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A violência no confinamento

Miguel Debiasi

 

Para o antropólogo brasileiro Roque de Barros Laraia, o comportamento dos indivíduos depende de um aprendizado, de um processo que chamamos de endoculturação. Homens e mulheres agem diferentes em decorrência de uma educação diferenciada. Toda ação humana vem de aprendizado, isto é, de uma cultura. A evolução do comportamento humano, depende um crescimento cultural. Esta parece-nos ser uma necessidade real de nossa época.

Segundo o antropólogo neozelandês Felix Maxwell Keesing (1902-1961), “não existe correlação significativa entre a distribuição dos caracteres genéticos e a distribuição dos comportamentos culturais”. Isto é, as diferenças genéticas não são determinantes para as diferenças culturais. Ou seja, qualquer pessoa ou criança normal pode ser educada em qualquer cultura. Em 1950, quando o mundo se refazia da catástrofe e do terror do racismo nazista, antropólogos físicos e culturais, geneticistas, biólogos e outros especialistas, reunidos em Paris sob os auspícios da Unesco, declaravam: “as diferenças que se manifestam entre culturas, civilizações, povos, grupos étnicos, são antes de tudo um processo cultural, frutos de uma evolução de aprendizagem”. As diferenças culturais, são de fato, uma das características do homo sapiens, do ser humano que evolui na aprendizagem, consequentemente em seu comportamento ético, moral.  

A divisão sexual do trabalho mostra um determinismo cultural, portanto, não é em função de uma racionalidade biológica. O determinismo cultural considera as diferenças, funções e tarefas humanas normais. O determinismo cultural demonstra-se por meio do domínio e da força ou de sobreposição entre os gêneros humanos. O domínio e a sobreposição são vigentes no cotidiano das pessoas. No período da quarentena para evitar a propagação do novo coronavírus, aumentou os casos de violência doméstica em todo Brasil. Segundo dados do Plantão Judiciário do Rio de Janeiro, houve um aumento de 50% dos casos de violência doméstica contra as mulheres. A violência doméstica contra as mulheres, é crescente que representa de 70% a 80% da demanda do Plantão Judiciário.

A cultura da diferença que foi formulada do ponto de vista antropológico, dependente da condição genética, propiciou uma ideia de superioridade do homem em relação à mulher. Esta falsa compreensão com base numa herança genética chancelou um domínio do homem em relação à mulher, tão largamente disseminado entre as civilizações. Numa distinção de gênero, o homem age de acordo com seus padrões culturais, infelizmente vitimando as mulheres pelo seu comportamento agressivo e violento. Em decorrência desta suposta superioridade atribuíram-se tarefas específicas a cada gênero humano. Por conseguinte, no decurso da história, podem-se enumerar as mais diferentes dinastias patriarcais, poderes hereditários, domínios de espaços e de controles sociais, culturais.

Esta é a realidade crescente em presente contexto. Para reverter essa triste situação humana, não basta a natureza criar indivíduos com capacidade racional. Mas, é preciso colocar o alcance das pessoas uma nova cultura, conteúdo suficiente para superar as diferenças históricas de gênero. Enquanto isto não for realidade, infelizmente são as mulheres que precisam de uma proteção imediata, de uma medida protetiva, seja lá qual for para banir atos violentos e de barbárie, disse Adriana Mello, juíza titular da Vara de Violência Doméstica, do Estado do Rio de Janeiro.   

O aumento da violência contra as mulheres mostra que ainda os padrões culturais, para alguns homens são inferiores as forças dos instintos. Obviamente, para a superação desta triste realidade, mais que modificar o aparato biológico do seres humanos, é preciso modificar sua mentalidade e sua cultura. Esta cultura, envolta de saberes ecológicos, ainda parece-nos algo distante, utópico. Pois, observando as pessoas que coordenam o ministério da cultura, de Direitos Humanos e de educação, são avessos a ideia da igualdade entre seres humanos. Lamentavelmente, é um fato real em deprimente e sombrio cenário político nacional.

Antes da pandemia as denúncias de violência contra a mulher já existiam, porém, o aumento do tempo de convivência em casa, aliada a falta de dinheiro e o aumento da pobreza tem trazido sérias consequências no aumento do número de violência e feminicídios. Por outro lado, inúmeras ações têm sido desenvolvidas por organizações sociais que trabalham na defesa das mulheres incentivando e criando meios e canais de fácil acesso para efetuarem as denúncias. Lamentável é que o lar que deveria ser espaço de tranquilidade e segurança, tenha se tornado dor e sofrimento. É notável e preocupante que o aumento da violência está ligado diretamente a falta de políticas públicas eficientes no combate a violência contra a mulher.

Sobre o autor

Miguel Debiasi

Frei capuchinho. Atualmente é pároco da Paróquia Cristo Rei, de Marau, RS, e Conselheiro do Governo Provincial, eleito no dia 04 de setembro de 2014. Mestre em Filosofia e Teologia.Autor do livro Teologia da Tolerância – um novo modus vivendi cristã, publicado em 2015, pela ESTEF, Escola de Espiritualidade e Teologia Franciscana. Também escreve artigos e crônicas.

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