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Solidariedade traída: o lucro sobre a dor no Rio Grande do Sul

Miguel Debiasi

O termo lamaçal, do latim, significa “lama” ou “lodo”. O termo também é usado em sentido figurado para descrever uma situação moral degradante, desprezível ou de grande baixeza. As enchentes de 2024 deixaram não apenas um rastro de lodo, mas também o lamaçal da apropriação indébita de fundos, revelando a baixeza moral de alguns gestores públicos.

A magnitude das inundações que devastaram o estado do Rio Grande do Sul entre o final de abril e o início de maio de 2024 permanece inesquecível para gaúchos e brasileiros. As fortes chuvas que causaram inundações afetaram 478 cidades e 2.398.255 de pessoas, ferindo 806, vitimando mais de 180, e deixando 23 desaparecidos. Foi considerada a maior catástrofe climática e a maior tragédia da história do estado.

O Governo Federal, por meio de diversas medidas, incluindo a edição de medidas provisórias, destinou um montante de R$ 111,6 bilhões em ações emergenciais e estruturantes, além de promover uma grande mobilização para a reconstrução do Estado do Rio Grande do Sul. Os recursos foram destinados para a recuperação de infraestrutura das cidades, ao estímulo da economia local, ao socorro aos empresários, indústrias, serviços, trabalhadores autônomos, ao repasse direto às famílias e à aquisição de moradias. Impulsionado pelos fortes investimentos federais, o Produto Interno Bruto (PIB) do estado cresceu 4,9% em 2024, superando o crescimento nacional de 3,4%.

Para ajudar o povo gaúcho, o Governo Federal adotou um conjunto de ações emergenciais e colocou representantes de todos os ministérios nessa missão. No total, foram criados 358 planos de restabelecimento, 129 de assistência humanitária e 148 de reconstrução; foi criada a Secretaria Extraordinária da Presidência da República e o escritório de governo no Rio Grande do Sul, em Brasília.

Entre as medidas implementadas pelo Governo Federal, destacam-se a suspensão, por três anos, da dívida do Estado junto à União, que liberou cerca de R$ 23 bilhões para os cofres estaduais. Também foram disponibilizadas novas linhas de crédito, através do BNDES, da Caixa Econômica Federal, do Banco do Brasil e da Finep.

No âmbito educacional, o governo realizou o adiamento do Concurso Público Nacional Unificado (CPNU) em todo o país. Também houve mudanças no Enem e no Encceja para os candidatos gaúchos, com a prorrogação de prazos de inscrição e datas diferenciadas para as provas.

As ações sociais emergenciais implementadas abrangem um espectro amplo de assistência, incluindo o envio de cestas básicas e a garantia e unificação do Bolsa Família. Medidas econômicas também foram adotadas, como da liberação do 13º salário e dos benefícios previdenciários.

No âmbito da saúde e da infraestrutura, destacam-se a instalação de hospitais de campanha, o restabelecimento de serviços essenciais, como energia e internet, o desbloqueio de rodovias e a isenção de pedágio. Houve também assistência logística, com arrecadação de doações, caminhos assistenciais e o uso de navio multipropósito para atendimento à saúde.

Grupos específicos também tiveram atenção prioritária, com atendimento direcionado aos povos indígenas, quilombolas, ciganos e povos de terreiro.

No âmbito do atendimento emergencial e da assistência social, destacaram-se o fornecimento de gás para cozinhas comunitárias, o resgate de pessoas e animais, e a entrega de itens essenciais, como 30 ambulâncias e mil computadores para a saúde.

Para a reconstrução habitacional e urbana, foram cruciais o mapeamento das necessidades, a aquisição de moradias por programas como o Minha Casa, Minha Vida, a disponibilização de bombas de drenagem e recursos para obras de prevenção de eventos climáticos extremos.

A retomada econômica e a garantia de direitos foram endereçadas por meio de programas emergenciais de apoio financeiro a trabalhadores, renegociação da dívida de empresas, caravanas de direitos, cultura e turismo.

O Governo Federal implementou um conjunto robusto e multifacetado de medidas para apoiar a reconstrução do Rio Grande do Sul. As ações abrangeram desde a resposta imediata à calamidade até iniciativas de longo prazo para a retomada econômica e social.

Tais medidas, coordenadas em grande parte pela Secretaria Extraordinária da Presidência da República para Apoio à Reconstrução do RS, visaram não apenas reconstruir a infraestrutura, mas também restaurar a dignidade e o futuro do povo gaúcho.

Apesar dos avultados recursos federais destinados à reconstrução do estado, as licitações facilitadas para a execução de programas geram suspeitas de apropriação indevida de verbas. Em novembro de 2025, a Policia Federal deflagou a Operação Lamaçal. Com o apoio da Controladoria-Geral da União (CGU), a ação teve como objetivo apurar suposto desvio de verbas públicas federais destinadas a ações de assistência social no município de Lajeado, no Rio Grande do Sul.

As investigações miram especificamente contratos emergenciais e sem licitação, que totalizam cerca de R$ 120 milhões, firmados em 2024, com indícios de sobrepreço e irregularidades. A Polícia Federal investiga o secretário do Desenvolvimento Urbano e Metropolitano do governo de Eduardo Leite, com suspeita de desvio de recursos federais do Fundo Nacional de Assistência Social (FNAS), destinados às vítimas da tragédia que atingiu milhares de pessoas.

Este caso é apenas um exemplo de como gente sem escrúpulos se apropria de recursos públicos; do lamaçal barrento floresceu o lamaçal da corrupção que corrói o tecido moral da sociedade gaúcha.

Para livrarmo-nos desse lamaçal, as investigações não apenas precisam avançar, mas, uma vez constatados os atos de corrupção, é imperativo que os cofres públicos sejam ressarcidos integralmente e os corruptos, exemplarmente punidos.

 

 

Sobre o autor

Miguel Debiasi

Frade da Província dos Capuchinhos do Rio Grande do Sul. Mestre em Filosofia (Universidade do Vale dos Sinos – São Leopoldo/RS). Mestre em Teologia (Pontifícia Universidade Católica do RS - PUC/RS). Doutor em Teologia (Faculdades EST – São Leopoldo/RS).

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