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Vida, preocupação das civilizações

Miguel Debiasi

 

O cuidado com a vida é preocupação que transcende qualquer época, cultura ou período histórico. As civilizações antigas testemunham a dedicação pela vida humana, e isto revela a fragilidade dos seres humanos e de toda a obra do Criador. O imperativo para cuidar da vida em sua totalidade é que todos somos vulneráveis.

O teólogo alemão Gerhard Uhlhorn escreveu em sua obra em 1882: “Nosso Senhor chama o mandamento do amor, que ele entrega a seus discípulos, de novo mandamento (João 13,34). Assim, pois o mundo antes de Jesus Cristo é um mundo sem amor”. Afirmação que naturalmente com o tempo foi devidamente contestada e desmentida. No que diz respeito ao cuidado com a vida, bastou que se estudasse a História que antecedeu a Era Cristã para constatar a existência de pessoas, grupos e comunidades em situação de vulnerabilidade atendidas com ampla solidariedade. Este cuidado com a vida é possível ser constatado em muitas culturas, como a egípcia, a judaica, a grega e outras, pois todas empenharam tarefas de solidariedade em relação às pessoas fragilizadas de seu tempo.

            Os egípcios usavam o Rio Nilo para esta função de solidariedade, praticada para sobreviver em anos de carência de produção de alimentos. As temporadas de secas eram para os egípcios o sinal de morte da população. As enchentes eram sinal de fartura, de vida abundante. Ao transbordar, o Rio Nilo permitia que o húmus, matéria orgânica que fertilizava a terra, se espalhasse por grandes regiões. Este fenômeno climático natural permitia grandes semeaduras e plantações. Era necessário construir armazéns para guardar o alimento produzido para os anos de carência (Genesis 41,47-57). A região egípcia era desértica, então o Rio Nilo era fonte de pesca e servia de transporte de pessoas e mercadorias, como produtos de alimentação humana e dos animais.

O livro de Gênesis narra sobre a rica função reguladora social do rio Nilo: "Assim ajuntou José muitíssimo trigo, como areia do mar, até que cessou de contar, porquanto não havia numeração. Contudo, acabaram-se os sete anos de fartura que havia na terra do Egito. E começaram a vir os sete anos de fome, como José tinha dito; e havia fome em todas as terras, mas em toda a terra do Egito havia pão. E tendo toda a terra do Egito fome, clamou o povo ao Faraó por pão; e o Faraó disse a todos os egípcios: Ide a José; o que vos disser, fazei. Havendo, pois, fome sobre toda a terra, abriu José tudo em que havia mantimento (os celeiros), e vendeu aos egípcios; porque a fome prevaleceu na terra do Egito”. (Gênesis 41,49-57).

No cenário de morte provocado pela carência de produção prolongada os faraós tomam a iniciativa e encarregam funcionários de administrarem os celeiros e serem responsáveis pela distribuição dos produtos, como os cereais. Um dos encarregados dessa administração chamava-se Amenemope. Num de seus escritos, Amenemope admoesta seu filho a fazer o bem, pelo amor de Deus. Este mestre egípcio coloca três desafios ao povo: justiça, solicitude e gentileza. Acrescenta “Deus ama mais aquele que alegra o humilde do que aquele que honra o nobre”.

Outro belo testemunho no cuidado da vida vem da metade do terceiro milênio antes de Cristo, do egípcio Ptahhotep, como relata um texto sobre as relações humanas. “O cuidado com a vida não deve ser apenas material, mas também capaz de curar as almas”. Este egípcio acrescenta: “para o oprimido é mais importante que ele possa aliviar o seu coração do que se realize aquilo que o trouxe até ali”. Mil anos mais tarde, outro escritor egípcio, Anii, admoesta seu filho: “Duplique o pão para você, dá à sua mãe e carregue-a como ela te carregou. Ela teve trabalho contigo...”.

Ademais, em muitos livros da sabedoria do Egito encontram-se escritos que fazem referência às conhecidas sete obras de misericórdia: Alimentar os famintos; Saciar os sedentos; Vestir os nus; Hospedar os estranhos; Libertar os prisioneiros; Cuidar dos doentes; Sepultar os mortos (Mateus 25,31-46). O egípcio Anii escreveu: “A gente deve dar a comida da gente também ao inimigo e também àquele que chega sem ser convidado” (Mateus 5,43-48). Esta exortação de Anii é atualizada por Jesus ao orientar amar não somente o amigo, mas também o inimigo. No fundo, cuidar da vida é livrar-se de todo mal que prejudica as pessoas. Ao cristão é proibido resistir à orientação de Jesus. Não pode opor-se aos mecanismos que promovem a vida dos outros. Numa possibilidade do coronavírus virar uma epidemia mundial, olhar para as iniciativas da civilização passada é luz para a tarefa de combatê-lo.

Sobre o autor

Miguel Debiasi

Frei capuchinho. Atualmente é pároco da Paróquia Cristo Rei, de Marau, RS, e Conselheiro do Governo Provincial, eleito no dia 04 de setembro de 2014. Mestre em Filosofia e Teologia.Autor do livro Teologia da Tolerância – um novo modus vivendi cristã, publicado em 2015, pela ESTEF, Escola de Espiritualidade e Teologia Franciscana. Também escreve artigos e crônicas.

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