O desafio de viver relações reais
“Todo viver real é encontro”. Essa famosa frase de Martin Buber mostra que nós existimos de verdade apenas quando nos relacionamos com o outro. Toda vida é relação. Hoje, no tempo da tecnologia rápida, o nosso maior desafio é superar as conexões superficiais e construir relações sólidas, duradouras e transformadoras.
O filósofo e teólogo Martin Buber, em sua obra Eu e Tu (1923), defende que a nossa existência só ganha sentido e completude a partir das relações que estabelecemos. Para Buber, existem duas formas de se posicionar diante do mundo: a relação Eu-Tu e a relação Eu-Isso. Na era digital, interpretar essa máxima exige olhar criticamente para como as telas alteraram a nossa forma de interagir e de viver em sociedade.
A atitude do Eu-Isso ocorre quando o outro é tratado como um objeto de experiência, utilidade ou consumo. Buber reconhece que o “Isso” é necessário para à sobrevivência e à ciência, mas o isolamento nele adoece a alma humana. Esse cenário precisa ser compreendido se quisermos contrapô-lo e superá-lo por meio de relações reais, justas e éticas.
Nas redes sociais, as pessoas frequentemente se transformam em avatares e produtos, cujos valores são quantificados por curtidas, comentários e visualizações. Quando interagimos com um perfil apenas para validar nosso próprio ego ou obter vantagens, reduzimos um ser humano (o “Tu”) a um objeto útil (o “Isso”). Estar conectado a milhares de pessoas digitalmente não significa “viver em encontro”. Pelo contrário: a tecnologia facilita conexões superficiais que mascaram a solidão, operando puramente na esfera do utilitarismo.
O uso massivo da internet e dos smartphones intensificou adoecimentos comportamentais e psicológicos que impactam a saúde coletiva. Quando o “Isso” coloniza o ambiente digital, a sociedade perde a capacidade de estabelecer diálogos autênticos, transformando a hiperconexão em profundo isolamento existencial.
O avanço da tecnologia parece irreversível, tornando o desafio de humanizar as relações algo extremamente complexo. A atitude do Eu-Tu proposta por Buber exige abertura total, reciprocidade e entrega mútua entre dois sujeitos, reconhecendo a integridade e a singularidade de cada um como um fim em si mesmo.
Buber escreveu que “entre o Eu e o Tu não se interpõe nenhum jogo de conceitos, nenhum esquema ... Todo meio é obstáculo”. Na era digital, os algoritmos, os filtros de imagens e as mensagens assíncronas funcionam como “meios” e “esquemas” o que barram o encontro genuíno. O viver real exige desarmar as aparências digitais para nos fazermos verdadeiramente presentes.
Para que o encontro aconteça, é preciso se deixar atravessar pela presença viva do outro. No ambiente digital, isso se traduz em humanizar as comunicações: trocar o bombardeio de mensagens de texto por uma chamada de vídeo em que se olha nos olhos, praticar a escuta empática e genuína nos comentários, fugindo dos linchamentos virtuais e dos discursos de ódio.
No pensamento do filósofo e teólogo Martin Buber, isso hoje significa entender que a tecnologia não anula a possibilidade de encontro, mas exige um esforço ético muito maior para que ele aconteça. O “viver real” na era tecnológica reside na coragem de desligar as notificações quando estamos diante de alguém fisicamente e enxergar o ser humano real que existe por trás da foto de perfil quando estamos conectados. Pois, para Buber, nenhum progresso técnico justifica a redução do outro a um mero dado na rede.
A vida humana é relação. Ela não acontece apenas dentro da sua cabeça e na tela. Ela ganha sentido quando você se conecta de verdade com outra pessoa e com uma comunidade. Isto significa que é preciso estar inteiro na relação sem máscaras ou interesses ocultos. A relação Eu-Tu é profunda e viva. Você enxerga o outro como um ser único, com alma e valor próprio. Há troca genuína, amor e respeito.
É em total sintonia com essa urgência de encontros autênticos que a CNBB (Conferência Nacional dos Bispos do Brasil), por meio das Diretrizes Gerais da Ação Evangelizadora (2026-2032), propõe a necessidade de conversão das relações. Na prática, essa conversão implica transformar o modo de viver a comunhão e a corresponsabilidade de todos os batizados, desdobrando o ideal do Eu-Tu na construção de uma comunidade verdadeiramente conectada e corresponsável.
A conversão das relações é muito ampla, como o modo como as pessoas ou os cristãos se enxergam, se tratam e cooperam dentro da Igreja e com sua missão de evangelização. A CNBB chegou a essa urgência pastoral ao constatar o desafio de um clericalismo ainda latente. Em contrapartida, a Igreja reconhece que, apesar da diversidade de funções e ministérios – sejam bispos, padres, leigos –, todos os fiéis partilham da mesmíssima dignidade recebida pelo Batismo.
Existe hoje um sólido consenso no Magistério eclesial de que é indispensável curar as relações internas para gerar comunhão autêntica. Uma Igreja que prega o Evangelho do amor precisa, obrigatoriamente, testemunhar essa entrega em suas dinâmicas diárias, encontrando em Jesus Cristo o modelo perfeito para renovar as relações entre clérigos e leigos. Dessa forma, a corresponsabilidade deixa de ser apenas um conceito teórico e se torna uma prática viva de autêntica fraternidade.
A conversão das relações almejada pela Igreja engloba uma série de atitudes, como escutar a Deus com profundidade para que cada membro seja, de fato, corresponsável na missão e desenvolva consciência e espírito comunitário. Isso passa por erradicar qualquer forma de preconceito e racismo, garantindo o cuidado e a proteção dos mais vulneráveis. Essa renovação requer que as relações de poder sejam mais horizontais, superando o autoritarismo e valorizando a voz e a dignidade de todos os fiéis.
Essa conversão exige que os meios de comunicação social sejam éticos e superem as fakes news, promovendo a informação na verdade. No cenário digital, a Igreja reafirma, através do Magistério, que a tecnologia jamais deve substituir a pessoa humana, mas servir de ponte para a promoção social e para o encontro real. Afinal, enxergar o outro como um “Tu” vivo e sagrado é o reflexo mais autêntico de uma fé que transforma a sociedade, acolhendo o Reino de Deus, concretizando o mandamento dAquele que nos ensinou a essência das relações humanas: “Vós todos sois irmãos” (Mateus 23,8).
Assim, as Diretrizes Gerais para os próximos anos deixam de ser um mero documento para se tornarem um mapa do caminho. É sob esse horizonte que a Igreja no Brasil projeta suas ações até 2032, convicta de que a eficácia da evangelização no mundo moderno depende, antes de tudo, da verdade e da santidade das nossas relações internas e externas.
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