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Polarizados

Gislaine Marins

Alguns dizem que o sistema decimal é o mais semelhante à nossa humanidade, pois teria sido desenvolvido a partir dos nossos dedos. Daí o termo dígito ou, como preferimos, algarismo, palavra que remete à origem árabe da representação numérica adotada no Ocidente, a partir da Idade Média, por facilitar a realização dos cálculos.

Tenho a sensação de que o ambiente digital transformou a nossa índole, exasperando o que era uma característica entre outras, mas não a qualidade mais evidente. O meio informático nos acostumou ao modo binário que predomina no sistema computacional. As respostas que procuramos são fornecidas por exclusão. As propostas que nos são feitas baseiam-se na eliminação daquilo que não nos interessa. A informática não favorece a descoberta do que nos é alheio e não exige de nós dotes de empatia. Obtemos o que esperamos, sem ter que mudar uma vírgula do que já pensamos.

Apesar disso, a informática é um dos sistemas mais complexos que a humanidade já criou. O sistema binário permite que por meio de um cálculo muito simples, baseado na ideia de sim-não ou ligado-desligado, possamos colocar em relação inúmeras variáveis, muito mais numerosas que os nossos dez dedos. Pensemos em milhões de variáveis e em milhões de exclusões que nos dão a falsa sensação de estar imersos em um espaço gigantesco, quando aquilo que aparece na nossa tela, para o nosso consumo individual, é apenas a exclusão de milhares de possibilidades que poderíamos ter e às quais renunciamos pelo prazer de ver exatamente o que queríamos. O sistema binário é a nossa área de conforto e de desumanização: mas não é o vilão da nossa história.

O vilão somos nós mesmos. Se podemos ficar contentes com a nossa bolha é porque alimentamos inadequadamente os nossos circuitos de pensamento. Pensem em um sistema eletrônico, obviamente binário: possui um polo positivo e outro negativo. Quando o sistema sofre uma sobrecarga de tensão, o fusível, elemento colocado para proteger o circuito, queima e desliga tudo. Precisamos do equilíbrio de forças para manter o sistema em perfeitas condições. A bolha é tóxica, é a sobrecarga do nosso sistema binário: olhemos para o fusível.

Quem não sai da própria bolha já perdeu e não percebe que não perdeu sozinho: toda a coletividade, que o dono da bolha ignora, perde junto, pois o sistema funciona no todo, com todas as suas complexidades, que o nosso simplismo, o nosso maniqueísmo, o nosso binarismo de terminal nos faz esquecer. Quem não sai da bolha alimenta a sobrecarga do sistema. E isso pode ser feito com as melhores intenções: sendo bonzinho, por exemplo. Como pensamos em modo dualista, achamos que a polarização cria-se apenas por um lado, que nunca é o nosso. Não funciona assim: a polarização se cria sempre, de todos os lados. É preciso olhar o sistema na perspectiva do fusível, sair da própria posição de elemento polarizador do sistema.

É preciso perceber que a polarização surge muito antes que venham falar de política. Somos polarizados no futebol, na música, nas estações do ano, na comida, nos afetos. Adoro isso. Odeio aquilo. Sim, o meio digital exacerbou ainda mais essa tendência, mas ela já existia dentro de nós. Fazemos coisas horríveis desde a mais tenra idade, quando nos colocam diante de perguntas como: você gosta mais da mamãe ou do papai? Quem não se lembra de ter ouvido essa pergunta na infância? Quem não recorda que a adolescência é a fase de manipular esses afetos para obter a maior vantagem? Quem não sabe que alguns pais usam a polarização deliberadamente para se vingar do cônjuge? Quem pensa que alimentar o fanatismo de um filho por um esporte ou por um time pode criar um padrão de relacionamento?

Então, não venhamos falar de polarização política de forma coloquial ou como expressão do nosso espírito mal-formado de torcida organizada. Conservemos o que nos resta de ética e de dignidade. A política, como já disse várias vezes o Papa Francisco, e como dizem os maiores filósofos da história, é uma arte nobre. Conhecer e participar da política é uma honra para todo cidadão. Defender ideias é uma grande responsabilidade. Espezinhar a política com argumentações vulgares, com encenações simplórias como uma esquete escolar, com o uso de ameaças, com relativizações, com mentiras, com banalizações, com demagogia, é uma ofensa à sociedade. Isso não é polarização, é sobrecarga que alimenta os nossos sentimentos mais baixos, e é uma ofensa para um sistema que idealmente respeita a diversidade, busca a convergência e o bem de todos. O lado da boa política é a sociedade inteira, sem deixar para trás pobres, negros, mulheres, indígenas apenas porque a essas categorias coube o fardo histórico da exploração mais selvagem. A boa política se faz incluindo quem não pode comer. A boa política se pratica sem governar apenas para um lado.

A política é a energia polarizada que circula para manter funcionando a sociedade por meio de tensões controladas, alimentação constante em todos os pontos do sistema, transformações de voltagem. Em um bom sistema político, polarizado adequadamente, não ocorrem faíscas, não acontecem curto-circuitos, não são desperdiçados fusíveis e disjuntores, que permanecem ali apenas por segurança, não para colocarem em colapso o funcionamento da sociedade.

Lembremos, por fim, que a revolução digital comportou necessariamente mudanças nos nossos hábitos e tentemos, ao menos, nos desacostumar com aquilo que nos é familiar. Olhemos para os nossos dedos: nenhum é igual ao outro, todos juntos inspiraram a formação de um dos melhores sistemas de descrição matemática do mundo. E ninguém pensa em fazer cirurgia plástica, como ocorre com os narizes – outro elemento fantástico da nossa natureza e pouco apreciado na sua diversidade – para que tenham todos a mesma grossura, o mesmo tamanho e a mesma agilidade. Sejamos polarizados – palavra que não indica radicalização, mas alimentação – e sejamos inteligentes como raça animal que, à diferença das demais, tem um polegar opositor e milhares de habilidades, inclusive aquela de inventar computadores capazes de calcular de forma binária e mais complexa do que nós mesmos.

(Este texto foi publicado pela primeira vez em novembro de 2019. Deixo aos leitores a reflexão sobre os motivos que me levaram a propor novamente a sua publicação.)

 

Sobre o autor

Gislaine Marins

Doutora em Letras, tradutora, professora e mãe. Autora de verbetes para o Pequeno Dicionário de Literatura do Rio Grande do Sul (Ed. Novo Século) e para o Dicionário de Figuras e Mitos Literários das Américas (Editora da Universidade/Tomo Editorial). É autora do blog Palavras Debulhadas, dedicado à divulgação da língua portuguesa.

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