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Crises da civilização e responsabilidades eclesiais

Miguel Debiasi

 

O historiador francês Pierre Pierrard (1920-2005) estudando a situação humana do momento escreve que “a crise de nossa civilização não tem precedentes”. O filósofo francês Jean Guitton (1901-1999) referindo as crises da civilização contemporânea escreve: “vários ciclos, vários períodos, várias eras acabaram juntos, sem que se possa prever os aspectos da nova era que vai começar”. Certamente toda crise é o espelho do ser humano, do percurso da humanidade. Em contrapartida, a superação de toda e qualquer crise compete a todos humanos e a todas as instituições, como da Igreja e dos cristãos. 

Entre muitas análises e leituras do momento histórico da civilização, o historiador francês Pierre Pierrard destaca alguns aspectos relevantes para a compreensão humana do século XXI: a era industrial, na qual o homem só utilizava as energias físicas sucede-se a era da energia escondida na matéria e, por conseguinte, a era da arma absoluta; o homem se evade da terra, seu cérebro aliviado pelo computador, vê aumentarem seus lazeres e sua liberdade; as sociedades fechadas tendem a desaparecer; a riqueza das nações abastadas exaspera e os povos mais numerosos passam fome; a biologia coloca em questão não só o uso e a finalidade da sexualidade, mas a própria existência da família e até entre mesmo a noção de natureza humana; abrem-se enormes abismos entre as gerações, tornando-as estranhas umas ás outras. Na visão do historiador a era contemporânea passa por um processo de transição civilizatória e de mudanças radicais.

Neste movimento o cristianismo e a Igreja também são atingidos em sua doutrina, ensinamentos e na experiência de comunidade. Um dos sintomas da crise civilizatória é da diminuição do sentido do mistério divino e da vida humana. O fato pode ser definido como a ‘dessacralização da vida e da descristianização da sociedade-humanidade’, passando para uma civilização essencialmente técnica, pragmática que reduz todos os mitos, dogmas e verdades. Nesta transição, ou seja, da dessacralização e da descristianização acontece como se “Deus estivesse morto” como escreve o filósofo alemão Friedrich Nietzsche (1844-1900). Neste movimento civilizatório encontra-se a Igreja Católica empenhando um trabalho de formação e de qualificação de homens e de mulheres à luz do Evangelho. No entanto, se por um lado, a Igreja empenhou por maior consciência da salvação humana pela fé em Cristo fonte da vida, de outro, a sociedade e o mundo buscaram sua liberdade da tutela religiosa para conduzir-se à medida dos êxitos de seu paraíso terrestre. 

No entanto, observa-se que a medida que a civilização mundial busca sua autonomia, encontra-se cada vez mais num “deserto de amor”, diz Pierre Pierrard. Na avaliação do filósofo francês Jean Guitton no comportamento social da civilização contemporânea “subsiste algo de espírito de honra feudal e de estabilidade burguesa”. Isto é, há uma profunda indiferença entre pessoas, povos, nações e classes sociais. Neste contexto de grandes indiferenças humanas desafia a Igreja a promover a dignidade das pessoas, a garantia dos direitos humanos, a justiça social, a liberdade de consciência e a religiosa, do cuidado com o ecossistema e da ‘casa comum’. Pela fé cristã é preciso reagir a todos os escândalos da concentração de renda nas mãos de poucos ricos opulentos e conter as cóleras sociais e políticas aos adeptos do fascismo que se alastram em passos largos pelo mundo. De fato, quando fiéis a Cristo todos os cristãos deveriam opor-se a sociedade da indiferença pela consequência de acreditar na proposta do Evangelho, caminho de libertação e da salvação humana.

Neste momento histórico da civilização brasileira a Igreja e os cristãos são desafiados a maior fidelidade ao Evangelho e de profunda coerência a Cristo fonte da vida, assim agirem em prol de uma civilização que assuma valores do cristianismo. Atualmente um dos grandes dramas das populações empobrecidas para além da ‘dessacralização e descristianização’ da história, é sim da manipulação da religião e da fé cristã em prol de visões políticas nefastas ao povo. Como senão bastasse o movimento de transição da civilização da sacralidade para a secularidade, há uma crise de identidade religiosa fomentada por comunidades cristãs e personagens no seio da Igreja que se apresentam como os mais puros e tementes a Deus. Contudo, em suas ideias e práticas religiosas estão mais para os contra valores do Evangelho e tornando-se ferramentas do ódio, da intolerância e ‘sacerdotes’ do mercado econômico.

Daí a importância da Igreja Católica posicionar-se profeticamente por uma ação pastoral, catequese, espiritualidade e por reflexão teológica que visa assumir de forma autêntica a mensagem do Evangelho. Se há algo que a Igreja acredita e que está inerente a esperança cristã, é da possibilidade real de constituir a nova a civilização, aquela que rejeita as indiferenças sociais e que vive para a comunhão universal (Colossenses 3,10). É este o testemunho que o mundo e a nova civilização secularizada espera dos cristãos-católicos comprometidos com o Evangelho que pregou Jesus Cristo (Efésios 4,24). Diga-se, hoje, de uma missão imprescindível para o rumo da civilização contemporânea.

Sobre o autor

Miguel Debiasi

Frei capuchinho. Atualmente é pároco da Paróquia Cristo Rei, de Marau, RS, e Conselheiro do Governo Provincial, eleito no dia 04 de setembro de 2014. Mestre em Filosofia e Teologia.Autor do livro Teologia da Tolerância – um novo modus vivendi cristã, publicado em 2015, pela ESTEF, Escola de Espiritualidade e Teologia Franciscana. Também escreve artigos e crônicas.

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