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Dois males: pobreza e riqueza

Miguel Debiasi

            A sociedade contemporânea dividida em classes sociais de pobres e ricos expressa dois males inaceitáveis: a pobreza e a riqueza. Acumular bens é um mal que fascina a humanidade. A insuficiência de recursos para saciar a fome é mal reprovável. As duas realidades extremas são um atentado à dignidade das pessoas e uma ameaça ao futuro da humanidade.

            Muitas ações podem ser executadas em nível pessoal e comunitário, ou local e mundial, na erradicação da pobreza e no impedimento de acúmulo de grandes fortunas. A mudança inicia na compreensão sobre os estados de pobreza e riqueza. Normalmente entende-se que o contrário de pobreza é riqueza. Esta compreensão leva à ambição e estimula a posse de bens. Por conseguinte, quem vive no estado de pobreza almeja possuir riquezas. Os que desfrutam das riquezas pensam em acumular mais para o futuro. São duas ambições que reproduzem o sistema da sociedade capitalista. As pessoas se inebriam pelos bens, posses. Nesta lógica a sociedade é de competição, conquista, e consequentemente de exclusão, de eliminação do mais fraco. As relações sociais são tecidas com o pobre desejando ter riqueza para superar seu grave problema e o rico pretensioso de mais acumular e de segurança. Logo, a insuficiência de um e a abundância de outro são problemas que ameaçam o futuro da humanidade.

            A superação desta realidade vem da compreensão do significado da pobreza e da riqueza. A pobreza é compreendida em vários sentidos. Um conceito é definido como carência cogonal, restrita às questões básicas da vida cotidiana como alimentação, moradia, vestuário, saúde, etc. Outra compreensão está ligada a questões como falta de rendimentos, bens, riqueza, situação abaixo da média dos rendimentos estabelecidos para sustento diário. Ainda existem outras formas de pobreza, como a carência social e cultural que torna as pessoas incapazes de participar da sociedade. Mas, das compreensões da pobreza, a de maior implicância é a da economia. Ou seja, da falta de rendimentos ou da insuficiência de ganhos para suprir as necessidades básicas do ser humano. Então, o contrário de pobreza não é a riqueza, mas a dignidade. Conquistar dignidade não significa ter riqueza, mas possuir o suficiente para as necessidades cotidianas.

            Quanto à riqueza, refere-se à abundância de dinheiro, de posses. Normalmente define-se como pessoa rica alguém que acumulou uma substancial riqueza em relação às pessoas da mesma sociedade. Isto é, implica viver da relação que faça valer o dinheiro, o capital, como forma de proteção e segurança. Mas, há também a riqueza imaterial que não pode ser medida com base econômica, pois envolve a sabedoria, o conhecimento, a consciência, o estado de espírito. Portanto, ser rico é muito relativo. Contudo, em sociedade contemporânea o conceito é o de possuir muito dinheiro ou capital. Um leve engodo para o ser humano.

            Sendo assim, pobreza e riqueza são dois males, dois lados da mesma sociedade. Estes males mostram que não damos o devido valor à vida humana. Aceitar a pobreza e o exagerado acúmulo é promover desamparo e infelicidade. Aos cristãos, orienta o ensinamento de Jesus: “Bem-aventurados os pobres em espírito, porque deles é o Reino dos Céus” (Mt 5,3). Isto é, viver no espírito. Isto significa dosar e identificar para a vida o suficiente para um viver digno. Melhor dizendo, ter um estilo de vida que implica oposição à pobreza material absoluta e à cobiça, o acúmulo exagerado de bens. Dessa forma, viver uma interioridade consciente de que pobreza e riqueza são males que não condizem com o espírito cristão.

Sobre o autor

Miguel Debiasi

Frade da Província dos Capuchinhos do Rio Grande do Sul. Mestre em Filosofia (Universidade do Vale dos Sinos – São Leopoldo/RS). Mestre em Teologia (Pontifícia Universidade Católica do RS - PUC/RS). Doutor em Teologia (Faculdades EST – São Leopoldo/RS).

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