Apoio espiritual ao golpe
Desde a Antiguidade a religião busca qualificar suas práticas em vista de contribuir positivamente com Deus e com a civilização. A história da humanidade carrega a influência da prática religiosa. Por ser criação humana, a religião, está sujeita a toda espécie de interesses de seus agentes. Nessas situações é preciso afastar-se dos seus agentes para salvar a religião, dado da sua importância para o plano de Deus e para história da civilização humana.
A religião leva-nos sempre a refletir sobre a existência de Deus e das ações humanas. O maior esclarecimento a respeito da existência de Deus é imprescindível à religião e ao seu trabalho de zelar pela elevação da humanidade. A existência de Deus sempre foi um objeto de debate da ciência da teologia e da filosofia. Nenhuma geração chegará ao ponto definitivo quanto a existência de Deus e da importância do papel da religião. Esta questão não é invenção de nosso tempo, todos podem contribuírem com ela de forma positiva, seja pela via científica e empírica ou a vivencial.
Ao debatermos a questão da existência de Deus, iremos sempre em primeiro lugar recorrer ao intelecto e aos argumentos teológicos e filosóficos. Com intelecto e argumentos lógicos chegamos a maiores conhecimentos a respeito da existência de Deus e de sua ação na história. Na luz das ideias e dos argumentos, apontamos um campo de ações da religião a corresponder com a natureza de Deus. A milhares de anos compreende-se a religião como parte constituinte do ser humano e da civilização. Ela está relacionada a valores supremos e imprescindíveis para a humanidade como a justiça, o bem comum e ético.
A existência de Deus e o trabalho da religião estão relacionadas à questão de fé, a experiência. No ocidente e no oriente a fé é algo sensível, uma experiência fundamental. Ambos continuam sendo influenciados pela fé cristã e outras experiências. Nenhum território do planeta terra desconhece a fé e sua prática. A revelação de Deus acontece em todos os espaços e a própria busca pelo ser Superior é questão imanente a todo ser humano e que transcende a qualquer período histórico. É quase impossível descrever o sentido da fé, dado da experiência dos seres humanos.
O ocidente é fortemente influenciado pela fé cristã. Culturalmente e politicamente o ocidente é enriquecido pela ciência da teologia e da filosofia. O ocidente está ancorado ao cristianismo e à fé cristã, onde o pensamento teológico e filosófico criou a base de sua cultura e a estrutura sociopolítica dessa sociedade. Sua influência é tamanha que o pensamento filosófico como platônico e aristotélico foi cristianizado pela teologia e pela fé cristã.
No ocidente, as ciências da teologia e da filosofia se desenvolveram numa certa harmonia e num mútuo complemento. No cristianismo a fé e razão gozam de uma relação de interdependência. Ao longo dos séculos o cristianismo desenvolveu-se com apoio da filosofia. Santo Agostinho, São Tomás de Aquino, São Boaventura foram os grandes formuladores dessa relação inseparável da teologia e da filosofia, da fé e da razão. O ocidente foi conduzido nessa luz, do cristianismo, que traz em sua doutrina teologia e filosofia.
O oriente desenvolveu-se sobre outras concepções filosóficas e teológicas. Nele a cultura árabe-mulçumano floresceu com outras concepções teológicas e filosóficas. É constituído pelo pensamento filosófico sírio-alexandrino, criando uma relação entre fé e filosofia basicamente diferente do ocidente. As leituras dos filósofos gregos e de suas obras como de Platão e Aristóteles com suas traduções, pelos filósofos árabes, como Al-kindi, Alfarabi, Avicena e Averróis, levaram a novas concepções. Isto é, diferente das compreensões do ocidente.
Ocidente e oriente se desenvolvem culturalmente e se comportam politicamente sob a força da teologia e da filosofia, ou da fé e da razão. Com sua estrutura doutrinal ou teológica e filosófica o cristianismo e o islamismo, ou cristãos e mulçumanos buscam pautar o mundo, com suas concepções culturais e suas ideias políticas. Vontade esta que tende a continuar por longos séculos, obviamente, não imune de calorosos debates e de influência na civilização.
A teologia e a filosofia como ciências por força de suas estruturas doutrinais ou conhecimentos e de seus brilhantes pensadores buscou participar da condução cultural, moral, social e ética da civilização de forma positiva. Nos momentos históricos de crises a teologia e a filosofia pautaram calorosos debates que mobilizaram a civilização em torno de caminhos comuns, de soluções coletivas e benéficas para toda a humanidade. O Papa Francisco tem sido exemplar nessa condução, propondo tema como o cuidado com a “casa comum”, com a economia solidária, com os valores espirituais e éticos condizentes com o ensino do Evangelho, orientado a formação e a atuação do Povo de Deus, sacerdotes e religiosos à luz do Cristo, o bom Pastor.
Segundo a delação de Mauro Cid, tenente-coronel da ativa do Exército Brasileiro, ajudante de ordens do ex-presidente da República Jair Bolsonaro, investigado por diversos crimes, disse a Polícia Federal: o padre José Eduardo de Oliveira Silva, participou da reunião com as autoridades no Palácio do Planalto para elaboração da minuta do golpe militar, dias após as eleições de 2022.
A defesa do padre afirma que a menção dele no inquérito é um erro. A mesma “reiterou-se e ficou claro que o padre nunca participou de qualquer reunião nem colaborou na redação de qualquer documento que visasse favorecer uma ruptura institucional no país”. Já o próprio padre afirmou no depoimento à Polícia Federal que se encontrou com Jair Bolsonaro para prestar “apoio espiritual”. Segundo ele, “apoio espiritual” que prestava durante a campanha eleitoral de 2018.
A verdade é que as investigações sobre o plano de golpe estão avançando e novos depoimentos virão pela frente que poderão esclarecer os fatos. Como cristãos que buscamos viver o Evangelho temos ciências que quando o trabalho religioso e seus agentes se afastam da fonte, do Evangelho, tornam-se objetos de subserviência e de bajulação. Nessa condição, agradece aquele que busca fortalecer sua tirania, seu poderio.
Cristo instituiu sua Igreja e o sacerdócio não para a subserviência e bajulação que aceita uma sociedade desigual. Enfim, viver o segundo o Evangelho exige opção, buscar seguir a Cristo que percorreu outro caminho, não do Palácio e do sistema político ditatorial, sim, da periferia, das vilas, em direção ao povo sedento da Palavra que liberta.
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