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O presente do futuro

Vanildo Luis Zugno

Que é o tempo? Uma velha pergunta que a humanidade sempre se colocou e que hoje parece em desuso. Vivemos a civilização do instantâneo, do agora, do imediato, onde o que importa é o presente. Mas, concomitantemente, nos queixamos de que tudo passa muito rápido, que não temos tempo para tudo o que gostaríamos de fazer, que a realidade é fugaz, que tudo flui tão rapidamente e temos a impressão de que não somos nós mesmos o que fomos ontem e o que seremos amanhã ainda não o sabemos. Vivemos o paradoxo da atemporalidade e de um tempo que nos devora. Cabe, pois, voltar a pensar o que significa o tempo.

Ninguém melhor que Santo Agostinho para nos ajudar a pensar esta realidade humana. Na obra “Confissões”, Livro XI, ele se pergunta: “O que é o tempo? Se ninguém me perguntar, eu sei; porém, se o quiser explicar a quem me fizer a pergunta, já não sei.” Se ficarmos só nesta frase, parece que o santo africano desistiu de compreender a condição temporal de nossa existência. Mas, em seguida, no mesmo livro, ele nos convida a pensar o tempo não na sequência linear passado-presente-futuro, mas na mistura dos tempos que constitui o âmago da nossa existência: “É impróprio afirmar que os tempos são três: pretérito, presente e futuro. Mas talvez fosse próprio dizer que os tempos são três: presente das coisas passadas, presente das presentes, presente das futuras.”

“Presente das coisas passadas” é aquilo que vivemos e constitui a identidade que carregamos conosco como lastro ou como suporte. “Presente das presentes” é o agora que nos cabe viver e do qual não podemos fugir. Mas o que é “presente das coisas futuras”? Como algo que ainda não aconteceu pode incidir no que somos agora e, por paradoxal que possa parecer, mudar o passado que já se foi?

Se pensarmos bem, isso é mais comum do que reconhecemos. Na linguagem cotidiano, a isso nós chamamos “fé”. Não a fé enquanto conceito intelectual de acreditar no que não pode ser visto ou não pode ser compreendido. Mas a fé enquanto atitude existencial de viver no presente aquilo que sonhamos ser o futuro do ser humano e do mundo.

Quem tem fé em Deus, vive no presente como se já estivesse na presença do Deus que espera ver plenamente na eternidade futura. Se acredita num Deus que é amor, vai viver no presente relações amorosas com as pessoas com as quais convive. Se acredita num Deus de justiça, vai praticar a justiça para com os injustiçados. Se acredita num Deus da vida, vai cuidar das vidas feridas pelas forças da morte. Se acredita num Deus da verdade, vai opor-se a todas as calúnias, mentiras e trapaças semeadas pelos inimigos de Deus.

Essa fé de Abraão, de Isaac, de Jacó e de tantas personagens da tradição bíblica judaica que viveram coerentemente com aquilo que acreditavam ser o desejo de Deus para suas vidas. Essa também é a fé de Jesus que viveu no seu quotidiano aquilo que acreditava ser o projeto do Pai. Com efeito, ter fé significa, acima de tudo, viver no presente aquilo que acreditamos ser o mundo futuro.

Aquele que pratica no presente o contrário daquilo que afirma ser o ideal para o futuro, ou não tem fé, ou é mentiroso. Para enganar os outros, pode apresentar sonhos de futuro mirabolantes que não se concretizam em suas ações no presente. Com isso até é possível que engane alguns incautos. Mas, não passará muito tempo e a sua máscara cairá e todos perceberão que o seu futuro, na verdade, é o retorno do passado de morte e o sonho da sua continuidade num presente sem fim. Mas ninguém vive sem sonhos, sem futuro, sem fé. E os que se deixaram enganar, em pouco tempo, retomarão seus sonhos e sua fé e destruirão o devorador do tempo para que o presente volte a ser futuro e todos possamos voltar a sonhar.

Sobre o autor

Vanildo Luis Zugno

Frei capuchinho. Graduado em Filosofia (UCPEL – Pelotas) e Teologia (ESTEF – Porto Alegre), mestre em Teologia (Université Catholique de Lyon – França), é professor de Teologia na ESTEF e no UNILASALLE (Canoas) e doutor em Teologia na EST (São Leopoldo).

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