Falsos modelos, reais corruptos
A coerência ética é a base para a gestão pública que busca o bem comum. No entanto, o cenário político frequentemente revela uma disparidade alarmante: figuras públicas que se apresentam como defensores intransigentes da ética e da moralidade, mas cujas ações e vidas privadas estão repletas de corrupção e desonestidade. Essa hipocrisia flagrante não apenas mina a confiança na política e nos políticos, mas também desestabiliza a governabilidade democrática e prejudica a sociedade que deveria ser servida. Livrar-se desses corruptos é um dever ético.
Na Grécia Antiga, o berço da política, da democracia, da ética, da responsabilidade pública e social, uma pessoa exemplar era compreendida por meio do conceito de areté. Esse termo significava a busca pela excelência ou virtude em todos os aspectos da vida, tanto físicos quanto morais e intelectuais. O ideal de excelência (areté) não era um conceito estático, mas um modo de viver que envolvia a constante dedicação ao aprimoramento pessoal e à realização de seu pleno potencial, em benefício de si mesmo e da comunidade.
No contexto bíblico e na época de Jesus, uma pessoa exemplar era definida por viver em estrita obediência aos mandamentos de Deus, conforme estabelecido na Torá. A virtude central era a obediência e a fé inabalável à Lei Mosaica. Figuras como Abraão e Noé eram reverenciadas como exemplos máximos dessa retidão, lembrados por sua obediência, mesmo diante de ordens difíceis.
Nesse contexto, a justiça significava agir em total conformidade com os princípios divinos, exigindo uma vida íntegra e reta. Essa retidão se manifestava na honestidade irrestrita nos negócios e na inabalável fidelidade aos compromissos assumidos. Atos de bondade e benevolência com o próximo era uma obrigação religiosa, como ilustrado pela tocante história da viúva pobre elogiada por Jesus (Lucas 21,1-4; Marcos 12,41-44).
Na Idade Média, o conceito de pessoa virtuosa variava significativamente dependendo da posição social e da forte influência da Igreja Católica. O ideal de virtude era profundamente moldado pelo teocentrismo, tendo Deus como centro de tudo, e pelas rígidas hierarquias sociais.
O modelo de pessoa exemplar frequentemente personificado era o cavaleiro, que seguia um código de ética e conduta como cavalaria. As virtudes essenciais para um cavaleiro incluíam: coragem e destreza militar, honra e lealdade, justiça e generosidade, fé e piedade, e boas maneiras.
Os membros do clero eram vistos como os guias morais e intelectuais da sociedade. As virtudes esperadas deles incluíam as virtudes teológicas: fé, esperança e caridade; e as cardeais: humildade, castidade, temperanças e diligência, sabedoria e entendimento.
Uma pessoa exemplar na “sociedade líquida” de hoje, um conceito popularizado pelo sociólogo Zygmunt Bauman, que descreve o mundo em constante e rápida mudança, as virtudes necessárias para navegar este ambiente incluem: adaptabilidade e flexibilidade, resiliência emocional e mental, empatia e consciência social, pensamento crítico e discernimento, autenticidade e integridade, engajamento cívico e responsabilidade.
Em suma, a pessoa exemplar na sociedade líquida ou moderna não é um herói inabalável, mas um navegador habilidoso: alguém que pode ajustar suas velas às medidas que os ventos mudam, mantendo um senso de direção moral e compaixão pelos outros.
Para ser um político exemplar na atualidade, é fundamental manifestar um conjunto de virtudes cívicas e éticas que visam, acima de tudo, o bem comum e o fortalecimento da democracia. As virtudes mais valorizadas hoje incluem: honestidade e integridade, transparência, justiça e equidade, responsabilidade, capacidade de diálogo e moderação, empatia e amabilidade, prudência e discernimento e coerência.
O Deputado Federal Sóstenes Cavalcante (PL-RJ), líder do PL na Câmara dos Deputados, teve apreensão de R$ 430 mil feita pela Polícia Federal, ação que faz parte da Operação Galho Fraco. Registros oficiais mostram que, nas eleições de 2022, o parlamentar informou à Justiça Eleitoral possuir apenas R$ 4,9 mil em bens, valor considerado irrisório para um deputado federal em exercício. A operação aponta uso de empresas de fachada, pagamentos por fora e desvio de recursos da cota parlamentar envolvendo assessores e familiares.
O Deputado Sóstenes tem se posicionado contrariamente a projetos de relevância coletiva, a agenda ambiental e direitos sociais. Entre suas ações notáveis estão a defesa da flexibilização de regras ambientais, que incluem o autolicenciamento e a exclusão de Terras Indígenas não homologadas do processo de análise de impacto, medidas criticadas como retrocesso por especialistas e entidades socioambientais.
Na área de direitos sociais, o parlamentar se opôs a iniciativas que buscam proteger vítimas de violência sexual. Ele também figurou entre os líderes de um movimento na Câmara dos Deputados em agosto de 2025 e foi um dos principais defensores da Proposta de Emenda à Constituição (PEC) da Blindagem (PEC 3/21). Em termos de política econômica, votou a favor de interesses de bancos e operadores de apostas (bets), posicionando-se de forma contrária a projetos do governo relacionados ao bem comum.
Pastor evangélico e membro da Igreja Evangélica Assembleia de Deus, o deputado Sóstenes Cavalcante é um bolsonarista fervoroso cujo discurso tem sido frequentemente caracterizado por ataques a movimentos sociais e divergentes políticos. Apresenta-se como bastião da moral e da ética, contrariando as revelações da Operação Galho Fraco, da Polícia Federal, que indicam o envolvimento do líder político e religioso em esquemas de corrupção e desvio de verbas públicas.
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