, e esperava. Podia ser que vinha de tarde, no dia seguinte, era assim. Se era emergência, podia morrer. Pra gravar por telefone, então, era impossível. Aí quando entrou o DDD, acho que foi em 1976, por aí, tu discavas o telefone e ia direto. Para nós, estávamos no céu. Então trocamos por uns dois anos o programa “Escalada do Sucesso” para “Colocação do Sucesso”. Ao invés de oito músicas, eram só cinco. Então eu ligava para a Rádio Bento, de Bento, a Rádio São Francisco de Caxias do Sul, a Veranense de Veranópolis e a Miriam de Farroupilha. Eram essas quatro emissoras e mais a nossa. Nós formávamos as 5 músicas mais pedidas. Na segunda-feira, eu ligava pra Rádio São Francisco e quem em atendia lá era o Nicanor Portela. Então eu pedia pra ele relacionar cinco músicas principais da semana e gravava. Por exemplo: “aqui, em quinto lugar, em Caxias do Sul, a mais pedida pelos nossos ouvintes e mais rodada na nossa emissora é a música Odair José. Em quarto lugar, tal música”. Cada música fazia uma pequena menção. Eu gravava no gravador e depois montava cada dia. Era uma trabalheira. E eu fazia isso com todas as emissoras. Na segunda-feira eu botava o quinto lugar em Farroupilha, o quarto lugar em Bento, o terceiro lugar em Veranópolis, segundo em Caxias e primeiro em Garibaldi. Na terça-feira eu invertia, trocava. E o problema todo não era gravar, mas a qualidade da gravação. De vez em quando, em Caxias era um chiadeira, falava e não se ouvia nada. Aí eu dizia: “Olha Nicanor, infelizmente nós vamos ter que fazer tudo de novo”. E eles faziam de graça, só pra colaborar com a gente. Era uma perda de tempo que vou te contar. Aí vinha uma ligação de Daltro Filho com uma nota de falecimento. Tinha nomes em alemão e tinha que adivinhar a pronuncia. Aí tu divulgava no ar e estava errado. Eles ligavam bravos.
Como era pra conseguir informações e notícias?
Nós tínhamos que ir na Delegacia de Polícia, na Prefeitura, porque não tinha assessor de imprensa que nem hoje. Anotava e depois tinha que redigir tudo na máquina. E se tirava muita coisa dos jornais. Nós até chamava de Gilete Press, porque pegava a gilete e cortava as notícias do jornal e colava numa folha. Era assim que se fazia. O Correio do Povo nós pegávamos bastante. Tinha também Folha da Manhã e Folha da Tarde. O bom da rádio é o imediatismo. Botou no ar, está todo mundo sabendo.
Que músicas o senhor lembra que mais tocavam no Escalada do Sucesso ou Colocação do Sucesso?
Vanderlei Cardoso, música “Minha Namorada”. Tim Maia, música “Gostava Tanto de Você”, essa ficou anos tocando. Roberto Carlos, música “Proposta”. Antônio Marcos, música “Meu Segredo”. The Fevers, música “Querida”. Raul Seixas, com a música “Guita”. E várias outras.
E música gauchesca, tradicionalista, tocavam?
Tinha um programa de manhã cedo, logo que abria, das 6h até às 7h30min.
O final de semana se trabalhava direto?
No domingo só ficavam três locutores. Um das 6h às 12h, outro das 12h às 18h e o outro das 18h às 23h. Fiquei anos sem ter final de semana. Começou a ter umas folgas quando o Sindicato começou a regularizar a profissão. Porque nós fazíamos de tudo. Fazia locução, locução noticiarista, locução comercial, locutor apresentador, locutor animador, apresentador de programa de auditório, por causa do Sábado Alegre.
O que era o Sábado Alegre?
O Sábado Alegre fui eu que comecei apresentando. Começou na União de Moços Católicos. Depois foi lá par o Rex Pópuli. Mas nós apresentamos também na UGE – União Garibaldense de Estudantes, no Clube de Tiro Caça e Pesca. Isso já era nos anos 80. Era das 15h às 17h. Só que os caras da Rádio Bento nos criticavam que a gente colocava de tudo, porque eles tinham um programa de música gauchesca no sábado também, mas de manhã. Tanto que era apresentado do CTG Laço Velho. Mas eu falava até no ar que o nosso objetivo era dar oportunidade para o povo falar como ele sabia falar e cantar o que sabia cantar. Se era para ter profissionalismo, nós teríamos contratado um conjunto. Era amador, mesmo. Tinha músicas, trovas, poesias também. O povo vinha com gaita, violão, de tudo.
Tinha público, pessoas que iam assistir pessoalmente ou ouviam só pela rádio?
Tinha, sim. De vem em quando lotava. E o Frei Nicolau sempre falava que a rádio é a voz dos que não tem voz.
Fazia transmissões esportivas?
Sim, tinha os jogos do Guarany e no futsal a Associação Garibaldense de Esportes, que agora é AGEL.
A primeira transmissão do futsal foi nessa época?
Sim. A nossa primeira transmissão de futsal foi da ACBF em Carlos Barbosa. Fomos eu, o Benito e o Dalmáz e transmitimos do Ginásio Santa Rosa, porque Barbosa ainda não tinha nem Ginásio de Esportes. Foi na década de 70 e poucos, ainda.
O senhor chegou a pegar a transição da rádio no Rex Pópuli para o convento onde é hoje?
Sim, eu estava e, inclusive, ajudei a carregar as coisas. Nós ficamos dois dias fora do ar. Porque além da mudança, porque foi comprada mesa nova, estúdio novo e tudo, foi alterada também a torre, a antena. Quem montou a antena foi o Frei Nicolau, sozinho. Ele montava em partes, dentro do corredor da rádio no Rex Pópuli. Peça por peça. E eram pedaços de três em três metros. Então ele montava, apertava todos os parafusos e foi emendando tudo lá em cima no Borghetto. Ele montou nas horas de folga dele. A Rádio Garibaldi, apesar do nosso município pequeno, nos anos 1970 foi a primeira rádio da região a transmitir com aparelhagem GATES. Era o último grito na época em transmissão de radiodifusão. Mesa de som GATES. Nós gravávamos os comerciais em cartuchos. Os cartuchos eram de cristal, transparentes, e a fita ia girando dentro. Enquanto que está passando, ela já está voltando. Porque daí quando terminava já estava no ponto. Não é que nem fita cassete que tem que voltar. Essa era vantagem. Então tinha cartuchos de 20 segundos, de 30 segundos, de 45, 1 minuto. Se era de mais de 1 minuto já ficava pesado. Mas tinha uns de mais, 3, 4 minutos que nós gravávamos as músicas, inclusive. Tinham algumas músicas, já que a gente não tinha recurso de comprar muitos discos, a gente gravava ou conseguia uma gravação em cassete e passava para os cartuchos, porque tinha maior qualidade de som. Então tinha muitas músicas em cartuchos, porque nós não tínhamos muito dinheiro para comprar discos. Nunca me esqueço daquela música do Elton John, “Don’t go break my heart”. Era um baita sucesso, só que nós não tínhamos. E nós conseguimos gravar ela em cartucho e rodávamos. E nós fomos os primeiros com este tipo de transmissão. A Rádio de Bento lia os comerciais ao vivo todos os dias. E durou anos. Eu saí em 87 e era ainda esse sistema.
Onde foi comprada a mesa?
Era importada dos Estados Unidos. Peso de dólar, não era qualquer emissora que podia ter. Os comerciais saíam tudo gravadinhos. Nada lido. Era só apertar um botão. Mas essa mesa a gente já tinha na rádio velha. Quando fomos para a nova foi comprado outra, que daí era utilizada para as gravações.
Então eram quantas salas no total?
Na velha era só um estúdio. Então gravações, que a gente não tinha outro estúdio, a gente sempre fazia depois das 23h, que era quando a rádio saía do ar. A gente desligava o transmissor e utilizava a mesma mesa para gravar os comerciais nos cartuchos. Às vezes saía de lá depois da 1 hora da madrugada.
Quem idealizou os novos estúdios?
O Frei Romoaldo Breda junto com o Frei Nicolau Lucian. O Frei Breda era o principal técnico de todas as rádios dos Freis Capuchinhos, inclusive em Porto Alegre na Difusora. Rádio Difusora Porto Alegre. Em 69 ou 70 eles conseguiram inaugurar a TV Difusora Porto Alegre. Foi ela que fez a primeira transmissão a cores no estado, na festa da Uva de Caxias do Sul.
Qual era a programação da rádio depois de inaugurado os estúdios?
De manhã cedo tinha o Despertar Gaúcho. E depois outro programa era o Clube dos Sócios Ouvintes. Os ouvintes se associavam, pagavam uma anuidade. Tinha lá um armário com 12 gavetas, cada gaveta era um mês e dentro tinha todos os dias do mês. Aí em cada ficha tinha o aniversário do sócio, onde ele morava, e colocava também a esposa e tantos filhos. E fazia o programa para os aniversariantes que eram sócios. Tinha que renovar no ano seguinte e eles iam lá e renovavam.
Que dias da semana era?
Tinha todos os dias, menos no sábado, porque no sábado tinha o Projeto Minerva. Tinha até no domingo o Clube dos Sócios Ouvintes. Esse Projeto Minerva era um programa do governo, assim como é a Voz do Brasil, tinha que colocar das 20h às 20h30min, de segunda à sexta-feira, depois da Voz do Brasil. No sábado era das 13h às 14h e no domingo das 10h às 11h da manhã. A gente entrava em cadeia com a Rádio Guaíba, na época. Então o Clube dos Sócios Ouvintes não tinha no sábado por causa do horário do Projeto Minerva, que coincidia. Porque o Clube dos Sócios Ouvintes era a partir das 13h30min até às 14h. E no domingo era das 13h30min às 15h. Durante a semana, depois desse programa o Vandenir Miotti tinha o programa Vandenir Show, quando eu comecei na rádio, das 14h às 15h. E eu pegava depois dele, das 15h às 17h o Show da Tarde.
E pela manhã, como era a programação?
Das 6h às 7h30min tinha o Despertar Gaúcho. Das 7h30min às 8h tinha o Jornal Regional de Integração pela Notícia. Começava pela Rádio São Francisco, dava as primeiras informações e passava para a Rádio de Bento. De Bento Gonçalves passava para a Veranense de Veranópolis. Depois passava para a Miriam de Farroupilha e a Miriam passava para nós. E depois voltava para Caxias. Era meia hora de programa. Das 8h às 9h começou o Itália de Nossa Gente. Começou esse programa ainda no Rex Pópuli. A gente tinha receio de que não fosse dar certo, então começamos fazendo das 8h às 8h30min. E deu tão certo que nós dobramos o tamanho do programa, das 8h às 9h. Era só música italiana e foi inédito, nenhuma emissora da região fazia isso aí. Das 9h até às 11h eu apresentava outro programa musical, não me lembro direito do nome. Depois o Vandenir apresentou também. Depois das 11h tinha o Escalada do Sucesso e depois tinha o Reflexão com o Frei Nicolau. Desde a rádio velha ele já fazia esse programa. Ele sempre quis ter o programa dele. Depois o Informativo Tramotina e o Chamada Geral, até às 13h30min, quando começava o Clube dos Sócios Ouvintes.
No final da tarde, qual era a programação?
Depois das 18h era outro programa inédito na região que era música gaúcha no fim da tarde. O nome era Tarde Gaúcha. Nós começamos e depois todo mundo copiou.
O Boletim Hospitalar, o senhor tem recordação?
Sim, o hospital mandava pronto e a gente lia no meio do Chamada Geral, que começava com utilidade pública, daí lia o boletim e depois vinha o Baile, Festas e Torneios. Depois de feito tudo isso, vinha os programas de Salvador do Sul e Barão. Era “A voz de Salvador do Sul”, mas eles mandavam tudo pronto. Eles escreviam e mandavam pelo ônibus. Era até mais o Boletim Hospitalar deles também. E a gente lia. Chegava às 11h da manhã o Frei Nicolau ia até a Rodoviária de lambreta e pegava tudo. E depois, mais tarde, o Dalmáz fez um contrato com a prefeitura de Salvador do Sul, então tinha o Canísio Hoffman, que foi prefeito de Salvador do Sul, ele gravava por telefone. A gente gravava em fita cassete.
E tinha boletim de Barão também?
Sim, tinha o boletim de Barão. Tinha junto o boletim hospitalar de lá também.
À noite, como era a programação?
No sábado e domingo de noite tinha um programa de audiência também que era o Super Boate. Era o Benito que apresentava. Das 20h às 23h. Eu era bem novo na época e ficava lá com ele. O Benito tinha um ótimo gosto musical. Eu olhava as músicas que ele pegava na discoteca, prestava atenção no jeito que ele apresentava, eu tentava copiar muito ele. A gente tem que procurar imitar os bons, certo? Aí depois, em seguida, o Benito acabou saindo e eu pedi para o Dalmáz para eu apresentar o Super Boate. Fiquei anos apresentando esse programa. E olha só o que eu fazia. Eu voltava do colégio de noite, durante a semana, e ficava ouvindo a Rádio de Porto Alegre das 23h à meia-noite. Eu levava pra casa o gravador da rádio e botava o meu radinho portátil do lado do meu travesseiro. Quando o locutor lia uma poesia, eu botava pra gravar. Gravava toda a poesia do cara. Depois, no dia seguinte, eu datilografava toda ela e apresentava no sábado de noite. Eu fazia igual. Colocava até o mesmo fundo musical. Eu acho que tinha mais de 50 poesias que eu gravava. Fazia um sucesso tremendo. Vinha ligação de Bento, de Farroupilha. Era incrível. Tudo pelo gosto de fazer. Cinco ou seis anos eu fiquei apresentando esse programa.
E durante a semana?
Durante a semana também tinha um programa musical, mas eu não consigo me lembrar quem era que apresentava. Mas outro programa que tinha bastante audiência no sábado de noite era de música mexicana. Quem apresentava geralmente era o Conci. Era das 19h às 20h. Encontro com o México. Esse programa continuou depois na rádio nova e tudo. Tinha também o programa da UGE, todos os sábados à noite, das 19h às 20h. O auge do programa foi quando o presidente foi o Francisco Tedesco, que hoje é vice-prefeito municipal. Os jovens iam em peso lá na rádio. Era muito bom esse programa. Tinha também o Programa de Desenvolvimento Rural, depois do Chamada Geral. Um dia quem apresentava era o Sindicato de Trabalhadores Rurais, no outro a Emater de Garbaldi, no outro dia a Emater de Carlos Barbosa, no outro a Emater de Salvador do Sul e no outro quem apresentava era o Edemar Mattuela em nome da Cooperativa Vinícola Garibaldi.
Que artistas tocavam no programa de músicas mexicanas?
A maioria era uns discos do Miguel Aceves Mejía.
Chegaste a apresentar o Informativo Tramontina?
Muito. Quando eu entrei, quem apresentava era o Benito. Depois que ele saiu, começamos eu e o Vandenir. Ficamos anos apresentando. As notícias internacionais e nacionais, a gente recortava dos jornais e colava numa folha. As locais, quem produzia era a Leonice Dalmáz, que era irmã do Dalmáz. Era só a redação, mesmo. Quando a Leonice saiu, quem fazia era a Marlise Miotti, irmã do Vandenir. E depois, mais tarde, era incumbência da Lúcia.
E o programa Costa Fala de Frente, tinha já na década de 70?
Tinha, sim. Mas foi bem depois que eu entrei. Acho que foi mais perto da década de 80. Era todos os domingos. O Elídio Costa vinha lá gravar. Era bastante polêmico, falava alto. Mas era complicado. Tinha algumas vezes que a fita virava, e ele tinha que gravar de novo.
No domingo, qual era a programação?
Ficava no ar das 6h às 23h. Tinha o Despertar Gaúcho normal até às 7h, porque era quando começava o programa do Valdir Anzolin. Era um cantor de Veranópolis e ele gravava todas as quintas-feiras à tarde. Eu gravava com ele. Às 7h em ponto largava a gravação, porque ele gravava com hora e tudo. Não tinha erro. O único problema era se faltava luz, porque desligava o gravador. Quando voltava a luz o gravador tinha parado. Aí tinha que achar o ponto no olho e continuar a gravação. Se faltasse luz era um caos. Outra coisa que me lembro era que no final do ano eu fazia a retrospectiva. Pegava todos os fatos marcantes do mês e selecionava um para colocar na retrospectiva. Nos últimos anos que eu estava na rádio, era eu e a Anete que apresentávamos.
Pra fazer transmissões externas, como era?
Pra fazer as transmissões nos lugares tinha que pegar a linha telefônica. Agora, se tu quer fazer uma transmissão, tu liga para a CRT, diz o local e horário. Quando tu chegares lá vai ter a linha prontinha. Se eram lugares muito distantes, em Bento por exemplo, tinha retorno. Mas se a gente ia fazer uma transmissão de Porto Alegre, a Rádio Garibaldi não pega em Porto Alegre. Então como é que ia ter o retorno lá? Então tinha que ter duas linhas, uma quem manda o som de lá pra cá e outra que recebe o som daqui.
Transmissões de missas, faziam?
Sim, muito. Transmitíamos a missa da Matriz do sábado às 17h do sábado e às 8h30min da manhã do domingo. E na Ermida também sempre teve, no dia 13 de cada mês.
E as festas do interior?
Faz mais agora do que na época. Um dia que a gente ia era o do Colono e do Motorista, aí passava o dia todo em alguma comunidade.
Gravações em fita, tinha alguma coisa?
Em fita nós gravávamos toda a programação por orientação do Dentel – Departamento Nacional das Telecomunicações. Tinha que guardar por 30 dias, se não me engano.
A rádio tinha dificuldades financeiras na época?
Na verdade, quando eu entrei, não estava tão bem assim. Se cabiam 100 cartuchos na prateleira, tinham cerca de 30 ativos. Só que eu e o Vandenir éramos mais jovens que os outros e começamos a colocar umas músicas diferentes. Nós mudamos um pouco a programação. E daí começou a ter mais audiência, até em Bento o pessoal ouvia nós. Até quando o Dalmáz ia pra Bento vender comerciais, eu ia junto e levava um gravador pra entrevistar as gurias das lojas, as funcionárias. E elas gostavam de falar. As moças eram mais extrovertidas que aqui. Elas estavam mais por dentro das músicas e pediam “quero ouvir a música da novela Cuca Legal e ofereço para as minhas amigas”. Eu voltava e deixava a fita no ponto para o outro dia. Aí fingia que era tudo ao vivo. Começou a mudar um pouco a mentalidade. Saiu até no Jornal Semanário, de Bento Gonçalves, que a Rádio Garibaldi dava gosto de ouvir. Foi perto de 1980. Quando eu entrei na rádio, o apelido era Rádio Cachaça, o pessoal chamava mesmo. É a velha história de que Santo de casa não faz milagre. E depois começou a mudar.
Quanto às entrevistas, as pessoas queriam falar na rádio?
Imagine! Ninguém queria falar. Hoje todo mundo dá um dedinho pra falar, mas na época era uma dificuldade pra achar alguém pra dar palavra sequer. Mostrava o microfone, todo mundo fugia.
A rádio ficava no ar até que horas?
Até às 23h. Depois tirava a rádio do ar, fechava as portas e ia pra casa. Cada um tinha a sua chave.
A rádio tinha carro?
O primeiro carro da rádio foi uma Belina azul. Antes era tudo a pé ou, quando era muito longe, de táxi. Compraram em 1975.
E a estrutura?
Quando entrava na rádio, à direita tinha salinha de espera e à esquerda tinha a sala do Dalmáz. Depois tinha uma porta que dava acesso para os estúdios. Tinha um para gravações e outro, último, no final do corredor à direita, que era o titular. Em cima da mesa tinha uma luzinha verde que quando ela acendia era porque tinha gente tocando a campainha lá na frente. Era para não dar o barulho da campainha no ar. Porque a gente fazia tudo, atendia o telefone, a porta, tudo. Isso em final de semana, de noite, quando ficava fechado.
Qual era a frequência?
Quando eu entrei era 1480 kHz. Mas quando eu saí, já era 1410 kHz. E o prefixo também mudou. Era ZYU 47, quando entrei. Depois foi ZYH alguma coisa. E agora é ZYK 246.
E a potência dos transmissores?
Na época era 100 Watts e ia longe. Não tinha interferência. Depois foi pra 250 watts. Depois mudou para 1000 Watts em 77, na mudança de prédio.
Outros nomes da época?
O Vandenir, se eu não me engano, entrou no lugar do Hiltor Mombach e eu no lugar do Flávio Koff. Tinha também o Tercílio Conci, Antônio José Gonçalves.
Algum outro programa ou transmissão que marcou?
Uma é a primeira Fenachamp. Naquele dia que veio o presidente Figueiredo nós fizemos uma transmissão de quatro frentes. A comitiva veio de avião, então ficou o Arlindo Ferreira dos Passos lá no aeroporto. Ele usou o telefone de uma casa próxima de lá. Depois a comitiva se deslocou até o Esqui, que era onde eu estava. E eu transmitia da empresa Pena Branca, que é do lado, porque não podia usar o telefone de lá. Em seguida foram para a Fenachamp, e lá estava o Vandenir. E depois a comitiva seguiu para o Ginásio de Esportes, onde teve o almoço, e eu estava lá também. E na saída do presidente o Vandenir fez a parte inédita. Fizeram uma fila para dar a mão para o presidente, só que na hora de dar a mão o Vandenir deu o microfone. Aí o Figueiredo falou, agradeceu e tudo mais. E nesse meio tempo os seguranças o puxavam e ele tentando se segurar e entrevistar o presidente. E outra transmissão importante foi o Festival do Frango e do Vinho. Acho que foi em 75, promovido pelo Lions Clube. O primeiro festival foi promovido em quatro clubes simultaneamente: na União de Moços Católicos, no 1º de Maio, no Clube 31 de Outubro e no salão Santo Antônio do Bairro Champagne. Era eu, o Vandenir e o Benito Rosa, que acabou tendo que ir em dois lugares. Tinha flases ao vivo e tudo. Ficamos lá até a meia-noite. Foi uma transmissão também inédita.
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