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A oração de Jesus: vigiar!

Miguel Debiasi

A secularização da história tem influenciado a forma de oração dos cristãos. A cultura secularizada esvaziou o sentido da oração cristã. Na marcha do secularismo a oração cristã reduziu-se a um simples esquema. Até mesmo a maior festa dos cristãos, a Páscoa tornou-se algo imóvel, tão imutável como o próprio calendário litúrgico. Enquanto, a oração de Jesus influi nos acontecimentos desta terra em prol do Reino de Deus. 

A secularização tornou a oração dos cristãos uma atividade alienante. É da convicção da secularização que a verdadeira oração pode mudar os rumos da história. Dessa forma, a cultura secularizada proporciona uma oração sem História. E, a História sem oração. As pessoas secularizadas vêm o mundo e a história como algo profano, sem sacralidade, ausente dos vestígios de Deus. Além do mais, os acontecimentos procedem uns dos outros, dentro de uma certa regularidade e sendo um resultado de um processo iniciado anteriormente. Há uma cadeia de acontecimentos que parece tudo racional e homogênea diz o teólogo José Comblin.

Em contrapartida, os textos bíblicos mostram que a oração de Jesus é inerente aos acontecimentos da história. Tomemos como exemplo a oração de Jesus em Getsêmani, em que diz aos seus discípulos: “sentai-vos aqui, enquanto eu vou rezar”. Os discípulos Pedro, Tiago e João entram em estado de pavor e angústia com aquilo que o Mestre lhe diz: “minha alma está a morrer de tristeza: ficai aqui e vigiai” (Marcos 14,32-34). A oração de Jesus está vinculada com aquilo que vai acontecer com a história. Desse modo, o conteúdo da oração de Jesus está relacionado as realidades que envolvem as pessoas e a história, como lugar de viver a experiência do Reino de Deus (Mateus 6,7-13).

Muitos acham que a oração cristã e a história são duas coisas distintas e separadas. O decurso da história acontece independentemente de qualquer interferência das orações. Neste caso, a oração vem sempre depois dos acontecimentos. Esta oração não produz nenhum vínculo com as realidades humanas. É uma experiência superficial que não atinge as realidades humanas e que independe da ação do Reino de Deus. Assim, a oração procura neutralizar os fatos, uma desgraça, uma doença e outras tragédias humanas e históricas.

Hoje, essa prática é bastante comum entre os cristãos, como se observa no caso da pandemia da covid-19. Antes da pandemia sacerdotes e pastores, comunidades cristãs católicas e pentecostais, apresentavam-se como portadores de magnífico poder divino, a ponto de fazer curas, milagres aos sedentos fiéis, crentes. Em razão disto, fiéis e crentes ludibriados por tais curas e milagres, chegam oferecer altas quantias em dinheiro. Pior, ofertas à custa de muito sacrifício e de privação pessoal e familiar, por um do poder sacerdotal e de pastores inexistente e que nunca existirá.

Por outro lado, para viver a novidade do Reino de Deus é preciso orar de forma permanente ao Senhor. A oração verdadeira ajudará ao fiel evitar qualquer perigo de alienação e de renegar ações que representam a construção do Reino de Deus. Pela força da oração, Jesus enfrentou a realidade política, religiosa, econômica, social e cultural dos judeus e romanos que o levou a morte. Jesus não desejou a própria morte, não inventou Pilatos, Herodes, Caifás e os sumos sacerdotes, também não perdeu sua liberdade e consciência, a morte deu plenitude e significado para sua livre ação. Por conseguinte, a Morte de Cruz, ilumina toda sua missão profética e eleva ao pleno sentido toda caminhada do povo de Deus.

O Evangelho mostra que a oração de Jesus é verdadeira vigília que permite um tempo necessário para tomar as decisões no firme propósito do Reino. A oração da vigília permite a cada fiel seguidor de Jesus passar do anúncio abstrato da palavra para uma iminência da realização. A oração, não constitui uma agenda que o fiel pode seguir fielmente seu programado, mas é uma fase da previsão, de uma preparação espiritual à determinação prática, diz o José Comblin. Em suma, a oração de Jesus é um ato antes de um fato. Daí um tempo de oração é necessário para qualquer pessoa que queira entrar na missão de Jesus de Nazaré, sem ser ludibriado por pastores e sacerdotes que se apresentam revestidos de privilegiados poderes divinos.

Sobre o autor

Miguel Debiasi

Frei capuchinho. Atualmente é pároco da Paróquia Cristo Rei, de Marau, RS, e Conselheiro do Governo Provincial, eleito no dia 04 de setembro de 2014. Mestre em Filosofia e Teologia.Autor do livro Teologia da Tolerância – um novo modus vivendi cristã, publicado em 2015, pela ESTEF, Escola de Espiritualidade e Teologia Franciscana. Também escreve artigos e crônicas.

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