Cuidar da nossa Casa Comum
Fenômenos climáticos extremos, como secas severas e inundações catastróficas, estão se tornando mais frequentes e intensos, evidenciando uma crise que ameaça a sociedade e o meio ambiente. O maior desafio da humanidade reside na inoperância ou na descontinuidade de políticas ambientais necessárias para combater as causas e mitigar os impactos dessas mudanças. A implementação de ações coordenadas e o compromisso político global são essenciais para reverter essa trajetória e garantir um futuro sustentável.
“A terra fornece o suficiente para as necessidades de todos, mas não para a ganância de todos”. Esta célebre frase resume a filosofia de vida simples e sustentável de Mahatma Gandhi (1869-1948). A frase expressa sua compreensão de que a natureza é abundante para o essencial, mas que o consumo excessivo e a ganância humana geram escassez, uma ideia que ele defendeu ao longo de sua vida.
“É melancólico constatar que a natureza fala, mas a humanidade permanece alheia ao seu clamor”. Essa percepção perspicaz é atribuída ao renomado escritor francês Victor Hugo (1802-1885). Hugo tece uma crítica mordaz à insensibilidade ou à alienação das pessoas em relação ao mundo natural. A afirmação transcende uma simples observação: ela convoca a humanidade a uma profunda reflexão sobre sua relação predatória com o meio ambiente e, fundamentalmente, sobre as condições de sua própria sobrevivência no planeta.
Pioneiro do movimento ambientalista no Brasil, o agrônomo e escritor gaúcho José Lutzenberger (1926-2002) alertou, de forma precursora e contundente, sobre a insustentabilidade do modelo de desenvolvimento predatório e o uso indiscriminado de agrotóxicos. Ele cofundou a AGAPAN (1971), uma das primeiras ONGs ambientalistas do país, e instituiu a Fundação Gaia (1987), dedicada à educação e à agricultura regenerativa.
A luta por políticas ambientais sustentáveis no Brasil teve inúmeras vozes e feito muitos mártires como do Padre Josimo Tavares, assassinado em 10 de maio de 1986, em Imperatriz, Maranhão. Por sua luta incansável na Comissão Pastoral da Terra (CPT) em defesa dos trabalhadores rurais e contra latifúndio, a posse irregular da terra, a fome e a opressão, foi morto por pistoleiros a mando de fazendeiros da região do Bico do Papagaio, como revelou seu próprio testamento, no qual ele já previa seu martírio.
A figura do Chico Mendes, nascido em Xapuri, no Acre, em 1944, filho de migrantes nordestinos, destacou-se como ícone na luta pela preservação da Amazônia e pelos direitos dos povos da floresta. Ele uniu diversos povos da floresta em sua política de resistência contra o desmatamento predatório em busca da reforma agrária. Seu assassinado em 1988, por fazendeiros, marcou a história do país.
O assassinato de Mendes gerou comoção global, reforçando a urgência da proteção da Amazônia e dos direitos de seus povos. Como tributo e forma de dar continuidade à sua missão, o governo brasileiro criou o Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio). Hoje, ele é um símbolo duradouro da luta ambiental e por justiça social no Brasil e no mundo, e sua visão de manejo sustentável da floresta continua a inspirar novas gerações.
A luta social em defesa da Amazônia e de seus povos, fez muitas vítimas. Uma delas foi a missionária norte-americana naturalizada brasileira Irmã Dorothy, assassinada em 12 de fevereiro de 2005, no Pará. Sua morte chocou o país e o mundo, chamando a atenção para a brutalidade dos conflitos agrários no Brasil. Por décadas, Irmã Dorothy, trabalhou na região de Anapu, dedicando-se à criação de projetos de desenvolvimento sustentável e à defesa dos direitos dos trabalhadores rurais sem-terra, ações que a colocaram na mira de fazendeiros e grileiros locais.
De acordo com o relatório da Comissão Pastoral da Terra (CPT) de 2025, dez sem-terra, quatro posseiros e sete indígenas foram assassinados em conflitos agrários. O levantamento da CPT revela que a escala dos conflitos no campo é produto direto da alta concentração de terras no modelo latifundiário e da resistência das comunidades tradicionais e camponesas. Rondônia e Pará figuram como os epicentros dessa violência, sendo os estados mais perigosos do país para quem luta pela terra.
O Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), é uma autarquia federal, criada em 28 de agosto de 2007, pela lei Nº 11.516/2007. Vinculado ao Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima (MMA), o Instituto é responsável por executar as ações do Sistema Nacional de Unidades de Conservação (SNUC).
As competências do ICMBio incluem propor, implantar, gerir, proteger, fiscalizar e monitorar as unidades de conservação federais. Além disso, a autarquia fomenta e executa programas de pesquisa, proteção e conservação da biodiversidade e de educação ambiental. A atuação do ICMBio, fortalecida pela política ambiental do governo federal, é fundamental para reduzir as pressões sobre as florestas, as disputas de terras e combater as atividades ilegais, como a extração de madeira e invasões, contribuindo para a contenção do desmatamento, especialmente na Amazônia e em outros biomas.
O Brasil demonstra uma forte tendência de redução do desmatamento desde 2023, com 2024 apresentando uma queda expressiva de 32,4% na área total desmatada, sendo o segundo ano consecutivo de queda e o primeiro com redução em todos os biomas, conforme MapBiomas. Dados do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE), que em 2025 comprovam, com relação a 2024, a queda de 11,08% na Amazônia e de 11,49% no Cerrado. A meta do governo federal em zerar o desmatamento ilegal até 2030, reforça o avanço para a sustentabilidade ambiental.
Os resultados da redução do desmatamento e o fortalecimento das políticas ambientais, que incluem a atuação das agências governamentais, podem contribuir indiretamente para a redução dos números de mortes e conflitos relacionados à disputa de terras. A intensificação da fiscalização e a presença do Estado nessas áreas ajudam a desestimular a grilagem de terras, a extração ilegal de recursos e as invasões, que são as principais causas de violência no campo e na floresta.
O cuidado com o meio ambiente é, de fato, um dos maiores desafios do século XXI. A crise climática, como alertado pelo Papa Francisco, não é um problema separado das demais crises que enfrentamos; são reais ameaças existênciais reais que exigem ação imediata e coletiva em todo o mundo. Cuidar da nossa Casa Comum exige essa consciência e compromisso contínuos.
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