Você está ouvindo
Tua Rádio
Ao Vivo
00:00:00
Igreja no Rádio
05:00:00
 
 

Professora sou

Marta Maria Godoy

Quase não me lembro quando tudo começou. Mas começou quando havia praticamente nada com que brincar “de professora”, a não ser um pequeno quadro verde, com moldura de madeira na qual estavam estampados alguns desenhos. De quê? Não me lembro...  e giz branco, comprado em caixinhas de madeira em formato de cubos. Mas me lembro dos gestos, cuidadosamente executados, das palavras repletas de plurais jamais proferidos em situação de sempre: eu era a professora. Vêm-me à mente as minhas “alunas”, minhas amigas que, pacientes, se sentavam quietinhas, nas cadeirinhas, de pernas bem juntinhas, num recato único. Assim deviam ser, bem comportadinhas. Uns risinhos acompanhavam esse preâmbulo, algumas vezes. Eu não gostava dos risos, afinal, eu não podia rir, eu era a professora. Mas, às vezes, não podia me conter e escapava algo semelhante a um risinho que eu abafava com a mão em concha grudada na boca, afinal as minhas “alunas” eram engraçadas, ali, tão bem acomodadinhas... contudo, não podia acontecer mais! Chhhhhhhhh! O indicador agora selava os lábios fechados da professora que pedia silêncio... e então tudo transcorria normalmente, até que a mãe chamava para fazer qualquer coisa...

Anos se passaram e eu me tornei professora de verdade, pelo menos eu sempre tentei, com curso e tudo. Queria ensinar! Das primeiras experiências, aos 17, na alfabetização de adultos, até percorrer todos os níveis de ensino, decorreram 28 anos de intensa luta para desvendar alguns segredos que nos ajudassem, a mim e meus estudantes, a sair da imensa caverna em todos nos encontrávamos, muitas vezes, em tentativas e mais tentativas de adentrar a alguma construção de conhecimento cabível em nossos anseios.

Não vou descrever aqui tais experiências. Mas quero deixar, neste dia 15 de outubro de 2018, um registro, tal qual sempre, a cada ano nesta data, se insinua em meu coração: a lembrança dos meus estudantes! Desde os que lá estavam, ainda no encantamento dos primeiros anos na escola, passando pelos que ali estavam por obrigação, os olhos matinais muitas vezes apáticos, até os que voltavam à escola depois de a terem abandonado por razões as mais diversas e, ansiosos e encantados, sorriam a cada instante, imersos na felicidade de “estar aqui de volta”... Pois é... pensei em escrever no prosseguimento: “eles ficaram lá atrás”... Mas depois, me lembrei que não, que isso não é possível, que ninguém fica no passado, pois nem há passado! Me lembrei, de repente, da eternidade que pode conter uma palavra, um gesto, um silêncio. E me lembrei de mim, guria ainda, do meu risinho abafado, na brincadeira de criança. Me lembrei que, anos depois destas tardes incríveis, minha realidade se tornou ainda mais incrível: eu podia sorrir junto a meus estudantes, que ainda hoje se presentificam a cada lembrança, a cada nova construção de mim mesma em que me provoco para sair mais e mais da caverna. Professora sou.

Sobre o autor

Marta Maria Godoy

Religiosa consagrada. Graduada em Letras. Pós-graduada em Linguística Aplicada - Leitura e Produção textual. Mestranda em Teologia pela EST/S. Leopoldo, na área de Teologia Prática.

Enviar Correção

Comentários