Depósito 146 anuncia o encerramento das atividades
Decisão foi do idealizador do espaço, o artista visual Giovano Durante
Quem acessa a página do Depósito 146 no Instagram vê, ao lado do tradicional nome da galeria independente de Marau o termo “{KAPUT}”. A palavra vem do alemão e significa “quebrado”, “arruinado” ou “acabado”. E é especialmente nesta última palavra que se concentra o anúncio de hoje: a casa cultural anunciou o encerramento das atividades.
A decisão foi do idealizador do espaço, o artista visual Giovano Durante. “Essa vontade de cuidar mais do meu trabalho particular”, contou ao Página Rosa, quadro de cultura ligado à Tua Rádio Alvorada. “O meu trabalho, que é o que eu já tinha antes, não venho conseguindo dar atenção. Aí, uma coisa começa a anular a outra e eu venho sentindo muito essa necessidade de mudança.”
Segundo Giovano, esse fim seria parte de um importante processo na carreira como artista. “Eu me vejo em um momento em que já passou um bom tempo em que eu já trabalho com a Arte, e não dei os passos que eu acho que são essenciais, que é de mostrar para fora. Essa é a minha grande dificuldade”
Com o encerramento do Depósito, claro, o Página Rosa buscou entender quais os próximos passos do Giovano nesse caminho profissional. “Estou buscando um cuidado mais pessoal para o meu trabalho, mas eu estou participando (eu comecei, há não tanto tempo) de projetos coletivos que já estão em andamento.”
Exemplos são o Coral Ssanta Cecília, a Banda Santa Cecília, e a Associação Marauense Amigos da Cultura (AMAC) – em que é secretário da atual diretoria. “Então, eu não estou me desligando da sociedade. Muito pelo contrário, estou querendo buscar formas de me integrar de maneira mais genuína.”
Não aprendi dizer adeus
Falando como jornalista cultural e como alguém que acompanhou todo esse movimento, é difícil dizer adeus. Muitos dos conceitos e ideais que vieram a se transformar no que é, hoje, o Página Rosa surgiram a partir do Depósito 146.
Foram muitos artistas que passaram pelos microfones da Tua Rádio Alvorada, muita movimentação cultural em Marau e até uma identidade de centro artístico para o município na região – que se desenvolveu por conta de todos esses eventos. E, por isso, o meu pedido para que o Gio deixasse uma mensagem final para Depósito 146.
“Um agradecimento por poder ter acontecido tudo que aconteceu”, afirmou o artista visual. “Mas não é num sentido de luto, de culpa ou de falta. É um sentido de poder botar pontos finais para começar outras coisas. Não que tivesse que cumprir algum papel, mas cumpriu o propósito que tinha – o que foi ótimo.”
Giovano destaca um desses propósitos. “Trouxe mais projeções do que é possível e não é possível se fazer com o que a gente tem aqui, com as pessoas que a gente tem aqui, com as coisas que a gente busca. É uma pena, enfim, que tenha acabado, mas, para mim, vem muito mais como um respiro, assim.”
No meio da entrevista, uma frase vem em mente. “‘Better burn out than to fade away’... Alguma coisa assim. Que é ‘melhor queimar de uma vez do que, aos poucos, ir sumindo. O Depósito meio que foi as duas coisas para mim, ao mesmo tempo. Foram três anos – que não é tanto tempo. Mas, ao mesmo tempo, foi muito tempo para mim.”
“Foi uma coisa muito boa, no sentido de queimar, de trazer inspiração para mim e para as pessoas que compartilharam e participaram”, conta Giovano. “Mas, também, teve o seu desgaste, que leva ao fim... até porque, eu não morri, né. Esse é o grande ponto [risos]. Eu estou vivo e quero poder fazer mais coisas, viver outras coisas. É isso.”
E ele finaliza: “Por fim, o que resta é o agradecimento por cada pessoa que tornou possível esse porvir incerto da arte longe demais das capitais. Quem pegou junto para criar a nossa quimera, com nossas cabeças, rabos e pernas malucas. Graças aos seres que se permitiram pertencer e eclodir na balbúrdia desse útero. Depósito 146 que, agora, fecha novamente as pernas para processar outras ecdises.”
Três anos, um movimento
O Depósito 146 surgiu em novembro de 2021, com a exposição Porvir. Desde essa primeira mostra, o espaço foi acumulando um acervo de obras de artistas independentes de toda a região Norte do Rio Grande do Sul.
“O Depósito fluiu muito nesse sentido, desde o início, dessa intenção de liberdade criativa, de explorar o potencial criativo de cada um, ao mesmo tempo em que eu fui me interessando mais por música” explicou Giovano ao Página Rosa. “Com o passar dos eventos, sempre tinha essa abertura das pessoas se sentirem à vontade para se soltar, fazer barulho, pintar desenhar, enfim, colocar para fora o que te encanta no mundo, o que te move.”
A segunda exposição foi em 19 e 20 de fevereiro de 2022, o projeto Quimera. Foram pelo menos 16 artistas, grupos musicais e trupes teatrais, todos independentes, momento que o Giovano destaca como criador de uma espécie de movimento cultural.
“De juntar artistas de regiões diferentes”, analisou o artista visual. “O Quimera, que foi o segundo evento e que foi o maior, trouxe artistas (para se apresentarem e exporem) de Carazinho, de Nova Prata, de Soledade, de Passo Fundo. E artistas que já tinham um trabalho muito interessante e que compraram a ideia.”
“É uma coisa que vai para fora”, complementa sobre o Quimera. “Acho que isso é o mais importante. A intenção era conseguir consolidar pessoas, aqui, para poder manter o espaço mais ativo. Isso não aconteceu muito, mas o oposto aconteceu: pessoas que vieram, frequentaram, participaram, foram para a fora e desenvolveram seus próprios projetos.”
Em janeiro de 2023, iniciou uma série de eventos de experimentação junto a grupos musicais: os Balbúrdias. O primeiro foi com a banda marauense Órbita Mente. Foram outras três edições do projeto: com Cecília Tres em dezembro de 2023, com Marcelo Ajalla em maio de 2024 e com Andrés Ajrosmen em outubro de 2024.
Outra iniciativa da casa de cultura foi o Cinedepósito. Realizado, pela primeira vez, em setembro de 2023, a proposta era de criar uma sessão de cinema gratuita e aberta ao público. Foram duas exibições do longa-metragem “Tatuagem”, de Hilton Lacerda.
Comentários