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Coração no Evangelho, pés no barro!

Miguel Debiasi

A dicotomia entre o “sapato vermelho” e a “sandália no barro” ilustra o dilema da Igreja em sua caminhada atual. A frase do Padre Júlio Lancellotti, “Não luto para vencer, luto para ser fiel”, oferece uma chave de leitura para essa direção. Ela enfatiza que a verdadeira missão da Igreja não é o sucesso institucional, mas sim a fidelidade incondicional à mensagem do Evangelho e a dedicação aos vulneráveis, em oposição a uma mentalidade de triunfo secular que pode obscurecer o compromisso cristão essencial.

Com base nas Escrituras e na Tradição, inúmeras metáforas e imagens são empregadas para simbolizar a natureza, a unidade e a missão da Igreja Católica.

O “Corpo de Cristo”, uma das metáforas mais importantes e frequentemente citadas, especialmente nas Epístolas de São Paulo (1Coríntios 12, Efésios 1, Romanos 12), simboliza a união mística e vital dos fiéis com Jesus Cristo, que é a cabeça deste corpo.

A metáfora “Noiva de Cristo” ou “Esposa do Cordeiro”, ilustra o relacionamento íntimo, amoroso e o compromisso indissolúvel entre Cristo (o noivo) e a Igreja (Efésios 5 e Apocalipse 19 e 21).

A “Família de Deus”, expressa o relacionamento entre os membros, que se veem como irmãos e co-herdeiros com Cristo. O “Edifício” ou “Construção de Deus” (1Coríntios 3,9-17; Efésios 2,19-22; 1Pedro 2,4-5): a Igreja é comparada a uma construção, na qual os fiéis são as pedras vivas, e Cristo é a pedra angular.

 O “Candelabro” ou “Luz do Mundo” (Mateus 5,14-16; Apocalipse 1,12-13.20), simboliza a missão da Igreja de ser luz de Deus na terra, irradiando a verdade e a esperança de Cristo para a sociedade.

Mais recentemente, o Concílio Vaticano II enfatizou a metáfora “Povo de Deus”, que expressa sua natureza coletiva e a caminhada histórica da Igreja. Abrange todos os batizados que, pela fé em Cristo, se tornam parte de uma “nação santa, povo adquirido” com a missão de levar a esperança e a salvação de Deus no mundo. 

Há também a metáfora referente a sua prática: “sapato vermelho ou sandália no barro”. Historicamente, os papas usavam sapatos de couro vermelho (chamados múleos) como um símbolo de sua autoridade e do sangue derramado pelos mártires cristãos. A cor vermelha na liturgia representa o fogo purificador, o sangue e o martírio. No entendimento popular, a cor representa também a pompa e o poderio da Igreja.

A imagem da “sandália no barro” evoca a simplicidade e a realidade do cotidiano. O Papa Francisco distinguiu-se ao quebrar a tradição de usar sapatos vermelhos, optando por seus sapatos pretos e surrados de uso diário, um gesto visto como símbolo de humildade e de seu desejo de estar próximo das periferias e do povo comum.

A expressão “barro nos sapatos” é uma metáfora poderosa para ilustrar as dificuldades e desafios existenciais que todos enfrentam, incluindo os membros da Igreja que lutam, trabalham e sofrem junto ao povo, com os pés no chão, ou até mesmo enlameados, como ele próprio disse: “Prefiro uma Igreja acidentada, ferida, enlameada por ter saído às ruas, do que uma Igreja doente pelo confinamento e pela comodidade de se agarrar às próprias seguranças” (Evangelii Gaudium, n. 49). Esse simbolismo ressalta que uma vida cristã vivida segundo o Evangelho, não brilha, mas mostra as marcas do sacrífico.

A vida da Igreja Católica na atualidade se desenrola em um equilíbrio dinâmico entre a fidelidade à doutrina e à liturgia e um forte foco na ação social e na humildade evangélica. O Papa Leão XIV, em curto tempo de pontificado, demonstra um claro compromisso em ser fiel à doutrina e aos rituais tradicionais, expressando uma continuidade histórica. Ao mesmo tempo, ele tem se pronunciado com forte ênfase na missão de conduzir a Igreja ao serviço dos mais pobres e na superação das estruturas de poder em favor da vida evangélica. Suas manifestações em defesa da dignidade humana, como a conclamação às lideranças mundiais para a paz global, e sua abertura para o diálogo inter-religioso, são pilares importantes da vida eclesial na atualidade.

Os cristãos esperam que o Papa Leão siga nos horizontes abertos pelo Papa Francisco, que com sabedoria e coragem revisitou a doutrina, a tradição litúrgica e a pastoral, apontando atitudes que a Igreja deveria manifestar com relação ao Evangelho e ao mundo secular. Francisco, ao se reunir com os bispos do mundo inteiro, não teve medo de enfrentar os desafios internos da Igreja como os crimes financeiros e a pedofilia, afirmando que esse "fenômeno escandaloso” compromete a “autoridade moral e a credibilidade ética” da Igreja.

Em seus 12 anos de pontificado, o Papa Francisco demonstrou uma visão profética ao valorizar as mulheres na vida da Igreja, promovendo-as a posições de destaque no governo da Cúria Romana. Entre as nomeações históricas estão a da Irmã Simona Brambilla, que chefia o Dicastério para os Institutos de Vida Consagrada e as Sociedade de Vida Apostólica; a da Irmã Nathalie Becquart, a primeira mulher a ter direito a voto no Sínodo dos Bispos como subsecretária; e a da Irmã Rafaela Petrini, a primeira mulher a ocupar o cargo de Secretária-Geral do Governatorato, efetivamente a ‘governadora’ do Vaticano.

A metáfora “sapato vermelho ou sandália no barro” expressa bem o momento atual da Igreja, que vive entre a tradição e a simplicidade. O Papa Leão XIV, ao convocar o Consistório Extraordinário, encontro com todos os cardeais realizado nos dias 7 e 8 de janeiro, em Roma, demonstrou perceber a necessidade de um discernimento comum na Igreja e sobre qual direção tomar, equilibrando os símbolos da autoridade com a proximidade do povo, espelhando a sabedoria profética de seu antecessor: coração no Evangelho, pés no barro.

Sobre o autor

Miguel Debiasi

Frade da Província dos Capuchinhos do Rio Grande do Sul. Mestre em Filosofia (Universidade do Vale dos Sinos – São Leopoldo/RS). Mestre em Teologia (Pontifícia Universidade Católica do RS - PUC/RS). Doutor em Teologia (Faculdades EST – São Leopoldo/RS).

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