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O pecado a ser superado

Miguel Debiasi

A doutrina cristã sobre o pecado é bastante extensa. Nos textos da Sagrada Escritura, o pecado é ação que se opõe a obra de Deus. O ser humano peca opondo-se à obra de Deus. Há uma realidade humana e social envolvida de pecado. A superação do pecado exige entender bem o seu significado e de suas consequências para o ser humano e a humanidade inteira.

 

Na Sagrada Escritura há vários termos que são empregados e que se referem ao pecado com diferentes significados. Os biblistas aprofundaram estudos sobre termos hebraicos e gregos que ajudam a construir o conceito de pecado. Nas palavras hebraicas como Chatta’th significa “desviar do caminho, errar o alvo”, no sentido de um erro ou desvio deliberado; Avel e Avon, designa a “falta de integridade, desonestidade, iniquidade”, no sentido de afastar-se intencionalmente do caminho da justiça; Pesha, transmite a ideia de revolta e rebelião contra uma autoridade legítima, no sentido de uma “quebra de aliança”; Rascha, significa “maldade”, no sentido de “culpa moral” ao fugir impiamente das regras estabelecidas; Asham, designa culpa; Ta’a, significa andar errado.

 

Os termos gregos que se referem ao pecado, como: Harmatia, é um termo mais abrangente para o pecado no Novo Testamento, que significa um desvio do caminho da justiça; Adikia, que designa injustiça; Anomos, empregada para referir-se aquele que transgride a Lei; Paraptoma, caracteriza uma ofensa ou transgressão deliberada; Poneros, diz respeito a iniquidade moral.

 

Nos termos hebraicos e gregos o pecado é “o mal moral”, que pode ser compreendido no seus diversos significados e aspectos como: maldade, depravação, perversidade, iniquidade, injustiça, desobediência, rebelião, impiedade, imoralidade e outras. O pecado é uma ação grave e deliberada contra Deus que naturalmente resulta como uma transgressão ao seu plano e sua vontade e Lei. Gênesis diz que o pecado entrou na humanidade como queda do ser humano, personalizado em Adão e Eva que livremente optaram por pecar contra o Senhor Deus (Gênesis 3). Para teologia cristã a natureza humana foi contaminada pelo pecado e ela se livra dele ao praticar o bem em relação a Deus.

 

Do estado da natureza humana deriva o chamado “pecado original”. O pecado original ocorre por não imitação ou prática, mas devido ao estado da natureza humana. Os termos hebraico Adão e Eva designa vida ou a mãe de toda humanidade e de todos os viventes, e assim, todo ser humano nasceu dessa natureza, portanto, pecadora. São Paulo escreve que o pecado entrado no mundo, por sua própria natureza, todas as faculdades da pessoa, incluindo suas decisões, desejos e vontades, estão inclinadas ao mal (Romanos 3,10-12). Na concepção teológica cristã, o pecado original é a raiz de todos os pecados cometidos pelas pessoas durante suas vidas, que geralmente são chamados de “pecados factuais”.

 

A doutrina cristã ensina que o ser humano peca de diversas maneiras e sentidos. Os pecados factuais podem ser tanto interiores e exteriores. Os interiores ocorrem por pensamentos perversos, cobiça e outros, e os exteriores são do tipo furto, roubo, mentira, fraude e outros. O ser humano peca tanto por seus pensamentos como por suas obras, palavras e até mesmo por omissão, ao se fazer indiferente à injustiça e a maldade. A natureza imaculada de Deus exige a reparação do pecado, mediante a prática da justiça (Mateus 12,36; 1Coríntios 4,5; Apocalipse 20,12). São Pedro diz que o caráter santo de Deus exige que toda pessoa seja santa em sua maneira de viver na terra (1Pedro 1,16).

 

O pecado pode ser superado pela pessoa praticando a obra redentora de Cristo, que por este Deus providenciou a libertação do ser humano da natureza pecadora. A libertação do ser humano é um processo, primeiro a pessoa se liberta do pecado recebendo o perdão de Deus. O redimido, liberto do pecado, retorna ao caminho da vida, o qual a Bíblia indica que ele pode chegar à santificação. A pessoa liberta do pecado vive na condição de ressurreição ou de vida nova, elevando a natureza humana (1Coríntios 15,54). Para viver nessa condição de nova criatura em Cristo, será preciso uma vida iluminada pelo Espírito Santo, o Auxiliador enviado pelo Pai e pelo Filho, para que conduza as ações humanas (Gálatas 5,16).

Quando a humanidade se desvia do caminho da justiça, da caridade, da integridade moral, ética, passa trilhar a estrada para as injustiças e pratica o pecado. Em nosso continente o pecado pode ser identificado pela opressão e miséria, atingindo brutalmente milhões de pessoas que não tem o mínimo necessário para a vida. Essa situação social marcada pela injustiça é vista pela teologia e pela Igreja como uma situação de pecado, realidade que não está no caminho de Deus. O teólogo argentino Lúcio Gera, diz que o pecado é ação que subverte as relações entre as pessoas e que dificulta a sobrevivência de milhões de humanos, algo que fere o plano de Deus. O pecado é uma atitude de injustiça pela qual impeço ao outro que tenha vida digna. Pecado é a destruição da própria pessoa, do outro, da sociedade, da humanidade porque impede que haja vida justa e digna.

A falta de moradia, alimentação, vestuário, seguridade social, distribuição equitativa dos bens e outras condições básicas de vida, é pecado, um desvio do caminho de Deus. É não amor pelo outro que gera desigualdade humana e torna visível o contraste com a vontade de Deus (João 10,10). Na América Latina vê-se o pecado pulsando nos ombros do povo, provocado pelo peso de um plano econômico neoliberal que acumula bens em poucas mãos e com isso exclui e extermina milhares de pessoas na pobreza, miséria e fome.

Os cristãos acreditam que esse pecado deve ser superado, basta lutar por uma sociedade mais igualitária e fraterna como propõe com o plano do Criador. A fé cristã acredita ser possível uma humanidade criada à imagem e semelhança de Deus, menos pecadora e mais digna (Gênesis 1,26-28).

  

Sobre o autor

Miguel Debiasi

Frade da Província dos Capuchinhos do Rio Grande do Sul. Mestre em Filosofia (Universidade do Vale dos Sinos – São Leopoldo/RS). Mestre em Teologia (Pontifícia Universidade Católica do RS - PUC/RS). Doutor em Teologia (Faculdades EST – São Leopoldo/RS).

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