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O equlibrista e o arame farpado

Gislaine Marins

 

Existe um país onde o espetáculo não pode parar. O público, convidado para sentar na arquibancada, é acolhido por um pipoqueiro com olheiras profundas. A pipoca tem cheiro azedo, de mercadoria emperrada no estoque, mas a aparência é impecável e geneticamente modificada: pode conservar-se por até 25 anos sem apodrecer. É a chamada pipoca longa vida. Alguns espectadores duvidam do produto, mas o pipoqueiro reage com orgulho ofendido: volte daqui a vinte cinco anos com os seus netos para ver! (O pipoqueiro tem feições abatidas, de quem não aguentaria alcançar a aposentadoria, se houvesse benefício para serviçal de circo. Todo mundo sabe que o mundo do circo só tem um destino: a boca do leão e a queda do trampolim sem dispositivos de segurança. Não que os operários não morram como moscas nos canteiros de obras por falta de equipamentos: é que, no circo, morrer estatelado faz parte do número. No picadeiro, os mortos não se tornam mera estatística, viram estrelas no firmamento da tenda.) Obstinado, o pipoqueiro prossegue militarmente entre as filas da arquibancada e retira dos bolsos hastes luminosas, balões personalizados, algodões-doces com forma de elefante ou pavão, dicionários amarelados, gramáticas de latim, apostilas de curso de datilografia, velhas caixas registradoras, um antigo cadillac e enfim consegue atrair a atenção de um comprador. “Quanto você quer por esse caco velho?” “Seis mil reais”, diz o pipoqueiro com ar sofrido pelas toneladas que carrega nas costas. “Você está brincando comigo?” – responde o cliente, enquanto as luzes sob a grande tenda começam a ficar tênues, anunciando o início do espetáculo. “Não, o preço é este, se não quiser, tem quem queira! Por três reais pode levar este livro de geografia de 1970, uma raridade.” “E o que tem de tão interessante aí?” “Ah, o Mato Grosso era um único Estado, Rondônia, Roraima, Amapá e Acre eram apenas territórios e ninguém ficava botando a boca para reclamar di-rei-tos!”. O comprador fica com o livro, não sem antes pedir um desconto e perguntar se está valendo o usucapião para se tornar fazendeiro. O pipoqueiro deixa o homem falando sozinho e segue o seu caminho, na tentativa de conseguir mais algum trocado.

O dono do circo ocupa o picadeiro para anunciar as atrações da noite: “Respeitável público, hoje veremos o incrível espetáculo da mulher contorcionista – pausa para aplausos –, o domador desnutrido – pausa para aplausos –, o trapezista horista – pausa para aplausos –, e a nossa grande estrela, o equilibrista do arame farpado!” A ovação é acompanhada por um show de luzes. “Muito obrigado, muito obrigado!” – diz o dono do circo. “Mas antes façamos uma oração.” O público delira com sua voz poderosa exigindo que o Senhor derrame sobre todos os dons da prosperidade e, antes de anunciar o primeiro número, recorda que todas as filas dispõem de funcionários que vendem o que o público desejar. O circo é capaz de satisfazer todos – “Digo todos!” – os desejos do respeitável público.

A mulher contorcionista entra no picadeiro com um filho no braço, outro pela mão. Na outra mão uma sacola com as compras do supermercado e na outra um ferro de passar. Tira ainda mais duas mãos para segurar uma panela de pressão e um celular. Em seguida, começa a contorcer o corpo a fim de passar o celular para a mão que segura o filho e este para o chão. Com a outra mão pega o ferro que queima o seu braço e com a outra mão pega a panela que estoura e joga o feijão na sua cara. Mas a mulher contorcionista não se entrega: puxa o filho maior com outra mão ainda e atende o celular com a mão que está nas costas, numa contorção de cento e oitenta graus do rosto sujo de feijão. O público aplaude. Ela ergue o bebê com um braço e afunda lentamente na areia do picadeiro, desaparecendo lentamente. O filho maior foge e o bebê, chegando ao chão enquanto os últimos dedos afundam no solo, engatinha na direção dos camarins, enquanto os palhaços entram no centro do círculo para entreter o público no intervalo.

“Boa noite!” – grita o palhaço. Ninguém responde. “Querem falar de educação?” – silêncio na plateia. O palhaço dá uma gargalhada que ecoa tenebrosamente. Os assistentes preparam o número do domador. Trazem uma enorme jaula com um leão e o domador faminto. A fera se aproxima, cheira o homem e volta a sentar. Gira a cabeça em direção ao público, mas o domador chama o bicho: “Gatinho!” O leão olha com ódio para ele. Permanece imóvel. Os tambores começam a soar. De repente, o leão dá um salto e come o pé do domador. Somente o pé. O leão não quer matar o domador, quer vê-lo sofrer.

“Querem falar de educação?” – volta a perguntar o palhaço. Mas o público não responde. Os vendedores das filas estão dispostos a tudo durante o intervalo: aceitam parcelar as compras em cem anos no cartão, oferecem permutas, aceitam órgãos dos clientes com aparente saúde. Por um olho, podem dar uma tevê holográfica. As vendas são um espetáculo à parte.

Entra o trapezista horista. Antes, tinha trabalhado como motoboy, motorista do uber, vendedor durante o Natal no shopping, professor em universidade particular, estagiário, ambulante, muambeiro. Drogas, não. O trapezista horista tem dignidade. Foi ainda manicure, garçom de churrascaria e trabalhou em festinha de criança. Foi com esta bagagem que o circo o contratou por dez minutos para aquela noite. Sobe as escadas cansado, agarra a barra, olha para baixo, olha para o outro lado, de onde o assistente lançará a outra barra, calcula o tempo e se lança no espaço. Dá uma pirueta no ar e cai estrondosamente no chão, porque o lance do assistente não foi sincronizado. O dono do circo entra suado no picadeiro, enquanto o corpo é levado para fora da tenda, e anuncia que o público poderá retornar no dia seguinte para ver o show. O circo irá contratar outro profissional para atender às expectativas, pois o cliente sempre tem razão!

“Um aplauso para o equilibrista do arame farpado!” – pede o apresentador, e o público obedece.

Os holofotes iluminam um homem esguio, com uma vara nas mãos e duas pilhas de livros em cada ponta para contrabalançar o peso. Olha a linha farpada à sua frente, suspira e começa a caminhar lenta e firmemente, enquanto os pés enterram as palmas nas farpas e começam a sangrar. Sem mostrar um gesto de dor, o equilibrista prossegue, enquanto os espectadores invadem o picadeiro para recolher gotas de sangue para levarem como lembrança. Ao chegar ao fim da linha, ele não se detém: retorna sobre os seus passos, de costas e com vendas sobre os olhos. Na metade do caminho, perde um pouco o equilíbrio e as pessoas no picadeiro correm com medo que algum livro caia sobre as suas cabeças. Mas o equilibrista recupera a sua harmonia, satisfaz ainda o público com um pouco de sangue e retorna ao ponto inicial. Poderia fazer o mesmo espetáculo por uma noite, por uma década ou por uma vida. O equilibrista tem muito sangue para dar. Mas o espetáculo de hoje está encerrado. Depois da grande estrela da noite, as luzes se apagam lentamente e o público volta para casa, onde irá comer o seu bom prato, ver o seu bom jornal e assistir à sua comovente novela.

Este não é um artigo sobre um país. Não é um artigo sobre um circo.

Sobre o autor

Gislaine Marins

Doutora em Letras, tradutora, professora e mãe. Autora de verbetes para o Pequeno Dicionário de Literatura do Rio Grande do Sul (Ed. Novo Século) e para o Dicionário de Figuras e Mitos Literários das Américas (Editora da Universidade/Tomo Editorial). É autora do blog Palavras Debulhadas, dedicado à divulgação da língua portuguesa.

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