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Desconhecimentos

Gislaine Marins

Desconhecimentos

Lidar com literatura, descobrir os seus mecanismos e os seus truques, é indispensável em tempos de desconhecimentos. A arte literária possui esta peculiaridade: brincar com o tempo e administrar os momentos de desvelamento aos olhos do leitor. A literatura não nos apresenta apenas histórias que se desenvolvem em um tempo, mas expõe a arquitetura usada pelos escritores para dispor fatos e descrições. Ler é descobrir segredos e encontrar chaves para desvendar mistérios. Por isso, a literatura é fundamental para os nossos dias.

Desconhecemos praticamente tudo, quando achávamos que já tínhamos encontrado o óbvio. O mundo acabou e está ressurgindo como algo supreendente, ameaçador e fascinante. Esses seis meses de pandemia equivalem à descoberta de uma América: não temos vacinas, não temos certeza sobre os protocolos de segurança sanitária, não conhecemos as consequências da crise econômica, não sabemos como tratar as novas necessidades de organização do trabalho, da escola, da família e da vida em geral. Navegamos por um mar desconhecido desprovidos de instrumentos adequados para a nova realidade. Somos chamados à aventura, à coragem, à criatividade e, ao mesmo tempo, à razão, à clareza de objetivos, ao bom senso. Somos convidados a arriscar nossas esperanças com prudência estatística, bem sabendo que números não são suficientes para dar conta da ansiedade, das expectativas e das necessidades concretas e vitais, que podem precipitar o globo em uma situação de descontrole generalizado de um momento para o outro. Por isso, a literatura é um bom guia de viagem.

O que descobrimos quando lemos literatura? Em primeiro lugar, aprendemos a observar o herói. Entendemos como se constrói a sua trajetória, que passos cumpre para afirmar-se no seu contexto, entendemos que desafios e superação de provas são passagens obrigatórias, que erros são inevitáveis, que imprevistos acontecem – para o bem ou para o mal -, que não há trajetória isolada e vitória individual, percebemos que relações são parte do percurso de qualquer personagem. Em poucas palavras: percorremos a nossa trilha de forma coletiva, interagindo, quebrando a cara, competindo e chegando ao final desconhecido no início da história.

Com a literatura aprendemos a avaliar o tempo. Tudo tem a sua hora, tudo carece de tempo para se concretizar. Os fatos possuem um antecedente e uma consequência. O que a personagem faz produz um efeito. Os fatos formam uma cadeia e se desdobram como dominós caindo um após o outro e, às vezes, interrompendo a sequência porque algo escapou aos planos. Assim como dominós enfileirados, no tempo literário também pode haver bifurcações: e por que não podem ocorrer na vida? Nós também podemos vivenciar uma realidade paralela, na qual fazemos conjecturas e analisamos os possíveis desfechos. Viver não é apenas atravessar a realidade, mas atravessá-la com a possibilidade de contrariá-la e repercorrê-la de várias formas até alcançar o que desejamos ou o que podemos.

A literatura também nos oferece uma visão imaginária do espaço. Este talvez seja um dos aspectos mais interessantes, pois a arte literária não admite representações visuais, ao contrário do cinema e de outras artes que incluem a manifestação performática do espaço. Ao ler, é indispensável imaginar a rua, a árvore, o prédio, o trem, o sol que se põe, a cama em que a personagem agoniza. A literatura é um exercício para descobrir novos mundos, com base em dados, análise e intuição.

Para ilustrar isso, gosto de mostrar mapas da época em que a América já tinha sido encontrada pelos europeus, mas ainda era um mistério para eles. O Planisfério de Cantino é um exemplo disso: levado clandestinamente de Portugal para a Itália, em 1502, mostra a costa do Brasil e nenhum contorno a oeste, simplesmente porque não sabiam os que existia a oeste. Só podiam imaginar e esse dado – a imaginação – está claro na falta de contornos. Supunham e sonhavam, mas não sabiam. Desconheciam a Amazônia, o Rio de Janeiro, o sul e o Pantanal que hoje arde e morre. Desconheciam que a qualidade do ar e o equilíbrio do planeta dependiam de um ecossistema que não estava nos mapas e nas conjecturas. Apesar disso, o desconhecimento não impediu que hoje, após séculos de colonialismo e depredação, esse mesmo ecossistema martirizado continue sendo um elemento fundamental para a sobrevivência da vida no nosso planeta.

A literatura ensina isso: a imaginar. Imagine o mundo daqui a dez anos com milhões de árvores a menos, com os níveis do mar elevados, determinando inundações, com verões intermináveis, com secas devastadoras, com insetos invadindo as cidades porque os animais maiores que integravam a sua cadeia alimentar foram dizimados pelos incêndios. É uma catástrofe anunciada pelos fatos que vivenciamos hoje, se não tomarmos nenhuma atitude, se o nosso silêncio e a nossa incapacidade de interpretação prevalecerem sobre a possibilidade de compreender o mecanismo da história que vivenciamos sobre a nossa pele. Pode ser uma catástrofe ou pode ter ser o início de um outro epílogo: imagine se alguém, se muitos alguéns, resolverem seguir o exemplo de Sebastião Salgado, replantando as árvores nativas onde hoje reinam as brasas e as cinzas. Em vinte anos o final da nossa história pode ser verde.

A literatura só não mostra de forma eficaz o sistema complexo no qual está inserida. A linha de montagem de um livro não aparece nas suas páginas de maneira explícita como ocorre com os filmes. O cinema, nesse sentido, é mais eficaz: ao final do filme, elenca atores, técnicos, assistentes, maquiadores, motoristas, fotógrafos, cinegrafistas, roteiristas, enfim, uma série de competências que conjuntamente realizam a obra. Na vida acontece o mesmo. A boa vontade individual é necessária, mas não basta. Serve o trabalho de equipe, a colaboração, a confiança e a certeza de que podemos dar um final feliz à nossa história. Nem sempre é fácil imaginar um desfecho satisfatório quando partimos da tragédia, por isso volto à literatura, a arte que ensina a imaginar o que não vimos e não conhecemos. A arte que melhor do que qualquer outra pode nos conceder alguma esperança em relação aos tempos e aos fatos novos e assustadores que estamos enfrentando. A arte que nos ajuda a acreditar que um outro mundo possível jamais será apenas uma vã esperança.

Sobre o autor

Gislaine Marins

Doutora em Letras, tradutora, professora e mãe. Autora de verbetes para o Pequeno Dicionário de Literatura do Rio Grande do Sul (Ed. Novo Século) e para o Dicionário de Figuras e Mitos Literários das Américas (Editora da Universidade/Tomo Editorial). É autora do blog Palavras Debulhadas, dedicado à divulgação da língua portuguesa.

([email protected]ail.com)

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